Por Que Escrevo e Outros Ensaios
12 de Julho de 2008 ⋅ Livros

Por que escreveu Orwell?

Vladimir Nunes
Por Que Escrevo e Outros Ensaios, de George Orwell
Selecção, introdução, tradução e notas de Desidério Murcho
Lisboa: Antígona, 2008, 154 pp.
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Para os leitores de hoje, George Orwell (1903-1950) é sobretudo o ficcionista do distópico 1984 e da sátira anti-estalinista O Triunfo dos Porcos (a sair em breve pela Antígona numa nova tradução, com o título mais lógico de A Quinta dos Animais). No entanto, quem conhece um pouco mais o homem e a obra sabe que Orwell, pseudónimo literário de Eric Arthur Blair, cidadão inglês nascido na índia colonial, foi também um exímio e prolífico ensaísta. Por alguma misteriosa razão, só agora nos são dados a conhecer alguns desses textos, a que a tradução competente de Desidério Murcho faz justiça.

Por Que Escrevo e Outros Ensaios (Antígona), assim se chama o volume de 150 páginas, está longe de ser uma recolha antológica ou definitiva, até porque o acervo em causa é considerável. Mas, apesar das limitações de espaço, o livro resulta abrangente quanto baste para ilustrar as grandes linhas temáticas da ensaística orwelliana. A inclusão de "Por Que Escrevo" e "Um Enforcamento", dois textos tão curtos quanto arrebatadores, seria motivo suficiente para saudarmos esta edição, que bem merece continuidade, face ao volume de textos essenciais deixados de fora.

"Numa época pacífica poderia ter escrito livros ornamentais ou meramente descritivos, e poderia ter ficado sem consciência das minhas convicções políticas. Mas fui obrigado a tornar-me uma espécie de panfletário." É assim que Orwell, socialista democrático, explica em "Por Que Escrevo" a perfeita sintonia do rumo da sua escrita com o do tempo em que viveu. Porém, descanse o leitor, não é preciso ter experimentado na carne e no espírito os extremos do imperialismo e da pobreza — nem a Guerra Civil de Espanha ou a sombra dos totalitarismos do séc. XX — para ler nestas páginas a plena realização do anseio maior do autor: "Fazer da escrita política uma arte".

Vladimir Nunes

Publicado originalmente no jornal Sol (31 de Maio de 2008)
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