Por Que Escrevo e Outros Ensaios
17 de Novembro de 2008 ⋅ Livros

Cumprir o dever

Mário Santos
Por Que Escrevo e Outros Ensaios, de George Orwell
Selecção, introdução, tradução e notas de Desidério Murcho
Lisboa: Antígona, 2008, 154 pp.
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George Orwell (1903-1950) é fundamentalmente recordado como autor de duas famosas alegorias políticas do século XX: os romances Mil Novecentos e Oitenta e Quatro e A Quinta dos Animais. Mas foi também um fértil ensaísta (acolhendo aqui esta designação os mais variegados artigos jornalísticos). Foi sobretudo um comprometido publicista (como antigamente se dizia). Essa qualidade é evidente no volume que a editora Antígona acaba de publicar.

Por Que Escrevo e Outros Ensaios colige oito textos de "intervenção", escritos e publicados entre 1931 e 1946. O mais antigo é o mais breve e é também o único que é ligeiramente excêntrico aos temas centrais do conjunto. Trata-se de "Um Enforcamento" e é o relato de um episódio testemunhado na Birmânia, onde Orwell passou "cinco anos numa profissão desadequada (a Polícia Imperial)". Foi publicado na altura sob o nome civil do autor, Eric A. Blair ("George Orwell" é um pseudónimo).

Os textos não foram aqui ordenados cronologicamente, mas "por afinidade temática". A opção funciona. Os dois primeiros textos são de 1946 (são, portanto, os mais recentes) e expõem com clareza exemplar o pensamento de Orwell, quase se podendo ler depois os outros (que são cronologicamente anteriores) como uma confirmação do "programa" de Orwell enquanto escritor "de intervenção". São igualmente os dois textos deste conjunto que maior repercussão pública obtiveram. Quais são os temas centrais de Orwell? Podemos dizer que é só um e que tem que ver com a radical natureza política da escrita e da linguagem. "Cada linha de trabalho sério que escrevi desde 1936 [o início da Guerra Civil espanhola, na qual Orwell combateu do lado dos Republicanos, "experiência" da qual resultou um livro célebre e influente, Homenagem à Catalunha] fi-la directa ou indirectamente "contra" o totalitarismo […]. O que mais desejei fazer ao longo dos últimos dez anos foi tornar a escrita política uma arte. O meu ponto de partida é sempre um sentimento de militantismo, um sentido de injustiça." — afirma Orwell em "Por Que Escrevo". O segundo ensaio, "A Política e a Língua Inglesa", é escrito para denunciar "a conexão especial entre a política e a degradação da língua", porque "se o pensamento corrompe a língua, a língua pode também corromper o pensamento".

Os ensaios seguintes — "Verdade Histórica", "Linguagem Religiosa", "As Fronteiras Entre a Arte e Propaganda" e "Literatura e Totalitarismo" — foram escritos e publicados em plena Segunda Guerra Mundial e testemunham mais uma vez o combate premente e lúcido de Orwell contra o estalinismo, o fascismo e o nazismo, e contra aqueles que achavam "fácil adular verbalmente a ortodoxia do momento". No final vem o ensaio mais extenso do volume. Intitula-se "O Leão e o Unicórnio: O Socialismo e o Génio Inglês" e foi publicado em livro autónomo em 1941. Entre outras coisas, Orwell descreve virtudes e defeitos da cultura política e social inglesa (a "docilidade" e a "hipocrisia", a "reverência pela lei e o ódio pelos uniformes", etc.), analisa "a força esmagadora do patriotismo" no mundo moderno, fala de razões pelas quais os trabalhistas pareciam condenados a "continuar com a mesma política dos conservadores e deixar de falar de socialismo" e propõe o seu próprio programa de governo, por assim dizer. Mas o que é verdadeiramente memorável neste ensaio é a sua abertura: "Enquanto escrevo, seres humanos civilizadíssimos sobrevoam-me, tentando matar-me. Não sentem qualquer inimizade em relação a mim enquanto indivíduo, nem eu em relação a eles. Estão "apenas a cumprir o dever", como se costuma dizer". Não é necessário citar mais.

Mário Santos

Publicado no jornal Público (20 de Junho de 2008)
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