22 de Janeiro de 2004 ⋅ Ensino da filosofia

O problema da avaliação

Frederico Sólon

É sabido que os cursos ditos da área científica têm normalmente critérios de avaliação bem definidos. Em aritmética 2 + 2 são 4, e se o aluno responde num exame que o resultado da soma é cinco, o mais certo é não passar ou, pelo menos, ser penalizado por isso. O mesmo se passa num exame de lógica elementar. Ou o aluno resolve correctamente os problemas e passa, ou não e chumba. Até aqui tudo bem. Se frequentamos um desses cursos e respondemos com exactidão à questões colocadas, o mais certo é darmo-nos bem; se não, damo-nos mal. Não há qualquer ambiguidade, ou se há, não deixam margem para grandes reclamações.

Podemos pensar que todos os sistemas de avaliação são igualmente simples e rigorosos, mas é um facto que não são. Há de facto sistemas de avaliação, utilizados em alguns cursos superiores portugueses, que são manifestamente deficientes e caducos. São pelo menos quatro as razões que a meu ver contribuem para a deficiência e caducidade desses sistemas. Uma é natural, a outras artificiais. São as seguintes:

  1. O carácter do próprio curso, como por exemplo o de filosofia, que, pelas suas características, se presta a um sistema de avaliação mais dado a ambiguidades;
  2. A ambiguidade interpretativa dos professores, que é permitida pelas características naturais do curso;
  3. A não correcta aplicação dos critérios (nem sempre os melhores) previamente definidos pelos departamentos, precisamente para evitar ambiguidades e proporcionar uma avaliação justa e rigorosa;
  4. A nunca abandonada — e sempre activa — inclusão de preferências pessoais no acto de avaliar.

A resolução do primeiro problema obrigaria a mudanças estruturais profundas. Não sei até que ponto uma mudança rápida será possível. Nem sei até que ponto a comunidade académica está disposta a fazê-la. Certo é que, à vista desarmada, existem bastantes falhas que não se vão resolver a curto prazo. Uma das maiores parece-me ser um autismo mútuo (estranha expressão que bem caracteriza o que se passa) dos diversos sectores que constituem o tecido académico português.

A resolução do segundo problema implicaria automaticamente a perda de liberdade dos docentes. Vejamos: Raros são os académicos em Portugal que não se julgam autónomos e sumamente poderosos em virtude de terem atingido uma posição superior no seio do mundo do ensino. Este autoritarismo manifesta-se sobretudo no acto de avaliar o aluno nos referidos cursos que, pelas suas características, estão mais sujeitos ao aparecimento da tal ambiguidade de que falava acima. Se o professor está agarrado a uma determinada ideia de si próprio, do conteúdo daquilo que ensina, e da certeza apodíctica do seu pensamento — o que acontece quase sempre —, a sua avaliação raramente pode ser isenta; porque não há obviamente uma separação clara entre a correcção daquilo que o aluno diz e as ideias próprias do professor. Os argumentos do aluno diluem-se assim na erudição e argumentação do professor. O mérito do aluno esvai-se tantas vezes injustamente. Mas se, por outro lado, a avaliação fosse realmente isenta, lá se ia por água abaixo a liberdade interpretativa do professor. Do que é que o professor abdica? Do seu pensamento? Do seu currículo? Não me parece. Do do aluno? Certamente.

No que respeita ao problema dos critérios de avaliação existe um problema grave: A definição habitual de critério de avaliação deixa entender que há regras a seguir e cuja aplicação deveria ser uniforme e desapaixonada. Mas isso é uma utopia! O que acontece frequentemente é a manipulação, consciente ou inconsciente, de critérios de avaliação segundo fins doutrinais, pragmáticos ou de índole pessoal. O resultado é uma evidente deturpação dos resultados dos alunos.

A última razão que apontei para o mau funcionamento do sistema é tão universal, conhecida e evidente, que quase nem merecia ser abordada aqui. Apenas de salientar que parece ser alimentada pelo tão típico espírito português da "cunha". No caso do mundo académico torna-se ainda mais ridículo que no dos negócios ou no da actividade politica. Nesses, pelo menos, o tráfico de influências e o jogo da sedução cumprem objectivos económicos ou sociais bem definidos e úteis. No mundo académico parece cumprir apenas um, e risível: o preenchimento do ego dos docentes. É um facto que as afectações e afeições psicológicas ainda ditam os números nas pautas.

Resumindo, o problema central está em como criar um sistema de avaliação isento que julgue o mérito dos alunos apenas por si. Factores como a criatividade, a capacidade de compreensão e desenvolvimento, a capacidade de problematizar e resolver, etc., são avaliados arbitrariamente por muitos docentes. Este não é um problema de fácil resolução. Muitos docentes discordam até radicalmente entre si sobre as mesmas matérias, deixando os alunos na difícil situação de ter de escolher, não conforme as suas ideias próprias, mas conforme aquilo que é mais útil no momento. Confesso que já entrei várias vezes nessas armadilhas, umas vezes com bons resultados, outras com menos bons.

Livrem-se os alunos de criticar as ideias de Aristóteles ou Kant, Darwin ou Freud — o mais certo é estarmos a cometer a falácia ad hominem ou a do homem de palha. Quantas vezes as críticas às ideias de certos filósofos são entendidas automaticamente como uma crítica à figura portentosa que inventou tamanha sabedoria. Quantas vezes as inclinações políticas ditam simpatias e antipatias. Quantas vezes uma palavra ou uma opinião inoportuna comprometem logo um semestre inteiro. Chega-se ao ponto de aliciar os alunos a desistir da cadeira, ou expressar contentamento pela redução das presenças na aula. Enfim, é no que dá falar mais com o quadro e com os próprios botões do que com a parte interessada.

O espírito filosófico dilui-se realmente com a má aplicação de certos sistemas de avaliação. Mas os alunos calam-se, e depois sofrem na pele o resultado dessa indiferença e passividade. Bom, eu não; tenho até apresentado algumas reclamações e normalmente procuro saber os porquês. Alguém me dará eventualmente ouvidos. Se não, paciência — se alguma vez conseguir lá chegar irei tentar fazer um pouco melhor, não deve ser assim tão difícil. Para já vou jogando um jogo viciado. Tem resultado, até agora.

Frederico Sólon
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