5 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Ministério da propaganda

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Até há algumas décadas, quase todos os países tinham ministérios da propaganda. Hoje, isso parece-nos inaceitável porque sabemos que um Ministério da Propaganda mais não é do que um Ministério da Mentira, que procura convencer os cidadãos das mentiras políticas do momento. Num futuro não muito distante, se entretanto não houver catástrofes que mudem os rumos do desenvolvimento democrático, as pessoas encararão a ideia de ter ministérios da educação com o mesmo assombro com que encaramos hoje a ideia de ter ministérios da propaganda.

Há três razões para não desejar que os governantes interfiram na educação.

Em primeiro lugar, é uma arma política demasiado poderosa. Não apenas porque muitas áreas curriculares se prestam a desvios ideológicos (filosofia, sociologia, economia, história, por exemplo), permitindo que os governantes persuadam os futuros votantes das mentiras políticas que quiserem, mas também porque a tentação de todos os governantes é controlar a sociedade do futuro controlando a educação: quando por alguma razão querem mais universitários e menos técnicos superiores, mudam o sistema educativo, para anos depois voltarem a mudar o sistema quando descobrem que era afinal boa ideia ter mais técnicos superiores.

Em segundo lugar, porque a intervenção política na educação gera inevitavelmente incompetência. Quase nenhum político está genuinamente interessado na excelência educativa, e os poucos que realmente o estão enfrentam uma máquina burocrática de funcionários ministeriais que não fazem ideia do que é a excelência educativa — e que seriam incapazes de a estimular mesmo que estivessem interessados nela. As directrizes, formulários, regras, estipulações e tolices de todo o género com que os funcionários do Ministério da Educação afogam os professores têm por fim principal introduzir na escola o único tipo de gestão que os políticos e burocratas conhecem, baseado na mentira política e na manipulação fraudulenta de números.

Em terceiro lugar, porque já ultrapassámos, nos países europeus, o grande desafio que começou nos finais do séc. XIX: dar educação a toda a gente e tornar o ensino de todas as crianças um imperativo reconhecido por todos. Hoje não precisamos mais de ensino público para ter bom ensino universal, tal como não precisamos de um serviço telefónico público para ter bons serviços telefónicos. Precisamos apenas de legislação inteligente, que obrigue todas as escolas privadas, por mais ricas que sejam, a admitir alunos pobres, que terão subsídios directos do estado para estudar. O estado não tem de ser ao mesmo tempo empregador de professores, autor de desenhos curriculares e de exames nacionais, e financiador do sistema; pode limitar-se a financiar o sistema, deixando o ensino entregue a quem sabe de ensino: os professores.

Um dia, encararemos com assombro a ideia de haver um Ministério da Educação. O caminho para isso é tirar cada vez mais poderes ao actual Ministério, devolvendo-o aos professores.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (8 de Junho de 2008)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte