Edifício Acaica, de Alessandro Paiva
29 de Dezembro de 2011 ⋅ Opinião

O anti-racista racista

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Hoje em dia é proibido ser racista. E isto tem duas consequências negativas, relacionadas entre si. Por um lado, fingimos que não há racistas entre nós, quando os há. Por outro, não se compreende o que há de errado no racismo. Os dois aspectos estão relacionados porque se não fosse proibido ser racista seria mais fácil ver o que há de errado no pensamento dos racistas e consequentemente o que justifica a oposição ao racismo.

A situação é caricata porque tanto os racistas como os que se opõem ao racismo concordam com a mesma tese moral errada; apenas discordam quanto ao que, uns e outros, pensam que são os factos. O facto que o racista invoca é uma suposta “superioridade” da raça A relativamente à raça B. E é este facto que o seu opositor disputa, afirmando que não pode haver diferença significativa entre a raça A e a B porque o próprio conceito de raça é biologicamente irrelevante: entre a raça A e a B há biologicamente muito mais em comum do que as diferenças aparentes.

E se não houvesse? E se houvesse realmente diferenças biológicas profundas entre a raça A e a B? O que o opositor confundido do racista aceita, sem se aperceber, é que se de facto houvesse diferenças biológicas profundas entre a raça A e a B, então seria apropriado pôr uma ao serviço da outra. E não se pergunta se tal diferença biológica profunda seria suficiente para o justificar. Não se pergunta porque fazer essa pergunta é fazer uma pergunta filosófica — e nos tempos que correm há o preconceito de que a filosofia foi superada e só os factos contam para discutir seja o que for.

A confusão filosófica dificilmente poderia ser mais profunda. Pois há entre nós seres que são “inferiores” — para usar a terminologia simiesca do racista e do seu opositor confundido — mas em vez de ficarem por isso ao nosso serviço são detentoras de mais direitos e não menos: é o caso das crianças de dois meses, dos idosos senis e dos deficientes mentais. Em nenhum destes casos consideramos que essas pessoas ficam ao nosso serviço por não terem as capacidades cognitivas, discursivas, reflexivas e outras que tem um ser humano adulto saudável. Isto deveria ser suficiente para ver que é irrelevante saber se as pessoas da raça A têm ou não mais ou menos atributos moralmente relevantes do que as da raça B.

Mas a situação é ainda mais ridícula. Pois imagine-se que, em média, era um facto que as pessoas da raça A tinham mais atributos moralmente relevantes do que as da raça B. É ao considerar este aspecto que se torna patente que tanto os racistas como seus opositores confundidos sofrem ambos da mesma confusão filosófica elementar — de tal modo que se pode considerar que ambos são racistas, discordando apenas quanto aos factos. Isto torna-se evidente considerando que os homens são mais rápidos a correr, em média, do que as mulheres; e os mais rápidos dos homens são mais rápidos do que as mais rápidas das mulheres, razão pela qual no atletismo as mulheres não competem com os homens (se o fizessem nunca ganhariam a medalha de ouro). Mas destes dois factos não se segue, perante uma mulher e um homem particulares, que ele é mais rápido do que ela. Na verdade, ao pé de qualquer mulher que pratique atletismo qualquer tolo como eu que não corre há anos lhe fica muito atrás; e as mulheres mais rápidas ganham em corrida aos homens medianamente rápidos, mesmo que este sejam atletas. Seria uma tolice dar-me prerrogativas de rapidez atlética, a mim que não as tenho, em vez de as dar a uma mulher atleta, que as tem, só porque em média os homens são mais rápidos do que as mulheres e porque os mais rápidos dos homens são mais rápidos do que as mais rápidas das mulheres.

É agora fácil ver que tanto o racista como o seu opositor confundido contemporâneo sofrem da mesma confusão filosófica, que é esta: defendem que a consideração moral que devemos a uma dada pessoa não se baseia nos atributos que ela tem, mas antes nos atributos que a raça a que ela pertence tem. Daí que ambos sejam, num sentido mais importante do termo, racistas. São-no porque ser racista é querer tratar um ser humano em particular não em função dos atributos que tem, mas antes em função da pertença a uma dada raça, que tem certos atributos.

Que o racista e o anti-racista confundido contemporâneo são ambos racistas torna-se mais óbvio se considerarmos que ambos concordam com a seguinte condicional:

Se a raça A for “inferior” à B, isso justifica que se ponha qualquer membro da primeira ao serviço de qualquer membro da segunda.

O racista e o anti-racista confundido apenas se distinguem porque o primeiro considera que a antecedente desta condicional é verdadeira, ao passo que o segundo considera que é falsa; mas ambos pensam que a condicional é verdadeira.

Em contraste, um verdadeiro anti-racista pensa que a condicional acima é falsa, afirmando por isso o seguinte: mesmo que, por hipótese, existissem raças, e a raça A fosse “inferior” à B, daí não se seguiria que fosse correcto que as pessoas da primeira fossem exploradas pelas da segunda, nem que teriam menos direitos, nem que lhes devíamos menos consideração, menos respeito ou menos solidariedade; na verdade, seria nesse caso muito mais razoável defender que, à semelhança do que fazemos com as crianças, as pessoas da primeira teriam mais direitos do que as da segunda.

Há casos em que a defesa de J. S. Mill da liberdade para defender publicamente ideias que consideramos moralmente erradas, profundamente erradas, parece evidente: sem o contraste com o erro, uma ideia verdadeira acaba por ser adoptada como um dogma, e pelas razões erradas. Hoje em dia, parece-me que as pessoas são tão acriticamente anti-racistas quanto os seus antepassados eram acriticamente racistas. E ainda que seja preferível uma sociedade acriticamente anti-racista do que uma acriticamente racista, estaremos longe de ter uma sociedade ilustrada enquanto for necessário usar o adjectivo “acriticamente”.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte