13 de Março de 2008   Lógica

Pensar criticamente

A Lógica dos Verdadeiros Argumentos
de Alec Fisher
Tradução de Rodrigo Castro
Revisão de Desidério Murcho
S. Paulo: Editora Novo Conceito, 2008, 332 pp.

A Lógica dos Verdadeiros Argumentos é uma contribuição para os escritos de um campo já bastante vasto e não pretende ser abrangente. No entanto, é única em vários aspectos. Por exemplo, o foco principal não é tanto o raciocínio do dia-a-dia, mas a argumentação teórica do tipo com que os estudantes de faculdade se deparam ao longo de suas jornadas. O livro analisa principalmente argumentos teóricos elaborados sobre o mundo natural, política e filosofia — um tipo de argumento que é complexo, relevante e difícil de enfrentar.

Grande parte deste livro se dedica a discutir exemplos específicos de raciocínio: as fontes vão de Thomas Mathus a Karl Marx, e de Caspar Weinberger a Charles Darwin. Há também um Apêndice, no qual se delineiam algumas das ideias básicas sobre a lógica formal clássica. Esse capítulo inclui uma explicação demorada da noção de validade dedutiva, em termos da noção de forma lógica (estrutura lógica). Além disso, a notação lógica proposicional e da lógica predicativa, as tabelas de verdade e as tabelas semânticas são apresentadas na medida em que são relevantes para o que se expõe. No final, o leitor encontrará um grande número de exercícios seleccionados cuidadosamente.

Esta edição de A Lógica dos Verdadeiros Argumentos apresenta um método diferente de analisar e avaliar argumentos. Discutem-se vários exemplos, de artigos de jornais a trechos de textos clássicos, de excertos mais fáceis e alguns muito mais complicados. Mostra-se aos estudantes como utilizar a pergunta "Que argumento ou indício justificaria a minha crença em Y?"; e também como enfrentar argumentos hipotéticos que começam com a expressão "Suponha que X era verdadeiro...".

Este livro pretende ajudar os estudantes a pensar criticamente a respeito do tipo de argumentos teóricos e fundamentados que costumam encontrar ao longo dos seus estudos, incluindo argumentos sobre o mundo natural, a sociedade, a política e a filosofia. O livro promete ser de bastante utilidade para estudantes e professores de uma ampla gama de disciplinas, incluindo a filosofia, o direito e as ciências sociais.

Excerto

No Capítulo 1, analisamos vários exemplos; a maior parte argumentava a favor de uma idéia e nós os usamos para expor várias lições sobre o raciocínio. Tendo oferecido ao leitor uma amostra da análise de argumentos, apresentaremos agora um método geral de análise e avaliação de argumentos. O método subjaz ao que ficou dito no Capítulo 1, e o leitor que tentou realizar aqueles exercícios deve agora estar pronto para, deixando de lado o enfoque fragmentado, deparar-se com uma lição teórica.

O método a ser descrito aplica-se a qualquer raciocínio, ou argumento, na forma como ocorre na linguagem natural — no nosso caso, o português. Começaremos descrevendo como reconhecer contextos nos quais ocorre raciocínio (i.e., vamos dizer quais são as "pistas lingüísticas"). Depois, descreveremos como descobrir e apresentar a estrutura de um pedaço de raciocínio (saber se estamos ou não diante de uma "cadeia" de razões, etc.). Ao final, explicaremos, na medida do possível, como decidir se o raciocínio é ou não correto.

Por enquanto, não faremos mais do que esboçar o método. Faremos isso de forma a permitir que suas linhas gerais sejam traçadas com clareza, podendo assim ser apreendidas facilmente. Introduzir um número excessivo de qualificações neste momento poderia tornar obscura a simplicidade básica do método: se ele estiver correto, o lugar adequado para desenvolvê-lo e refiná-lo é onde surgem os problemas — na sua aplicação aos exemplos específicos — e é isso o que pretendemos fazer. Nos capítulos subseqüentes, o esqueleto básico será expandido e preenchido à medida que surgir a necessidade. Pretendemos fazer isso à medida que mostrarmos como aplicar o método em vários exemplos instrutivos.

Quase todos os argumentos estudados neste livro foram realmente usados por alguém que pretendia convencer outrem a respeito de um determinado assunto. São todos verdadeiros argumentos — não se trata dos argumentos "inventados" com os quais operam geralmente os pesquisadores de lógica. Foram retirados de várias fontes, desde textos clássicos a jornais. E vêm de várias áreas, apesar de, em sua maioria, terem relação com questões das ciências sociais, de algumas ciências naturais e da filosofia.

Claro que utilizamos a linguagem para muitos outros fins que não o raciocínio. Usamo-la para relatar eventos, contar piadas, realizar convites, narrar histórias, fazer promessas, dar ordens, fazer perguntas, comunicar instruções, evocar emoções, descrever coisas, entreter, e mil coisas mais. (Cabe notar já neste ponto inicial do livro que limitamos nossa atenção a uma área bastante específica da atividade humana, apesar de essa ser uma área de importância muito geral.) Cada uma das atividades mencionadas acima emprega a sua linguagem própria — uma linguagem que nos ajuda a entender o que está acontecendo. Por exemplo, a expressão "Você já ouviu aquela do...?" costuma ser usada para assinalar que se segue uma piada (e não um relato verídico, etc.). "Você gostaria de me acompanhar no...?" é uma forma bastante usada de fazer um convite. A expressão "Não faça isso, senão...!" costuma ser usada para comunicar uma ameaça, e assim por diante. Obviamente, essas mesmas expressões podem ser usadas para fins bastante diferentes, e conhecer o contexto no qual são proferidas é um fator geralmente essencial para que se possa compreendê-las. Seria algo muito complicado determinar como, em termos genéricos, se pode reconhecer uma piada ou uma ameaça ou o que quer que seja (cf. Quando dizer e fazer, de J.L. Austin). E ninguém deveria ficar surpreso com o fato de a linguagem do raciocínio ser também complexa. Mas há várias coisas úteis que se podem dizer.

Índice

Prefácio da primeira edição
Prefácio da segunda edição
Agradecimentos

  1. Introdução
  2. Um método geral para a análise de argumentos
  3. Um primeiro exemplo — de Thomas Malthus
  4. Raciocinando sobre a dissuasão nuclear
  5. Um exemplo de John Stuart Mill
  6. Argumentos sobre a existência de Deus
  7. Como interagem sua mente e seu corpo?
  8. Suponha, por hipótese, que...
  9. Um exemplo de Karl Marx
  10. Avaliando argumentos "científicos". Alguns exemplos iniciais
  11. Pressupostos filosóficos

Apêndice: lógica formal elementar
Exercícios
Bibliografia
Leitura complementar
Índice analítico