8 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Realidades desagradáveis

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Orwell declarou no famoso ensaio "Por Que Escrevo" (1946) que tinha uma "capacidade para enfrentar factos desagradáveis", e esta capacidade é hoje muito rara — especialmente quando ninguém sabe o que fazer para resolver os problemas que resultam de uma realidade que gostaríamos que não existisse. É o que acontece quando se fala de informação de qualidade, criticando os jornais e as televisões por prestarem um mau serviço: raramente se quer ver a realidade — porque é demasiado desagradável. E a realidade é que a maior parte da humanidade não tem qualquer interesse em informação de qualidade; mas tem muito interesse em palermices frívolas. Por isso, os jornais como o Público constituem uma luta perdida à partida para tentar enfiar alguma notícia de qualidade no meio das palermices frívolas — porque são estas últimas que permitem vender o jornal. Se o jornal fosse apenas constituído por notícias de qualidade, o número de pessoas que o comprariam seria tão reduzido que não seria economicamente viável.

Poucas pessoas se dão ao trabalho de pensar como será que se financia a informação de qualidade, porque a resposta é demasiado desagradável: com publicidade. Publicidade a produtos que são mais caros para que as empresas possam anunciá-los nos jornais, que por isso são mais baratos. Ora, a publicidade vive do número bruto de pessoas: um jornal exclusivamente de qualidade quase não teria leitores e por isso não teria publicidade e por não ter publicidade não seria economicamente viável.

Muita gente bate no peito a reivindicar informação de qualidade nos jornais e televisões, mas isto é pura hipocrisia: caso houvesse realmente um grande número de pessoas que preferissem a informação de qualidade à informação carnavalesca do costume — imprecisa, sensacionalista, cheia de meias mentiras — seria um suicídio económico os jornais, revistas e televisões preterirem a primeira a favor da segunda. A verdade é que as pessoas mentem quase todas a si mesmas. Preferem palermices frívolas mas dizem-se adeptas da cultura e da informação de qualidade, dos livros de qualidade e das artes. Contudo, estas mentiras desfazem-se no ácido da verdade que é a vida económica.

Quando surgiu a Internet nasceu uma esperança: porque é mais barato fazer um jornal na Internet do que em papel, tal como é mais barato fazer jornalismo escrito do que televisivo, houve a esperança de surgir na Internet informação profissional de alta qualidade. A esperança morreu cedo porque cedo a Internet se tornou exactamente como a televisão aberta: é gratuita, vive da publicidade, e isso significa que precisa de se encher de palermices frívolas para ser economicamente viável. A única alternativa é o amadorismo — o Vilaça vai para o blog deixar umas postas — mas isto é apenas uma extensão do disse que disse que se encontra nos bares e não constitui um padrão de informação de qualidade.

Estas realidades são desagradáveis. Mas se nos recusarmos a pensar nelas jamais encontraremos soluções adequadas.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (14 de Abril de 2009)
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