Hilary Putnam
17 de Abril de 2008 ⋅ Filosofia da mente

O argumento da realização múltipla contra a teoria da identidade

Miguel Amen
MLAG, Universidade do Porto

1. Introdução

A teoria da identidade mente-corpo floresceu brevemente nos anos cinquenta e princípios dos anos sessenta do séc. XX, e sofreu, ainda incipiente, um ataque de Putnam com o argumento da realização múltipla — ataque de tal forma brutal que muitos pensam que está moribunda senão mesmo morta e enterrada. Neste breve artigo quero apresentar ao leitor uma forma deste argumento.

O argumento da realização múltipla apresenta-se por vezes como um argumento empírico, no qual se oferecem casos factuais de realização múltipla para depois se mostrar as supostas dificuldades inultrapassáveis da teoria da identidade perante estes factos, mostrando simultaneamente como uma versão do funcionalismo os poderia acomodar.

Vou deixar para outra ocasião a avaliação destes dados empíricos e vou concentrar-me na sua forma conceptual como experiência mental.

2. A Intuição de Putnam

Putnam em 1967, no artigo seminal "The Nature of Mental States" que inspirou este tipo de argumentos, diz-nos que os estados mentais não são estados cerebrais, porque uma outra teoria da mente, o funcionalismo, é mais plausível. Assim, a teoria da identidade deve ser rejeitada pois temos razões para pensar que outra teoria descreve melhor a natureza dos estados mentais. Que razões? Parece plausível pensar que os estados mentais podem ser realizados por diferentes estados físicos; os estados mentais são multiplamente realizáveis.

Para perceber por que motivo a possibilidade de realização múltipla dos estados mentais coloca dificuldades à teoria da identidade vejamos como os defensores desta teoria se comprometem ao afirmarem a identidade entre estados mentais e estados cerebrais.

A teoria da identidade é uma teoria tipo-tipo: identifica acontecimentos ou propriedades ou processos ou estados mentais do mesmo tipo com acontecimentos ou propriedades ou processos ou estados físico-químicos do mesmo tipo. (Qual destes termos é mais apropriado para descrever a ontologia da mente é algo que não irei discutir aqui. O importante é que estes termos se apliquem a tipos. A minha preferência é para o uso dos termos "propriedade" e "estado".) Um dos exemplos favoritos dos filósofos é a identificação de dor com a activação das fibras C. Como se está a fornecer uma identidade entre dois tipos, digamos, entre a dor e a activação das fibras C, o que isto implica é que, necessariamente, qualquer criatura que tenha dores terá de ter fibras C e terá de as ter activadas; conversamente, necessariamente, qualquer criatura que tenha as suas fibras C activadas estará num estado de dor. Assim, qualquer criatura que não possua fibras C não poderá sequer ter experiências de dor.

Generalizando, a teoria da identidade mente-corpo diz-nos o seguinte:

Para qualquer estado mental M, existe um único estado físico P tal que uma criatura pode ter M se, e só se, tem P.

Mas nós temos uma intuição, chamemos-lhe a intuição de Putnam, de que existem ou poderão existir criaturas com estados mentais como os nossos, mas que não têm os mesmos estados cerebrais. Afinal, todos conseguimos facilmente conceber que os nossos cães e gatos têm estados mentais e que são capazes de sentir dor e alegria. Talvez este caso não seja particularmente impressionante pois é óbvio que temos muito em comum com estes mamíferos, e, em particular, é bastante razoável pensar que temos em comum as mesmas propriedades responsáveis pelos fenómenos mentais. Mas não temos dificuldade em conceber que certos moluscos, como os polvos, têm uma vida mental, e em particular conseguem sentir dor; e estes já começam a ser significativamente diferentes (se são ou não suficientemente diferentes para suportar a ideia de realização múltipla é uma questão que não iremos decidir aqui. Esta é uma questão científica — talvez um polvo já seja suficientemente diferente, talvez não). Mas a ficção científica já há muito nos preparou para o facto de poderem existir outros seres inteligentes no universo, com vidas mentais complexas, e que são capazes de ter a mais variada gama de emoções e sensações. E, no entanto, estas criaturas são-nos oferecidas como seres bastante diferente de nós; biologicamente mais distantes de nós do que os polvos.

Há, além disso, todo o tipo de histórias, repletas de possibilidades conceptuais, que testam as nossas intuições e ilustram a intuição de Putnam. Por exemplo, um habitante da longínqua constelação de Alfa Centauro, o equivalente lá no sítio ao Pedro Álvares Cabral, descobre o nosso planeta. Contudo, o infeliz sofre um desastre na aterragem do disco voador. Nós, seres humanos, ao olharmos para o sucedido observamos o seguinte: um líquido verde florescente escorre de uma das extremidades da estranha criatura que salta do disco voador e faz toda uma dança centrada numa extremidade, que nós identificamos imediatamente como danificada. Tal importância dá a criatura a este facto que nem parece reparar na nossa presença. Pergunta: estará a criatura com dores? (E o disco voador? Também parece danificado!)

Outra destas histórias é a seguinte: um conhecido nosso descobre que tem um tumor cerebral fatal. Contudo, um neurocientista afirma que tem uma cura para o caso, que consiste em substituir os neurónios afectados pelas suas contrapartes sintéticas. O nosso amigo afirma que depois da substituição inicial não nota qualquer diferença nos seus estados mentais e atitudes. De facto, nós também não. O nosso amigo continua a ser o mesmo brincalhão de que nós tanto gostávamos. Contudo, ao fim de uns anos, lentamente e aos poucos, todos os neurónios são substituídos por esta nova tecnologia. O nosso amigo diz que nunca se sentiu tão bem e nós não vemos qualquer diferença na sua pessoa. Questão: continua ele a ter estados mentais, continua a sua dor a ser dolorosa?

Bom, a moral destas histórias é sempre a mesma: supostamente, em ambos os casos, os sujeitos têm estados mentais genuínos e, portanto, segue-se que os estados mentais podem ser exemplificados por seres com biologias diferentes ou mesmo em tecnologias não biológicas. E isto, uma vez mais, apoia a ideia de realização múltipla.

Mais especificamente, a ideia de realização múltipla pode ser explicitada da seguinte forma:

Uma propriedade M é multiplamente realizável se, e só se, existem propriedades distintas P1, P2,…, Pn (onde n > 1) tal que, cada um dos Pi pode realizar M numa criatura ou sistema S.

No caso das propriedades mentais, a realização é por vezes vista como realização ao nível das propriedades neurológicas e, outras vezes, como realização ao nível das propriedades físico-químicas, ou das propriedades físicas. No entanto, aqui formularemos a ideia em termos de propriedades físicas em sentido lato, entendendo todas estas propriedades, quer as neurológicas ou neurofisiologias, quer as físico-químicas com propriedades físicas bona fide.

A teoria da identidade afirma que se uma propriedade física Pi é suficiente para os humanos terem uma certa propriedade mental M, então é necessário que todas a criaturas ou sistemas que tenham M tenham Pi. Contudo, se se comprovasse que a dor é multiplamente realizável, seguir-se-ia que há pelo menos uma outra base física, Pj, distinta de Pi, que seria suficiente para essa criatura exemplificar M, contrariando a asserção da teoria da identidade que nos diz que Pi é necessária.

Postas as coisas assim, vê-se o porquê da quase unânime aderência a este argumento como arma de arremesso contra a teoria da identidade. Afinal, se um polvo e um extraterrestre, quando sentem dor, têm exactamente a mesma sensação M que nós temos quando sentimos dor, mas no entanto nenhum deles possui fibras C, então estamos perante um problema para a teoria da identidade. De acordo com esta intuição, a dor não poderia ser idêntica às fibras C, contrariando a tese principal da teoria da identidade mente-corpo. Repare-se que, se esta intuição torna implausível a ideia de que os estados mentais são idênticos aos estados cerebrais, parece apoiar a ideia de que os estados mentais são estados funcionais, na medida em que o funcionalismo parece ser compatível com a realização múltipla dos estados mentais.

Miguel Amen
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