Obras Sobre Religião
26 de Outubro de 2005 ⋅ Filosofia da religião

A história natural da religião

David Hume

Introdução

Embora toda a investigação sobre a religião tenha a maior importância, existem duas questões em particular que prendem a nossa atenção, nomeadamente aquela que diz respeito ao seu fundamento racional e aquela que diz respeito à sua origem na natureza humana. Felizmente, a primeira questão, que é a mais importante, admite a solução mais óbvia ou pelo menos mais clara. Toda a estrutura da natureza indicia um autor inteligente, e nenhum investigador racional, após uma séria reflexão, pode suspender por um momento a sua crença nos primeiros princípios do teísmo e religião genuínos. Mas a outra questão, aquela que diz respeito à origem da religião na natureza humana, está exposta a maiores dificuldades. A crença num poder invisível e inteligente esteve sempre amplamente difundida por toda a raça humana, em todos os lugares e em todas as épocas, mas talvez nunca tenha sido universal ao ponto de não admitir excepções e de modo algum foi uniforme nas ideias que inspirou. Se aquilo que os historiadores e os viajantes dizem é verdade, foram descobertas algumas nações que não mantinham quaisquer opiniões religiosas. Além disso, não existem duas nações, e dificilmente existem dois homens, que alguma vez tenham aceite precisamente as mesmas opiniões. Por isso, parece que este preconceito não resulta de um instinto original ou de uma impressão primária da natureza, como os que dão origem ao amor-próprio, à afeição entre os sexos, ao amor aos filhos, à gratidão ou ao ressentimento, pois constatou-se que todos os instintos deste género são absolutamente universais, estando presentes em todas as nações e em todas as épocas, e têm sempre um objectivo preciso e determinado que perseguem inflexivelmente. Os primeiros princípios religiosos têm de ser secundários; podem facilmente ser pervertidos por vários incidentes e causas, e também a sua operação, em alguns casos, pode ser completamente suprimida devido à reunião de circunstâncias extraordinárias. O problema da presente investigação é o de identificar esses princípios que dão origem à crença original, bem como os incidentes e causas que dirigem a sua operação.

Secção I: Que o politeísmo foi a primeira religião dos homens

Parece-me que, se considerarmos os avanços da sociedade desde as suas rudes origens a um estado de maior perfeição, o politeísmo e a idolatria foram, e não poderiam ter deixado de ser, a primeira e mais antiga religião da humanidade. Vou tentar confirmar esta opinião através dos argumentos que se seguem.

É uma incontestável questão de facto que, há cerca de mil e setecentos anos atrás, todos os seres humanos eram politeístas. Os princípios incrédulos ou cépticos de alguns filósofos ou o teísmo de uma ou duas nações, que em todo o caso não era inteiramente puro, não constituem qualquer objecção digna de atenção. Examinemos, então, o claro testemunho da história. Quanto mais recuamos no passado, mais encontramos a humanidade imersa no politeísmo. Não existem quaisquer indícios ou sintomas de uma religião mais perfeita. Os registos mais antigos da raça humana ainda nos apresentam esse sistema como o credo popular e estabelecido. O Norte, o Sul, o Este e o Oeste testemunham unanimemente este facto. O que poderemos opor a uma tão forte evidência?

Os seres humanos dos tempos antigos, desde a época que a escrita e a história alcançam, parecem ter sido todos politeístas. Afirmaremos, então, que em tempos ainda mais antigos, anteriores ao conhecimento das letras ou à descoberta de qualquer arte ou ciência, os homens sustentavam os princípios do teísmo puro? Ou seja, enquanto eram bárbaros e ignorantes conheciam a verdade, mas incorreram em erro logo que adquiriram saber e delicadeza.

Porém, com esta asserção contradizeis não só todas as aparentes probabilidades, mas também a nossa presente experiência dos princípios e opiniões das nações bárbaras. Todas as tribos selvagens da América, de África e da Ásia são idólatras. Não há uma única excepção a esta regra, de tal modo que, caso um viajante se deslocasse a uma região desconhecida e encontrasse habitantes entendidos nas artes e na ciência, ainda que sob essa suposição fosse provável que eles não fossem teístas, nada poderia declarar a esse respeito sem investigar melhor. Contudo, se descobrisse que eles eram ignorantes e bárbaros, poderia de antemão declará-los idólatras e a possibilidade de se enganar seria remota.

Parece certo que, segundo o progresso natural do pensamento humano, a multidão ignorante tem de aceitar uma noção servil e familiar dos poderes superiores antes de alargar essa concepção a esse Ser perfeito que ordenou toda a estrutura da natureza. Imaginar que os homens habitaram palácios antes de terem vivido em cabanas ou choupanas, ou que estudaram geometria antes de terem estudado agricultura, é tão razoável como imaginar que a Deidade lhes apareceu como um puro espírito, omnisciente, omnipotente e omnipresente, antes de ter sido concebida como um ser poderoso mas limitado, com paixões e apetites humanos, membros e órgãos. A mente avança gradualmente do inferior para o superior. Ao abstrair-se daquilo que é imperfeito, forma uma ideia de perfeição, e, ao distinguir lentamente as partes mais nobres da sua própria constituição daquelas que são mais grosseiras, aprende a transferir apenas as primeiras, muito acentuadas e refinadas, à sua divindade. Este progresso natural do pensamento só poderia ser perturbado por um argumento óbvio e invencível que imediatamente conduzisse a mente aos princípios puros do teísmo e a fizesse transpor, num único salto, a vasta distância que separa a natureza humana da divina. No entanto, embora eu admita que a ordem e estrutura do universo, devidamente examinada, proporciona um argumento desse género, nunca poderei pensar que esta consideração poderia influenciar os seres humanos quando este formaram as suas primeiras e rudes noções religiosas.

As causas desses objectos, como nos são bastante familiares, nunca prendem a nossa atenção ou curiosidade e, por muito extraordinários ou surpreendentes que esses objectos sejam em si mesmos, são aflorados pela multidão rude e ignorante sem um grande exame ou investigação. Adão, ao surgir subitamente no Paraíso com as suas faculdades em perfeitas condições, ficaria naturalmente espantado, como Milton o representa, com o glorioso aspecto da natureza (com os céus, o ar, a terra, os seus próprios órgãos e membros) e seria levado a perguntar pela origem desse maravilhoso cenário. Porém, um animal bárbaro e necessitado (como um homem na primeira fase da sociedade), pressionado por inúmeras carências e paixões, não tem tempo para admirar o aspecto regular da natureza ou para investigar a causa daqueles objectos aos quais se acostumou gradualmente desde a sua infância. Pelo contrário, quanto mais regular e uniforme, isto é, quanto mais perfeita parece a natureza, maior é a sua familiarização com ela e menor é a sua inclinação para a escrutinar e examinar. O nascimento de um ser monstruoso excita a sua curiosidade e é considerado um prodígio. Alarma-o pela sua novidade, e põe-no imediatamente a tremer, sacrificar e orar. Porém, um animal com todos os seus membros e órgãos constitui para ele um espectáculo comum e não produz qualquer opinião ou afeição religiosa. Perguntai-lhe o que deu origem a esse animal. Ele dir-vos-á que foi a copulação dos seus progenitores. E o que lhes deu origem? A copulação dos seus progenitores. Bastam uns recuos para satisfazer a sua curiosidade e colocar os objectos a uma distância que o faz perdê-los completamente de vista. Não imagineis que ele perguntará de onde veio o primeiro animal, e ainda menos de onde surgiu todo o sistema ou a harmoniosa fábrica do universo. Ou, se lhe colocardes uma dessas questões, não espereis que ele empregue a sua mente com alguma inquietação num assunto tão remoto, tão desinteressante e que excede tanto os limites das suas capacidades.

Além disso, se os homens, raciocinando a partir da estrutura da natureza, tivessem sido conduzidos em primeiro lugar à crença num Ser Supremo, nunca poderiam ter abandonado essa crença de modo a abraçar o politeísmo, pois os princípios da razão que produziram e difundiram pela humanidade uma opinião tão magnificente têm de ser capazes de a preservar com maior facilidade. Inventar e provar uma doutrina é muito mais difícil do que apoiá-la e preservá-la.

Existe uma grande diferença entre os factos históricos e as opiniões especulativas, e o conhecimento dos primeiros não se propaga da mesma maneira que as segundas. Um facto histórico, ao ser transmitido por tradição oral pelas testemunhas oculares e pelos contemporâneos, adultera-se em todas as narrações sucessivas e, por fim, pode preservar apenas uma semelhança muito pequena, ou nem mesmo isso, à verdade original em que se baseou. A frágil memória dos homens, o seu amor ao exagero e o seu indolente descuido são princípios que, se não forem corrigidos pelos livros e pela escrita, depressa pervertem a descrição dos acontecimentos históricos; onde a argumentação e o raciocínio têm pouca ou nenhuma importância, também nunca podem repor a verdade que já desapareceu dessas narrações. É por isso que se supõe que as fábulas de Hércules, Teseu e Baco têm a sua origem na história verdadeira corrompida pela tradição. Contudo, no que diz respeito às opiniões especulativas a situação é bem diferente. Se estas opiniões se basearem em argumentos tão claros e óbvios que produzem a convicção na maior parte dos seres humanos, esses argumentos, que difundiram as opiniões, preservá-las-ão com a sua pureza original. Se os argumentos forem mais abstrusos e estiverem mais distantes da compreensão vulgar, as opiniões ficarão sempre confinadas a algumas pessoas e, logo que os homens se afastem da contemplação dos argumentos, estas perder-se-ão imediatamente e cairão no esquecimento. Seja qual for o lado do dilema que escolhamos, tem de parecer impossível que o teísmo, baseando-se no raciocínio, tivesse podido ser a primeira religião da raça humana, e que depois, devido à sua corrupção, tivesse originado o politeísmo e todas as várias superstições do mundo pagão. Quando é óbvia, a razão impede essas corrupções; quando é abstrusa, mantém os princípios completamente afastados do conhecimento do vulgo, que é o único responsável pela corrupção de qualquer princípio ou opinião.

David Hume

Tradução de Pedro Galvão
Retirado de Obras sobre a Religião Natural, de David Hume (Lisboa: Gulbenkian, 2005)
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