The Miracle of Theism
18 de Maio de 2007⋅ Filosofia da religião

O milagre de Deus

Desidério Murcho
The Miracle of Theism: Arguments for and Against the Existence of God, de J. L. Mackie
Oxford: Oxford University Press, 1982, 278 pp.
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"Considero que a questão de saber se existe um deus ou não deve ser discutida racionalmente e com razoabilidade, e que tal discussão pode ser compensadora, na medida em que pode fornecer resultados precisos." (p. 1) Esta posição de J. L. Mackie (1917-1981) é diametralmente oposta à ideia popular de que a religião é matéria puramente pessoal e como tal não discutível publicamente. A ideia de que a religião é algo puramente pessoal é uma forma distorcida de tentar expressar a ideia de que o estado e o governo devem ser absolutamente imparciais no que respeita às diferentes religiões. Mas do facto de o estado não dever privilegiar qualquer religião não implica que crer neste ou naquele deus não é matéria de discussão pública.

Nem implica que a crença religiosa é algo que "ultrapassa a razão", como por vezes se costuma dizer. Esta ideia popular encontra expressão nos fideísmos de Pascal (1623-1662), William James (1842-1910) e Kierkegaard (1813-1855), abordados no Capítulo 11 deste volume. Ao contrário do que se pensa popularmente, o fideísmo não é óbvio nem particularmente fácil de defender. Uma das motivações do fideísmo é a convicção de que não há bons argumentos a favor da existência de Deus (nem contra). Mas será verdade que não há tal coisa? Alguns dos mais importantes filósofos, tanto antigos como modernos, pensam que há argumentos bastante persuasivos a favor da existência de Deus. A análise destes argumentos é o núcleo da filosofia da religião. Por isso, a maior parte desta obra (capítulos 1 a 8) é dedicada à análise cuidadosa desses argumentos, tradicionalmente chamados "provas". Os argumentos dos milagres e da consciência humana, os argumentos moral, ontológico e cosmológico, assim como o argumento do desígnio, são cuidadosamente analisados.

O problema do mal é discutido no Capítulo 9. Mackie destacou-se em filosofia da religião precisamente por ter publicado em 1955 um artigo hoje clássico na revista "Mind", uma das mais importantes publicações académicas de filosofia (talvez comparável à "Nature", em termos de prestígio), intitulado "Mal e Omnipotência". Este capítulo baseia-se em parte nesse artigo. Mackie defende que a existência do deus teísta (o deus das grandes religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islamismo) é incompatível com a existência do mal (tanto natural como moral). Mackie argumenta que a popular defesa do livre-arbítrio não funciona, e que a omnipotência de Deus é uma noção incoerente, além de tornar a existência de Deus incompatível com a existência do mal.

Mackie apresenta também alguns capítulos à análise da experiência religiosa e às novas propostas que visam entender a religião como um corpo de práticas e de modos de vida, e não como um sistema de crenças. A discussão é sempre sofisticada, mas extremamente clara; razoável e imparcial, mas assumidamente ateia; honesta e justa, mas calorosa.

Postumamente publicado em 1982, esta é talvez uma das obras mais lidas actualmente de Mackie, um filósofo britânico de origem australiana que tinha o dom da clareza e que publicou obras importantes na área da ética (Ethics: Inventing Right and Wrong), da filosofia da ciência (The Cement of the Universe) e da história da filosofia (Problems from Locke, Hume's Moral Theory). Morreu pouco depois de ter completado esta obra.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (22 de Dezembro de 2006)
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