Philosophy of Religion
29 de Maio de 2004 ⋅ Filosofia da religião

Pensar sobre a religião

Desidério Murcho
Philosophy of Religion: An Anthology, org. de Louis P. Pojman
Wadsworth, 2003, 592 pp.
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Não é possível avançar no estudo e compreensão da filosofia sem instrumentos adequados. Os ensaios mais relevantes de cada área, que estão no centro da discussão contemporânea, são instrumentos fundamentais. Boas antologias de ensaios são assim instrumentos privilegiados no ensino da filosofia. Seria de esperar que em Portugal as antologias seriam particularmente populares, dado que os nossos estudantes têm de lutar contra bibliotecas quiméricas, onde os livros e revistas especializadas das suas áreas de estudo primam pela eloquente ausência. Infelizmente, quase não se publicam antologias em Portugal.

A filosofia da religião, estudada nas universidades (em Filosofia e noutros cursos) e no ensino secundário é uma das áreas editoriais mais pobres do país. Agora que acaba de sair a quarta edição da antologia clássica de Pojman era uma boa ideia repensar prioridades editoriais. O sucesso desta antologia deve-se a quatro factores: a abrangência dos ensaios incluídos, a sua selecção inteligente, a boa organização e, sobretudo, as informativas e despretensiosas introduções e explicações do organizador. É uma das melhores antologias desta área. Nesta nova edição encontramos dez partes distintas, dedicadas às várias áreas da filosofia da religião: os argumentos tradicionais a favor de Deus, o significado e natureza da experiência religiosa, o problema do mal, os atributos de Deus, a epistemologia da fé, o conflito com a teoria da evolução de Darwin, o problema do pluralismo religioso e as relações entre a ética e religião.

Estão representados muitos dos mais centrais ensaios e autores clássicos. Temos assim autores como Tomás de Aquino, William Paley, Hume, Swinburne, Pascal, Clifford, William James, Leibniz, Plantinga, Mackie, Platão, Russell, Anthony Flew, Michael Scriven, Kierkegaard, Wittgenstein e Dawkins, entre muitos outros. As lúcidas introduções de Pojman tornam esta antologia particularmente útil. Esclarecendo os temas de cada subdisciplina da filosofia da religião, o contexto filosófico de cada ensaio, os seus aspectos centrais e o que tem sido alvo de maior discussão, Pojman contribui para uma compreensão sólida da área.

A título de exemplo, exploremos a parte dedicada à "Fé e Razão". Como nas outras partes, encontramos os elementos centrais que nos permitem entrar com segurança na discussão dos problemas, teorias e argumentos da área. Subdividida em quatro partes, o leitor contacta com a ideia fideísta de que é uma virtude acreditar em Deus sem quaisquer razões para tal, a ideia pragmatista de que mesmo sem indícios seguros pode ser racional acreditar em Deus, a ideia da chamada "epistemologia reformada" de que a crença em Deus é perfeitamente racional e está perfeitamente justificada, ainda que não existam indícios irrefutáveis a seu favor, etc. Pojman procura sempre que possível apresentar um artigo a favor e outro contra uma dada ideia. É assim que temos Clifford a defender a irracionalidade da fé, e William James logo a seguir a defender a sua racionalidade, Plantinga a defender que a crença religiosa está adequadamente justificada, e Michael Martin a criticar a epistemologia de Plantinga. Cabe ao leitor, evidentemente, formar a sua opinião, com base num conhecimento sólido dos problemas, teorias e argumentos desta área riquíssima da filosofia.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (13 de Dezembro de 2003)
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