11 de Abril de 2011   Filosofia da religião

Reflectir sobre a religião

Desidério Murcho
Introdução à Filosofia da Religião
de William L. Rowe
Tradução de Vítor Guerreiro
Revisão científica de Desidério Murcho
Lisboa: Verbo, 2011, 304 pp.

A religião é objecto de estudo de diferentes disciplinas. O estudo filosófico da religião caracteriza-se por se ocupar da avaliação crítica das afirmações e práticas religiosas. Saber se há bons argumentos a favor da existência de Deus (ou contra), por exemplo, é um dos temas centrais da filosofia da religião. Outros temas incluem a análise da experiência mística, a relação entre a razão e a fé, a compatibilidade entre a existência do deus teísta e o mal (moral e natural) que existe aparentemente no mundo, a compatibilidade entre a presciência de Deus e o livre-arbítrio humano, etc. Infelizmente, muitas pessoas pensam que a filosofia da religião é coisa do passado e que qualquer discussão nesta área tem o propósito meramente escolar de “treinar o raciocínio”. Isto é falso e este é um dos muitos livros sobre filosofia da religião que poderá ajudar a curar a ignorância que infelizmente grassa entre nós. O próprio autor começa por declarar que “durante a segunda metade do século XX, a filosofia da religião viu um crescimento sem precedentes — tanto em termos do número de filósofos que se dedicam a esta disciplina, como em termos de novos desenvolvimentos no seio da filosofia da religião” (pág. 11).

Rowe é um dos mais destacados especialistas nesta área da filosofia. Professor na Universidade de Purdue (EUA), é autor de Can God Be Free? (2004) e de The Cosmological Argument (1998), entre outros livros, organizou a antologia God and the Problem of Evil (2001), na prestigiada colecção Blackwell Readings in Philosophy, e é autor de vários artigos de filosofia da religião publicados nas revistas da especialidade.

Precisamente porque esta introdução está firmemente ancorada na discussão contemporânea, apresenta e discute algumas das ideias clássicas da área. Por isso, quem pensa que a filosofia contemporânea ignora a sua história fará bem em ler esta introdução. Com treze capítulos, o autor dedica os primeiros cinco à discussão dos atributos do Deus teísta e aos três argumentos tradicionais mais influentes: o argumento cosmológico, o argumento ontológico e o argumento do desígnio (tanto o velho, pré-darwinista, como o novo, imune ao darwinismo). Nestes capítulos, apresenta-se e discute-se ideias e argumentos de Tomás de Aquino, Anselmo, Leibniz, Hume e Kant, entre outros. A ênfase é colocada na formulação e discussão de versões contemporâneas, mais sofisticadas, dos argumentos tradicionais. Os capítulos são curtos e escritos numa linguagem clara e acessível, mas sem esconder o pormenor e sofisticação de algumas discussões da área. Seguem-se capítulos sobre a experiência religiosa, o fideísmo e a explicação freudiana da crença religiosa. O importante problema do mal tem um capítulo próprio, assim como o problema da existência de milagres, a vida depois da morte, o aparente conflito entre a presciência de Deus e o livre-arbítrio humano, e os desafios levantados pela existência de diferentes religiões.

Excerto

Em 1963 foi publicado um pequeno livro da autoria de um bispo anglicano, livro que causou um tumulto religioso no Reino Unido e nos Estados Unidos. Em Honest to God, o Bispo John Robinson atreveu-se a sugerir que a ideia de deus que predominou durante séculos na civilização ocidental é irrelevante para as necessidades dos homens e mulheres de hoje em dia. A sobrevivência da religião no Ocidente, argumenta Robinson, exige que se rejeite esta imagem tradicional de deus, a favor de uma concepção profundamente diferente, concepção cuja emergência Robinson afirmou ter visto na obra de pensadores religiosos do século XX, como Paul Tillich e Rudolf Bultmann.

Robinson previu correctamente a reacção que a sua tese ia provocar, sublinhando que encontraria inevitavelmente resistência, como traição daquilo que se afirma na Bíblia. Não só as pessoas ligadas à igreja, na sua vasta maioria, se oporiam à perspectiva de Robinson, como a afirmação de que a ideia de deus já morrera ou que pelo menos estava moribunda provocaria ressentimento nos que tinham rejeitado a sua crença em deus. Na correspondência com o director do londrino Times, em artigos de revistas académicas e nos púlpitos de dois continentes, Robinson foi atacado como ateu disfarçado de bispo e só raramente defendido como profeta de uma nova revolução que ocorria no interior da tradição religiosa judaico-cristã. Um olhar sobre algumas das ideias de Robinson ajudar-nos-á a distinguir diferentes ideias de deus e a concentrarmo-nos naquela que será o centro das nossas atenções ao longo da maior parte deste livro.

Antes de surgir a crença de que o mundo no seu todo está sob o controlo soberano de um único ser, as pessoas acreditavam amiúde numa pluralidade de seres divinos ou deuses, posição religiosa a que se chama politeísmo. Na antiguidade grega e romana, por exemplo, os diversos deuses controlavam diferentes aspectos da vida, de modo que se venerava, naturalmente, vários deuses — um deus da guerra, uma deusa do amor, e por aí em diante. Às vezes, porém, podia-se acreditar que há diversos deuses mas venerar apenas um, o deus da própria tribo, posição religiosa a que se chama henoteísmo. No Antigo Testamento, por exemplo, há referências frequentes a deuses de outras tribos, embora os hebreus se mantenham fiéis ao seu próprio deus, Jeová. Lentamente, porém, surgiu a crença de que o nosso próprio deus é o criador do Céu e da Terra, o deus que não é apenas o da nossa própria tribo mas de todos, perspectiva religiosa a que se chama monoteísmo.

Segundo Robinson, o monoteísmo, a crença num só ser divino, sofreu uma mudança profunda, mudança que Robinson descreve com a ajuda das expressões “lá em cima” e “lá fora”. O Deus “lá em cima” é um ser localizado no espaço acima de nós, presumivelmente a uma determinada distância da Terra, numa região conhecida como “os Céus”. Esta ideia de Deus está associada a uma certa imagem primitiva em que o universo consta de três regiões, os Céus em cima, a Terra em baixo e a região das trevas sob a Terra. Segundo esta imagem, a Terra é frequentemente invadida por seres dos outros dois domínios — Deus e os seus anjos do Céu, Satanás e os seus demónios da região subterrânea — que combatem entre si pelo controlo das almas e do destino dos que habitam o domínio terreno. Esta ideia de Deus como ser poderoso que está “lá em cima”, numa determinada região do espaço, foi lentamente abandonada, afirma Robinson. Agora explicamos às crianças que os Céus não estão de facto sobre as suas cabeças, que Deus não está literalmente algures lá em cima, no Céu. Em lugar de Deus como “o velhote no Céu”, surgiu uma ideia de Deus muito mais sofisticada, a que Robinson se refere como a ideia de Deus “lá fora”.

Mudar do Deus “lá em cima” para o Deus “lá fora” é mudar de uma concepção de Deus como um ser localizado no espaço a uma certa distância da Terra para uma concepção de Deus como algo distinto e independente do mundo. Segundo esta ideia, Deus não está em qualquer local ou região do espaço físico. É um ser puramente espiritual, um ser pessoal, perfeitamente bom, omnipotente, omnisciente, que criou o mundo, mas não faz parte dele. É distinto do mundo, não está sujeito às suas leis, julga-o, orienta-o para o seu desígnio final. Esta ideia bastante majestosa de Deus foi lentamente desenvolvida ao longo dos séculos por grandes teólogos ocidentais como Agostinho, Boécio, Boaventura, Avicena, Anselmo, Maimónides e Tomás. Tem sido a ideia dominante de Deus na civilização ocidental. Se rotulamos o Deus “lá em cima” como “o velhote no Céu”, podemos rotular o Deus “lá fora” como “o Deus dos teólogos tradicionais”. E é o Deus dos teólogos tradicionais que Robinson considera ter-se tornado irrelevante para as necessidades das pessoas de hoje em dia. Quer Robinson tenha ou não razão — e é muito duvidoso que tenha — é inegavelmente verdade que quando nós, que herdámos maioritariamente a cultura da civilização ocidental, pensamos em Deus, o ser em que pensamos é em muitos aspectos importantes parecido com o Deus dos teólogos tradicionais. Será útil, portanto, ao clarificar as nossas próprias ideias acerca de Deus, explorar com maior detalhe a concepção de Deus que surgiu no pensamento dos grandes teólogos.

Índice

Prefácio à quarta edição
Agradecimentos
Introdução

  1. A ideia de Deus
  2. O argumento cosmológico
  3. O argumento ontológico
  4. O argumento do desígnio (o antigo e o novo)
  5. Experiência mística e religiosa
  6. Fé e razão
  7. O problema do mal
  8. Milagres e a mundividência moderna
  9. Vida depois da morte
  10. Predestinação, presciência divina e liberdade humana
  11. Pluralidade de religiões

Glossário de conceitos e ideias importantes
Leitura complementar
Índice remissivo