8 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Religião e moral

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Quando se conta a história de Galileu, esquece-se que ele era um homem profundamente religioso — e obviamente mais religioso do que os palermas que o condenaram a uma ultrajante prisão domiciliária. Quem o condenou prestou um mau serviço à igreja católica, dando-lhe uma imagem em que os mais genuínos católicos evidentemente não se reconhecem hoje, nem jamais se reconheceram.

O mesmo acontece hoje com muitas posições publicamente defendidas pelos dignitários da igreja católica. Cedendo à máxima política e publicitária de que o que é preciso é aparecer, acabam por prejudicar a sua própria igreja, defendendo ideias que não são apropriadamente católicas, nem sequer religiosas, mas meros preconceitos de gente de vistas curtas. O casamento dos homossexuais, a pílula e o divórcio surgem assim tolamente como temas de suma importância religiosa e é claro que as pessoas que sentem ansiedades espirituais não pensam que estes temas tenham algo a ver com isso — e voltam-se para outras espiritualidades. Depois os católicos perguntam-se por que razão quase não têm padres nem gente a assistir às missas.

A igreja católica é hoje vista por muitas pessoas religiosas como uma instituição dedicada à defesa do preconceito tolo, em vez de se dedicar à promoção da vida espiritual. Católicas praticantes e genuínas tomam a pílula e defendem o casamento dos homossexuais e dos padres, assim como o direito das mulheres a celebrar missa. Sofrem em silêncio as tolices da igreja católica à espera de melhores dias.

Isto não tem de ser assim. Os altos dignitários da igreja católica poderiam ser bondosos e sensíveis, e sobretudo mais genuinamente espirituais. Poderiam falar de questões genuinamente religiosas e espirituais em vez de insistir tolamente em usar o seu poder mediático para dar voz a preconceitos pessoais, e que nada têm a ver com os ensinamentos de Jesus Cristo, nem dos grandes filósofos cristãos e católicos. Poderiam falar da importância da bondade e da tolerância e defender que, independentemente das suas escolhas sexuais, Deus ama e apoia os seres humanos e convida-os a serem genuinamente boas pessoas, sendo irrelevante como fazem amor ou com quem. Poderiam, em suma, ser genuínos guias espirituais.

A genuína espiritualidade não se encontra talvez junto desses dignitários, mas junto dos mais humildes católicos, padres ou não. São eles que partilham a sua vida com os outros e que cultivam a genuína bondade e tolerância e abertura cristã. E acolhem os seus irmãos sem lhes perguntar se tomam a pílula nem se inquietarem com as suas orientações sexuais — e sem sugerirem que por serem homossexuais são um perigo para a civilização e que por isso não devem poder educar crianças. Talvez Jesus Cristo hoje dissesse aos mais altos dignitários de uma das suas igrejas para porem os olhos nos mais humildes cristãos, que é onde se encontra a espiritualidade genuína. Afinal, foi precisamente isso que Jesus disse aos altos dignitários religiosos do seu tempo. Que por isso o traíram.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (10 de Março de 2009)
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