Dicionário de Filosofia
26 de Setembro de 2010 ⋅ História da filosofia

Rorty: um auto-retrato

Richard Rorty
Universidade de Virginia

Na década de 1960 escrevi alguns artigos sobre a natureza da filosofia e publiquei uma colectânea chamada The Linguistic Turn: Recent Essays in Metaphilosophy (1967). Na introdução procurei, em vão, explicar o que era tão importante no método linguístico em filosofia. Num posfácio escrito em 1990 (nova edição 1992), argumentei que a ideia de “método linguístico em filosofia” fora uma quimera, mas que deixar de falar em consciência ou experiência, e falar ao invés de linguagem, constituíra um progresso filosófico genuíno.

Nas décadas de 1960 e 1970 defendi uma solução quase materialista para o problema da mente-corpo. Procurei, numa série de artigos sobre a filosofia da mente, desenvolver e alargar o “nominalismo psicológico” que colhera em Wilfrid Sellars. A isto se seguiu no final da década de 1970 uma tentativa de combinar Sellars e Quine, de modo a formular uma crítica generalizada da noção de que o conhecimento era uma questão de representação mental ou linguística da realidade. Este anti-representacionalismo era a tese principal de Philosophy and the Mirror of Nature (1979) (A Filosofia e o Espelho da Natureza 1994), um livro que argumenta que o fim do representacionalismo significava o fim da filosofia epistemologicamente centrada (mas não da própria filosofia). Ensaios que desenvolvem alguns dos pontos referidos nesse livro foram coligidos em Consequences of Pragmatism (1982) (Consequências do Pragmatismo 1999).

Em Contingency, Irony and Solidarity (1989) (Contingência, Ironia e Solidariedade 2007), bem como em dois volumes de artigos escritos durante a década de 1980 — Objectivity, Relativism and Truth (1991) (Objetivismo, Relativismo e Verdade 1997) e Essays on Heidegger and Others (1991) (Ensaios sobre Heidegger e Outros 1999), procurei juntar as doutrinas anti-representacionalistas comuns a James, Dewey, Davidson e Wittgenstein com algumas doutrinas semelhantes partilhadas por Nietzsche, Heidegger e Derrida. O argumento principal é que assim que pomos de lado o fundacionalismo, o representacionalismo e as querelas estéreis entre “realistas” e “anti-realistas”, passamos a ver a filosofia em continuidade com a ciência, por um lado, e com a literatura, por outro. Argumentei também que as tarefas tradicionais da filosofia moral deviam ser assumidas pela literatura e pela experimentação política.

Embora frequentemente acusado de irracionalismo delirante e frivolidade sem escrúpulos pela direita política, e de insuficiente radicalismo, bem como de anticomunismo prematuro, pela esquerda política, considero que partilho as atitudes e esperanças políticas de John Dewey, bem como o seu pragmatismo. No meu trabalho filosófico posterior procurei distinguir entre o que está vivo e o que está morto no pensamento de Dewey. Escrevi também sobre questões políticas. Em 1998 publiquei outra colectânea de artigos de filosofia, Truth and Progress (Verdade e Progresso 2005), além de um texto de intervenção intitulado Achieving Our Country: American Leftist Thought in the Twentieth Century.

Richard Rorty
Retirado de Dicionário de Filosofia, dir. de Thomas Mautner (Lisboa: Edições 70, 2010)
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