Rui Daniel Cunha Existência, Sentido e Inferência
21 de Outubro de 2010 ⋅ Opinião

Em memória do Rui

Desidério Murcho e Aires Almeida

Recebemos ontem na Crítica a triste notícia do falecimento de Rui Daniel Cunha, que publicou vários trabalhos nesta revista. Os seguintes testemunhos, de quem o conheceu, constituem o memorial possível.

Desidério Murcho

Conheci o Rui numa acção de formação para professores de Filosofia do ensino secundário que leccionei em Gondomar, há alguns anos. Era um professor activo, inteligente e informado. O trabalho que fez na sequência dessa acção de formação poderia ter sido publicado, mas não o foi porque na altura ele não escrevia em computador. Tratava-se da resolução de vários exercícios de derivações em dedução natural, para alunos do ensino secundário. Destacava-se o brio e a inteligência do Rui porque todas as derivações eram cuidadosamente explicadas, não deixando escapar qualquer subtileza, e explicando-as todas com lucidez didáctica, amor educativo e profundo conhecimento da lógica.

Mais tarde o Rui foi professor na escola do Aires, em Portimão. Foi por essa altura que começou a usar computador, tendo começado a enviar materiais para a Crítica: recensões, sempre cuidadas e lúcidas, informadas e inteligentes, e cuidadas traduções de pequenos textos. Encontrava-se neste momento a fazer um doutoramento em Filosofia da Educação, na Universidade do Porto. Falei com ele brevemente ao telefone há cerca de um ano.

Aires Almeida

Conheci o Rui numa tarde de Setembro de 2006, na primeira reunião do grupo de Filosofia do ano lectivo que então estava a começar. Era a reunião em que eu, como coordenador, ia entregar os horários com o serviço para esse ano. Na ordem de prioridades superiormente determinada para a distribuição de serviço, ele tinha a possibilidade de, entre os horários que restavam, escolher o que mais lhe interessava. Mas, em vez de escolher, apenas declarou que aceitaria qualquer um dos restantes horários que lhe propuséssemos, independentemente dos programas a leccionar e até de incluir ou não aulas em período nocturno. Olhou para o que estava em cima da mesa e optou por um deles sem levar muito tempo a decidir. Acontece que o último professor do grupo a receber o seu horário não gostou do que lhe cabia e o Rui prontamente lhe deu prioridade na escolha acrescentando que não se importava de ficar com o que o colega não quisesse. Muitos professores saberão o que isto significa e todos nós ficámos positivamente surpreendidos com a atitude dele.

Mas essa foi só a primeira surpresa. Surpreendentes eram também a sua invulgar competência científica e agilidade mental, o seu genuíno entusiasmo em relação ao que ensinava, uma completa disponibilidade para discutir abertamente tudo o que fazia, incluindo o muito que escrevia. E tudo isto sempre com uma afabilidade sincera e descontraída. Tal como sincero e contagiante era o seu interesse pela filosofia, sem qualquer tique nem pose de pensador profundo. Foram muitas e animadas as nossas conversas e discussões sobre os mais diversos assuntos: relativismo, metafilosofia, lógica, filosofia da música, Wittgenstein, Rorty, Nietzsche (três filósofos que ele apreciava e eu nem por isso), as definições institucionalistas da arte. Por vezes vinha ter comigo vários dias depois de começarmos uma discussão dizendo que tinha pensado melhor em tal argumento e que tinha encontrado uma boa maneira de lhe resistir. Além disso, estava sempre muito bem informado sobre a discussão actual das principais questões filosóficas, o que é atestado pela sua biblioteca de vários milhares de livros, a maior parte dos quais de filosofia. Mas gostava também de falar de música, sobretudo de música rock, de que tinha uma enorme colecção de discos em casa. E também não perdia uma folga entre aulas para dar um salto à praia, desde que o sol espreitasse — e em Portimão está quase sempre a espreitar. De vez em quando lamentava-se das tristezas passageiras e das alegrias duradouras que o seu Benfica lhe proporcionava.

Entretanto, foi-lhe concedida uma bolsa para escrever a sua tese de doutoramento sobre filosofia da educação. Tarefa que levava muito a sério e a que se dedicava de forma metódica e disciplinada, tendo já lido toda a obra de John Locke, autor central na sua investigação. Preparava-se para passar uma temporada a estudar e a ler em Inglaterra, onde dizia ter à mão todos os livros que lhe interessavam e de que precisava. Ultimamente não nos encontrávamos tanto, mas falávamos longa e regularmente pelo telefone, pois ele tinha um problema que nunca conseguiu resolver com a sua ligação à internet. Aprendi muito com ele e foi um bom amigo.

Trabalhos de Rui Daniel Cunha publicados na Crítica

Desidério Murcho
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