Sabedoria sem Respostas
28 de Fevereiro de 2004 ⋅ Filosofia

Filosofia e abertura de espírito

Daniel Kolak e Raymond Martin

Quando éramos crianças fazíamos perguntas como as crianças as fazem, com total abertura. De onde viemos? Qual o objectivo da nossa vida? Qual a natureza do universo em que vivemos? O que nos acontece quando morremos?

Sabíamos que não sabíamos as respostas, e queríamos sabê-las. Não pressupúnhamos que as perguntas eram irrespondíveis ou que estavam para lá da nossa compreensão.

Enquanto crianças, estávamos cheias de espanto. O mundo espantava-nos. Como adultos pusemos de lado a nossa curiosidade infantil e vivemos numa estrutura de respostas que silencia as questões fundamentais que agora perderam o poder de nos agitar. Encontrámos as respostas, mas perdemos o mistério. Como é que isto aconteceu?

O problema não é as respostas práticas. Precisamos delas para viver bem. O problema é que cada um de nós, como veremos, ficou dependente de um complexo sistema entrelaçado de respostas metafísicas acerca do eu, do conhecimento, da realidade, dos valores e do sentido. Muitas vezes, estas respostas são pressupostos profundamente escondidos que são tão basilares para as convicções que temos de nós próprios e do mundo que se torna até difícil de perceber que estamos a tomar algo como garantido. Muitas vezes esses pressupostos são respostas a perguntas que nem sequer chegámos a perguntar. No entanto, tais respostas metafísicas, imobilizadas pelo nosso anseio de segurança, acabam por nos imobilizar a nós. Fechados nas nossas respostas, ficamos cegos ao facto de que a versão da realidade de que temos experiência e em que acreditamos é tão criada por nós, os observadores, como pelo que observamos.

O problema não é apenas o facto de interpretarmos as nossas experiências. Qual é, afinal de contas, a alternativa? O problema é que interpretamos as nossas experiências de formas limitadas e rígidas, sem nos darmos conta disso. Criamos assim (inevitavelmente) uma realidade mais fixa e estável do que na verdade existe. Esta aparente solidez pode fazer-nos sentir mais seguros das nossas crenças, mas essa segurança aparente assenta em respostas que, em última análise, escondem mais do que revelam. Na melhor das hipóteses, essas respostas dão-nos conhecimento, mas não sabedoria.

O principal obstáculo ao estudo da filosofia não é ainda não sabermos o suficiente; longe disso. O principal obstáculo é já sabermos demais. Este livro acolhe-o na filosofia da forma como Sócrates, se ainda estivesse por cá, o faria: tirando-lhe as respostas debaixo dos pés durante o tempo suficiente para que possa ter a experiência da sabedoria do desconhecedor. Ganhamos pouco se nos limitarmos a substituir as velhas respostas pelas novas. O objectivo é desenvencilharmo-nos por completo da dependência das respostas, de modo a perturbar o que tinha sido estabelecido e retomar um questionamento inocente que deixa toda a segurança para trás, cuja força não resulta das respostas mas do desconhecido.

A filosofia é uma actividade e não um corpo de conhecimentos. Como todas as actividades requer perícia. Que tipo de perícia? Em poucas palavras: a habilidade para nos vermos a nós próprios e ao mundo de muitas perspectivas diferentes.

O que é uma "perspectiva"? Uma perspectiva é, em termos aproximados, uma interpretação que vai para lá dos factos e que se apoia nos pressupostos, convicções ou valores da pessoa que faz a interpretação. Por exemplo, eis um facto: um feto de três meses é intencionalmente abortado. De uma perspectiva, o aborto foi um assassínio. De outra perspectiva, não foi um assassínio. A primeira perspectiva assenta nos seguintes dois pressupostos: o feto era uma pessoa inocente, e a morte intencional de pessoas inocentes é um assassínio. A segunda assenta em dois pressupostos diferentes: o feto não era uma pessoa, na melhor das hipóteses era uma pessoa em potência, e a morte de pessoas em potência nem sempre é um assassínio.

No nosso dia-a-dia, desenvencilhamo-nos perfeitamente bem ao apoiarmo-nos apenas nas nossas perspectivas. Mas mesmo no dia-a-dia, especialmente em alturas de conflito, a capacidade para abandonar as nossas perspectivas em prol de outras pode ser extremamente útil. Em filosofia esta habilidade não é apenas útil, é essencial. Sem ela não podemos resolver problemas que são insolúveis no interior das nossas perspectivas habituais.

No fundo, sabemos que as nossas perspectivas não são as únicas perspectivas válidas. Mas tendemos a empurrar esse conhecimento para a periferia da nossa consciência. Isto deixa-nos com um sentimento ameaçador inconfortável, quando somos confrontados com pontos de vista contrários aos nossos. Quando admitimos que os nossos pontos de vistas assentam, em última análise, em pressupostos questionáveis e baixamos os nossos escudos contra pontos de vista externos, sentimo-nos inseguros. Na maior parte dos casos não gostamos desses sentimentos. E assim deixamos convencer-nos a nós próprios de que os nossos pontos de vista são a única janela válida para a verdadeira realidade. E depois, quando precisamos de ver para lá das limitações dos nossos pontos de vista, ficamos em dificuldades.

Obviamente, a solução é dissolver a cola que nos agarra aos nossos pontos de vista familiares. Essa cola é a ligação emocional. Para a dissolver, temos de, em primeiro lugar, reconhecer que todos confiamos muito mais em pressupostos questionáveis do que pensávamos. Em segundo lugar, temos de pôr de lado os nossos pressupostos e aprender a ver as coisas através de outros pontos de vista. Finalmente, precisamos de integrar os insights que recolhemos destes pontos de vista diferentes e muitas vezes conflituantes.

Feche um olho e depois outro, várias vezes; irá notar uma mudança entre duas perspectivas planas conflituantes. Abra os dois olhos e as duas perspectivas tornam-se numa só visão tridimensional unificada. A integração de insights retirados a partir dos nossos pontos de vista familiares com insights retirados de pontos de vista conflituantes, mesmo que seja apenas a partir de um único, fornece-nos uma visão binocular — uma espécie de "percepção da profundidade filosófica" — que pode remover as limitações de pensar e viver num mundo "plano".

Ter um ponto de vista ajuda-nos a vermo-nos a nós mesmos e ao mundo. Mas se nos tornarmos demasiado apegados às respostas derivadas e apoiadas pelos nossos próprios pontos de vista, ficamos cegos para outros pontos de vista. Logo, ter um ponto de vista pode esconder tanto como aquilo que revela.

A filosofia mostra-nos como identificar as limitações dos nossos próprios pontos de vista. Mas faz mais: ensina-nos a sair de nós próprios, a atravessar as fronteiras dos nossos familiares sistemas de respostas.

Daniel Kolak e Raymond Martin

Tradução de Célia Teixeira
Excerto retirado do livro Sabedoria Sem Respostas (Lisboa: Temas e Debates, 2004)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte