À Espera, de Milt Kobayashi
31 de Outubro de 2009 ⋅ Opinião

Filosofia e snobismo

Rolando Almeida
Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, Madeira

Há uma ideia popular de que o filósofo é um tipo que sabe falar eloquentemente e que pensa muito sobre a vida. A famosa estátua do pensador de Auguste Rodin transmite essa imagem, a do sujeito que está a pensar. Mas nunca se sabe o que está o pensador de Rodin a pensar. Bem, é uma estátua e as estátuas não pensam. Mas a forma como olhamos para a estátua é também a forma como olhamos para muitos supostos filósofos. São tipos que pensam, que pensam tão profundamente que nunca sabemos bem o que estão na verdade a pensar (se é que estão a pensar coisa alguma). Deve ser por causa disto que nas escolas secundárias por onde passo, quando estou cheio de sono e sem paciência para conversar ou conviver, há sempre alguém que deixa escapar o comentário: “Então, o filósofo está a pensar? Não penses demasiado”.

Nesses momentos não estou realmente a pensar, pelo menos a pensar filosoficamente, mas estes comentários fazem-me questionar se um tipo a pensar é parecido com um tipo cheio de sono. Segundo essa imagem popular, até é. Tal como um cientista é um tipo de bata branca, óculos muito graduados, cabelos no ar e língua de fora, um filósofo é um tipo com ar sonolento. Claro que o ar de sono numa pessoa que não estudou filosofia não passa disso mesmo, ar de sono. Mas o ar de sono em alguém que estudou filosofia já não é ar de sono, é ar de pensador solitário e afastado das amarras da pobre realidade. E claro que isto é idiota. Mas é um facto que muitos filósofos fazem desta idiotice um modo de cuidar da sua imagem pública. Ainda me lembro do meu ex-professor de universidade a quem passei umas cassetes com uns discos gravados e quando o questionei se tinha gostado dos discos respondeu (com ar de sono): “Sabe, não sei pois a minha percepção da realidade parece-me transfigurada nos últimos tempos e sou incapaz de formar uma opinião de gosto”.

Já na altura estas palavras a nada me souberam e postulei a hipótese de que aquela atitude não passava de gabarolice. Como saberia aquele professor qual o momento em que a sua percepção não estava perturbada ao ponto de lhe possibilitar uma opinião de gosto? Se estivermos com gripe a nossa disposição para ter uma opinião gustativa fica realmente muito perturbada.

Não posso dizer que também não me aproveitei um pouco desse snobismo filosófico. Deu-me jeito para disfarçar alguma timidez com as raparigas. Ou bebia uns copos, ou exibia-me como um tipo sério, profundo e complexo, com uma capacidade de amar platónica e com uma extraordinária sensibilidade de análise da realidade e da vida. E acreditava naquilo, na altura. Mais tarde li em livros que estas coisas não passam de snobismo e eu sabia-o bem, mas não me dava jeito admiti-lo. Não posso jurar que os meus professores snobes o fossem somente para impressionar as raparigas, mas o snobismo filosófico serve para impressionar pessoas diferentes em circunstâncias diferentes.

Por exemplo, na mais simples tarefa da vida social, o snobismo filosófico pode servir para nos prestarem mais consideração no atendimento público. As pessoas apercebem-se que aquele tipo de ar sonolento é inteligente. E o snobismo filosófico serve também para que considerem o snobe um tipo culto, quando na verdade nem o é assim tanto. Fica sempre bem lançar, a meio de uma conversa qualquer (o snobe não discute nem argumenta) uma qualquer citação de cor, que se aplica como se encaixasse perfeitamente na situação. “Como disse…” — e pimba, cita-se um autor que toda a gente respeita mas ninguém realmente lê. Esta atitude é capaz de impressionar os mais incautos.

Mas o snobe tem os seus inimigos declarados. Entre eles encontramos aqueles que têm a mania que são muito práticos e que não estão para aturar as metafísicas delirantes. Para esses, os snobes filosóficos tiram mestrados e doutoramentos, dizem ler os livros no original e ostentam um ar altivo e sempre interrogativo. Das situações mais cómicas é encontrar um snobe filosófico e um indivíduo que tenha a mania de ser muito prático. É que nem um nem outro são muito práticos e em regra a confusão é quase certa.

O snobe não lê livros introdutórios. Esse são, para os snobes, muito básicos, elementares. Fala deles como quem fala de um qualquer livro de crianças, ou daqueles que toda a gente lê só porque são muito acessíveis. O snobe despreza o conhecimento comum e a divulgação do saber e isto porque essa divulgação ameaça precisamente a posição pseudo-intelectual e pseudo-sapiente do snobe.

Um dos aspectos curiosos que os snobes têm quando alguém discorda deles é atirarem logo à cara do seu interlocutor que essa questão não é simples, que se trata de uma questão muito mais profunda e que exige uma investigação séria. O snobe afirma que investiga tudo mas tem o hábito de passar mais tempo a falar do que a investigar, e passa mais tempo a citar de cor autores do que propriamente a discutir problemas. O snobe é um exibicionista do conhecimento dos outros, uma espécie de vendedor de colchões a fazer permanentemente montra do seu produto sem compreender muito bem de que é feito esse produto.

Mas onde encontrar os snobes? Os snobes começam por ser adeptos ferrenhos do carreirismo académico e por isso as universidades são viveiros de snobes a tirarem mestrados, seminários de matérias esotéricas e doutoramentos. Raramente um snobe discorda de outro snobe. Falam como iguais, como elementos da mesma tribo. O que distingue os snobes das outras pessoas é o grau oferecido pelas instituições académicas. E raramente um snobe admite que falha. Em regra o snobe também sofre da mesma injustiça que Jesus Cristo e arrasta uma cruz quase do mesmo tamanho (ainda que a cruz dos snobes seja feita de esferovite).

Os snobes também gostam de falar “na minha tese”, “na minha investigação”, “na conferência que dei e que toda a gente aplaudiu”. Normalmente os snobes não escrevem livros. O que fazem é publicar na revista dirigida por outro snobe, que só os snobes lêem. O perigo de um snobe publicar um livro a expor as suas ideias (que como disse normalmente são ideias dos outros repetidas à exaustão), é o de ser lido por quem não é snobe, pelos filósofos e intelectuais simples mas sérios. Isso seria a morte do artista, razão pela qual normalmente os snobes odeiam os filósofos sérios que publicam livros sérios, que podem ser lidos por qualquer pessoa que por eles se interesse.

Na Crítica está disponível um pequeno livro que retrata bem o snobismo filosófico. Publicado há uns anos pela Gradiva/Jornal Público e traduzido por Desidério Murcho, chama-se Especialista Instântaneo em Filosofia e o autor é Jim Hankinson.

Rolando Almeida
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