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20 de Dezembro de 2003 ⋅
Livros

Direito ao suicídio

Desidério Murcho
Dicionário de Suicidas Ilustres, de J. Toledo
Rio de Janeiro e São Paulo: Record, 1999, 360 pp.
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O fechamento nacional cega-nos para culturas que nos deviam ser próximas — como as culturas brasileira ou espanhola. Quando se viaja de Londres para os EUA encontram-se apenas alguns livros diferentes; mas quando se viaja de Lisboa para o Brasil entra-se noutro universo. Quando se encontram os mesmos livros, são diferentes traduções; quando são livros de autores portugueses, foram "traduzidos para brasileiro" (como aconteceu à biografia de Eça de Queirós de Maria Filomena Mónica), e vice-versa. Mudar a ortografia e a gramática dos livros brasileiros em Portugal (e vice-versa) aprofunda fossos culturais e barreiras psicológicas que só o crescente contacto com os dois modos de usar a língua poderá diluir. Ora, num país com apenas três ou quatro milhares de leitores regulares, este alheamento altivo é autêntico suicídio cultural: a riqueza das culturas está directamente correlacionada com a sua abertura.

O suicídio é ainda um tabu nas sociedades contemporâneas. Parte da resistência ao direito à eutanásia provém precisamente deste preconceito, que faz cercear as liberdades alheias em nome de paternalismos difíceis de sustentar. Como é evidente, o suicídio é tão velho quanto a humanidade. Talvez até o suicídio seja precisamente uma das marcas seguras da presença de uma centelha humana, que nos separa dos restantes animais. J. Toledo — jornalista, escritor, artista plástico e biógrafo — coligiu mais de 700 artigos sobre vários suicidas, de estadistas a estrelas de cinema, incluindo filósofos, artistas, cientistas, militares, etc. Cada artigo tem apenas uns pares de parágrafos nos quais se referem de forma breve os principais dados biográficos do suicida em questão — e uma descrição do modo escolhido pelo suicida para pôr termo à vida. Com objectividade, sem comentários laterais, o autor limita-se a prestar um serviço: satisfazer a nossa curiosidade sobre suicidas ilustres. E é um dos raros dicionários que se lê de uma ponta à outra, ao invés de apenas se consultar de vez em quando. Percorrendo-o página a página, vamos encontrando personagens sobre as quais todos temos curiosidade: Deleuze, Boltzmann, Walter Benjamin, Roland Barthes, Alan Turing, Maupassant, Primo Levi, e muitíssimos outros.

O "Dicionário de Suicidas Ilustres" não é uma obra-prima da investigação e do rigor, mas uma forma relativamente inócua de satisfazer curiosidades. E é verdade que se poderiam ter evitado alguns deslizes. Por exemplo, Aristóteles surge como um suicida, o que está longe de se poder afirmar sem mais fundamentação. Pois, apesar de existir uma referência antiga ao pretenso suicídio de Aristóteles, não há mais dados comprovativos, e há outros dados que indicam que o filósofo terá morrido de uma doença do estômago, sendo hoje praticamente consensual entre os especialistas que a referência ao suicídio é espúria. Mesmo de uma obra popular exigia-se mais algum cuidado. Por outro lado, algumas das personagens ilustres escolhidas pelo autor são... pouco ilustres: personagens demasiado agarradas à política brasileira do momento, por exemplo, e sem qualquer interesse universal. Apesar de pequenas deficiências deste jaez, trata-se de um dos poucos dicionários que se devoram da primeira à última página.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no suplemento "Mil Folhas" do jornal Público(17 de Maio de 2003)
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