8 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Supressão de provas

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A falácia da supressão de provas ou indícios é de tal modo grave que um biólogo, físico ou químico apanhado a fazer tal coisa perderá muito provavelmente o emprego, além de se tornar alvo da merecida reprovação por parte dos colegas. Suprimir provas ou indícios permite fingir que se prova seja o que for. Por exemplo, imagine-se que quero provar que lavar os pés com água do mar previne a calvície. Armo-me em cientista de faz-de-conta e concebo uma série de experiências para provar a minha tese. Como sou careca e uma besta, limito-me a fechar os olhos sempre que a realidade contraria a minha tese, e anoto cuidadosamente os casos em que a realidade parece estar de acordo com ela. Ao fim de algum tempo, concluo triunfante que a minha tese está correcta.

Se pensa que esta falácia é demasiado tola para que um adulto caia nela, desengane-se. Partes importantes da vida humana dependem dela, porque nem sempre é óbvia. Nas incorrectamente chamadas humanidades, por exemplo, não só muita da investigação que se faz nas universidades é uma imensa falácia de supressão de provas, como é precisamente isso que se ensina os estudantes a fazer.

Seja o que for que você pensa acerca de seja o que for, há de certeza algum autor que pensa a mesma coisa, sobretudo se for um lugar-comum académico. Basta fazer um estudo desse autor e ignorar os que discordam dele para dar a impressão de ter conseguido provar que o que você pensa é verdade ou pelo menos plausível. Para não parecer que se trata de uma falácia infantil, disfarça a sua "investigação" de "levantamento" das ideias do autor ou autores em causa; mas sub-repticiamente estará sempre a sugerir que esse autor tem razão.

Há demasiada pseudo-investigação deste género hoje em dia nos meios académicos mais frágeis. Para provar qualquer coisa de desagradável sobre a "racionalidade ocidental", ou para dizer mal da "modernidade" ou da ciência, um sociólogo especulativo, por exemplo, só tem de usar os trabalhos de outros autores que dizem exactamente o mesmo, ignorar os que dizem o contrário, e está o trabalho feito. Não se pode sequer falar de fraude pessoal, porque a pessoa em causa foi de tal modo intelectualmente deformada, que nem se dá conta do que está a fazer: limita-se a aplicar a receita que lhe ensinaram.

A investigação das coisas, seja em que área for, tem de procurar activamente aquilo que refuta o que pensamos, por mais agradável que seja pensar isso. Em física, a queda redonda refuta a ideia agradável de que se eu bater os braços com força consigo voar. Em filosofia, história, educação, sociologia, teoria da literatura ou qualquer outra área, a refutação de ideias não é tão aparatosa, mas nem por isso devemos basear as nossas ideias nos autores que mais nos agradam só porque nos agradam. A primeira preocupação do investigador íntegro é procurar os melhores argumentos e autores contra a ideia que mais lhe agrada, e procurar refutá-los. Sem esse trabalho, a investigação é pura falácia de supressão de provas e nunca somos obrigados a pensar outra vez.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (5 de Agosto de 2008)
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