1 de Novembro de 2016   Dicionário Escolar de Filosofia

T

tabela de verdade

Dispositivo gráfico que permite exibir as condições de verdade de uma forma proposicional dada (não se aplica a formas predicativas ou quantificadas). As condições de verdade são as circunstâncias em que uma dada afirmação é verdadeira ou falsa. Por exemplo, mesmo que não se saiba se a afirmação “Deus existe e a vida faz pleno sentido” é verdadeira ou não, sabe-se que só será verdadeira caso as duas afirmações componentes (“Deus existe” e “A vida faz pleno sentido”) sejam verdadeiras. Assim, as condições de verdade da afirmação original podem resumir-se numa tabela. Para isso, isola-se a forma lógica da afirmação, que neste caso é “P e Q”. E agora constrói-se uma tabela de verdade:

P Q P e Q
V V V
V F F
F V F
F F F

As filas da tabela exibem as condições de verdade de “P e Q": caso P seja verdadeira (V) e Q também, a frase é verdadeira; em todos os outros casos a frase é falsa (F). As tabelas de verdade permitem assim exibir as condições de verdade dos operadores verofuncionais.

Mas permitem também determinar se uma afirmação, complexa ou não, é uma verdade lógica (ver tautologia), uma falsidade lógica (ver contradição) ou uma contingência lógica. Só devolve resultados correctos quando se aplica a afirmações cuja verdade, falsidade ou contingência lógicas resultam exclusivamente da sua forma proposicional verofuncional. Por exemplo, para saber se a afirmação “Se Sócrates era um homem, era um homem” é uma verdade lógica começa-se por captar a forma lógica da afirmação, que é a seguinte: “Se P, então P”. Agora, faz-se uma tabela de verdade:

P Se P, então P
V V
F V

Conclui-se que a afirmação é uma verdade lógica porque não há qualquer circunstância em que a afirmação seja falsa. Se não fosse uma verdade lógica, não seria verdadeira em todas as circunstâncias. Ver inspector de circunstâncias. (Desidério Murcho)

tábua rasa

Nome por que é conhecida a analogia utilizada por Aristóteles, mas por vezes também associada ao filósofo empirista inglês John Locke para ilustrar a ideia de que todo o conhecimento tem origem na experiência. Locke compara a nossa mente a uma folha de papel em branco, ou a uma superfície completamente lisa e sem qualquer sinal nela inscrito (“tabula rasa”, em latim), mas onde as impressões colhidas do exterior pelos nossos sentidos deixam as suas marcas. É a partir dessas impressões — que a nossa mente se limita a organizar — que se formam todas as ideias, mesmo as mais abstractas. Não há, pois, conhecimentos a priori nem ideias inatas. Todo o conhecimento é adquirido através dos sentidos. Ver também empirismo, a priori / a posteriori. (Aires Almeida)

tabula rasa

Expressão latina que significa tábua rasa.

tautologia

Em termos correntes, uma tautologia é uma proposição sem qualquer valor informativo, como “Todos os gatos são gatos”. Mas em lógica usa-se este termo para qualquer forma proposicional logicamente verdadeira, o que inclui formas extraordinariamente informativas e complexas. Neste sentido, uma tautologia é apenas uma proposição verdadeira cuja verdade depende inteiramente da sua forma lógica, como a forma {(Q ∨ P) ∧ [(¬R → ¬P) ∧ (S ∨ ¬Q)]} → (¬S → R). Uma forma de determinar se uma dada forma proposicional é uma tautologia é construir uma tabela de verdade: a forma é tautológica se, e só se, resulta verdadeira em todas as atribuições de valores de verdade às suas variáveis proposicionais (ver variável). (Desidério Murcho)

technê

Termo grego que refere o conhecimento técnico envolvido quando em práticas como a medicina ou o trabalho artesanal. Em algumas das suas obras, Platão defende que a filosofia é uma technê, no sentido de uma arte de viver virtuosamente. (Desidério Murcho)

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teísmo

Concepção acerca da natureza de Deus que defende serem as seguintes as suas características ou atributos: é o único criador do universo, é omnipotente (pode fazer tudo), é omnisciente (sabe tudo), é livre e é infinitamente bom. Esta ideia de Deus está associada às grandes religiões monoteístas e a discussão acerca da existência de Deus tem sido, em grande parte, a discussão acerca da existência de um Deus com estas características. É o Deus teísta que está em causa quando, em filosofia, se discute o argumento ontológico, o argumento cosmológico, o argumento do desígnio, e o problema do mal. Ver também Deus e filosofia da religião. (Aires Almeida)

telos

Termo grego que significa “finalidade”. A noção era especialmente importante na filosofia de Aristóteles, que entendia que todas as coisas tinham uma finalidade natural. Este tipo de pensamento finalista é implausível em física, mas é mais adequado na biologia e na ética. (Desidério Murcho)

teoria

Um conjunto de proposições estruturadas entre si que visam resolver um problema ou explicar um fenómeno. Diz-se que são proposições estruturadas porque numa teoria as suas diferentes partes se articulam, isto é, apresentam uma estrutura lógica. As teorias não podem ser válidas ou inválidas no mesmo sentido em que um argumento é válido ou inválido; as teorias são verdadeiras ou falsas, tal como as proposições (e tal como as proposições podem ser fecundas ou estéreis, interessantes ou triviais, etc.). Não há uma receita automática para avaliar teorias, mas os seguintes aspectos devem ser tidos em conta: 1) Se o problema que uma teoria procura resolver é absurdo, a teoria é absurda; 2) Se uma teoria não resolve os problemas que se propunha resolver, ou não explica o que se propunha explicar, é inadequada; 3) Se uma teoria for inconsistente (ver consistência/inconsistência), é falsa; 3) Se uma teoria tiver consequências falsas, é falsa; 4) Se os argumentos que sustentam uma teoria forem maus, a teoria é má. (Desidério Murcho)

teoria das ideias

Platão refere em alguns dos seus diálogos (Fédon, Simpósio, República, etc.) a existência de entidades supra-sensíveis, a que dá o nome de “Ideias" (ou “Formas"), com a finalidade de explicar por que razão nos parece que quando estamos a referir objectos particulares como Sócrates, Einstein e Eusébio estamos, afinal, a falar da mesma coisa: homens. A razão é que todos eles exemplificam a Ideia ou Forma de Homem. Assim, dizemos que Sócrates, Einstein e Eusébio, são homens porque exemplificam, imitam ou participam da Ideia de Homem, ou de humanidade. As Ideias não são entidades mentais, mas extra-mentais e não são apreensíveis pelos sentidos; apenas pela razão. São também únicas (não há várias ideias de Homem, ou de Igualdade, Beleza, Justiça, etc.), perfeitas (não há exemplos perfeitos de coisas belas, mas a Ideia de Beleza é perfeita) e imutáveis (a beleza das coisas altera-se e é diferente de objecto para objecto, mas a Ideia de Beleza é inalterável). A Teoria das Ideias, apesar de ser uma teoria metafísica, tem importantes implicações epistemológicas. Ver também universais. (Aires Almeida)

teoria do gosto

Concepção estética que toma como problema central desta disciplina o problema do gosto. Para os filósofos do séc. XVIII, como Hume e Kant, os juízos estéticos como “esta música é bela" são subjectivos, sendo assim juízos de gosto. A caracterização e discussão dos juízos de gosto, nomeadamente os problemas de saber se os juízos de gosto são ou não universais (Kant) e se existe um padrão de gosto (Hume), passam a ocupar o centro das disputas acerca da estética. (Aires Almeida)

teoria dos mandamentos divinos

Teoria metaética segundo a qual os factos morais são instituídos por Deus. Quem subscreve esta perspectiva pensa, por exemplo, que mentir é errado unicamente porque Deus decretou ou estipulou que mentir é errado. Ockham conta-se entre os poucos filósofos que defenderam esta teoria. Tal como o relativismo moral, a teoria dos mandamentos divinos apresenta os factos éticos como simples convenções. Ver dilema de Êutifron. (Pedro Galvão)

terceiro excluído, princípio do

Ver princípio do terceiro excluído.

tese

Em geral, proposição ou doutrina apresentada para prova ou para consideração. Na filosofia de Kant, a tese é o primeiro termo da oposição dialéctica que constitui as antinomias (sendo o segundo a antítese), enquanto na de Hegel designa o primeiro termo de um sistema formado por tese, antítese e síntese, em que as duas primeiras se opõem uma à outra e a última as supera estabelecendo um ponto de vista superior, em que as outras se conciliam. (Álvaro Nunes)

tipos de argumentos

Ver argumentos, tipos de.

Tomás de Aquino (1225-74)

Um dos maiores filósofos do período medieval. Nasceu no seio de uma família aristocrata em Roccasecca em Itália. Estudou na escola dos monges beneditinos de Monte Cassino e na Universidade de Nápoles. Em 1244 juntou-se à Ordem dos dominicanos. Estudou em Paris e em Colónia com Alberto Magno. Sob a influência deste, tornou-se estudioso de Aristóteles e escreveu extensamente sobre a sua filosofia. As suas maiores obras são a Summa contra Gentiles (“Contra os Erros dos Infiéis”) e a Summa Theologiae (1266-73). Foi nesta última que expôs as suas famosas cinco vias ou argumentos a favor da existência de Deus. De todos, o mais conhecido é o argumento cosmológico, o qual é ainda bastante influente. Esta obra tornou-se um marco incontornável da filosofia medieval.

Uma das maiores preocupações de Tomás de Aquino consistiu em conciliar a doutrina cristã com o aristotelismo. Essa preocupação levou-o à defesa de uma teologia natural. Defendeu que algumas verdades religiosas são susceptíveis de ser descobertas e compreendidas pela razão, como é o caso da existência de Deus daí os seus argumentos a favor da existência de Deus. Contudo, achava que nem todas as verdades religiosas são susceptíveis de confirmação racional. No caso da doutrina da Trindade e da Incarnação, defendeu uma teologia revelada; ou seja, a verdade de tais doutrinas só pode ser conhecida através da revelação divina. A relação entre a fé e a razão tem um papel central na filosofia de Tomás de Aquino. Defendeu que tanto a fé como a razão são modos de chegar à verdade. Mas se a razão chegar a um resultado contrário à fé é porque cometemos um erro de raciocínio. A ideia é que a fé é uma forma infalível de chegar à verdade em questões religiosas. Tomás de Aquino preocupou-se ainda com questões éticas, epistemológicas e metafísicas. Em todas estas áreas tentou conciliar a doutrina cristã com o aristotelismo. Em 1323 foi canonizado pelo Papa João XXII que argumentou que apesar de Tomás de Aquino não ter feito milagres, cada problema filosófico a que respondeu representa um verdadeiro milagre. (Célia Teixeira)

Kenny, Anthony, História Concisa da Filosofia Ocidental, cap. 8 (Lisboa: Temas e Debates, 1999).
Tomás de Aquino, O Ente e a Essência (Lisboa: Instituto Piaget, 2000).

tomismo

Corrente filosófica baseada nas ideias de Tomás de Aquino.

transcendental

Termo muito importante na filosofia de Kant, sobretudo na sua epistemologia. Significa “condição de possibilidade a priori de algo”. Refere-se na Crítica da Razão Pura a estruturas não empíricas que, contudo, se aplicam a objectos da experiência. Assim, a) espaço e tempo são formas a priori da sensibilidade que tornam possível a recepção dos dados empíricos; b) as categorias do entendimento são conceitos a priori que tornam possível o conhecimento científico dos dados recebidos pela sensibilidade; c) as ideias da razão (como a Ideia de Deus) são formas a priori que tornam possível não o conhecimento mas sim o progresso do conhecimento científico indicando ao entendimento um ideal: procurar explicações cada vez mais englobantes como se fosse possível atingir a explicação definitiva de todos os fenómenos. Transcendental distingue-se de transcendente porque, apesar de não ter origem empírica, está limitado à experiência. Transcendente é o que ultrapassa a nossa experiência possível, é a característica do que não pertence ao mundo natural. Deus é um ser transcendente mas a ideia de Deus é transcendental. (Luís Rodrigues)

transcendente

Ver imanente, transcendental.