Abrangente e actual
Célia TeixeiraTradução de Desidério Murcho, Fernando Martinho, Maria José Figueiredo, Pedro Santos e Rui Cabral
Revisão Científica de Desidério Murcho
Temas & Debates, Outubro 1999, 460 pp.
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Finalmente, a história da filosofia de que Portugal há muito necessitava. Editada pela Temas e Debates, a História Concisa da Filosofia Ocidental de Anthony Kenny é um instrumento imprescindível para qualquer estudante de filosofia, assim como constitui uma obra de consulta fundamental para o grande público, que deseja conhecer os contributos da filosofia para a cultura ocidental. A edição é luxuosa, de capa dura, e a tradução cuidada e elegante.
A História Concisa da Filosofia Ocidental do Kenny foi pensada como um análogo moderno da excelente História da Filosofia Ocidental de Bertrand Russell, com a qual partilha a clareza e o rigor, e, apesar de ser menos crítica e profunda, é, no entanto, mais abrangente e, claro, mais actual. Não posso deixar de referir o facto triste e incompreensível de que, apesar de existir uma tradução portuguesa desta bela História da Filosofia Ocidental de Russell, editada pelo Círculo de Leitores, há muito que ela não se encontra disponível em Portugal, apesar de ser moeda corrente em qualquer livraria inglesa, americana ou mesmo espanhola. Esta é, no entanto, uma prática comum em Portugal, onde apesar de muitos dos grandes clássicos da cultura ocidental terem merecido tradução, há muito que deixaram de estar disponíveis — algo que só aconteceu durante um curto período de tempo, após as suas respectivas publicações. O que representa uma quase inexistente tradição editorial, a qual ainda não compreendeu o papel cultural de vitalização e solidificação que deve desempenhar.
A história da filosofia do Kenny tem 436 páginas e é constituída por 22 capítulos que abrangem desde os pré-socráticos a Wittgenstein, seguidos de um posfácio, de úteis sugestões de leitura complementar e de um abrangente índice analítico. São contemplados não apenas aqueles filósofos que contribuíram solidamente para o desenvolvimento da filosofia, mas também muitos daqueles que de algum modo participaram neste processo, mesmo que essa participação tenha sido negativa ou mesmo obscura — é o caso de Pedro Ramus, que defendeu que tudo o que Aristóteles tinha dito estava errado, e que atingiu notoriedade ao tornar-se mártir num massacre de heréticos, o que se traduziu num significativo empobrecimento do estudo da lógica, suplantado apenas no século XX com os trabalhos de Gottlob Frege.
Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Wittgenstein, são filósofos aos quais Kenny dedica capítulos inteiros. Os capítulos sobre Kant e Wittgenstein primam pela clareza da exposição, tornando acessíveis as teorias e argumentos de dois dos filósofos de mais difícil leitura. Além dos capítulos canónicos acerca da filosofia grega, medieval, renascentista e moderna, esta obra contempla ainda um capítulo dedicado ao idealismo alemão, outro ainda dedicado a três filósofos do século XIX (Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche) e um outro sobre dois grande filósofos do século XX, Frege e Russell. O capítulo mais fraco, não tanto pelo conteúdo, mas pela sua relevância filosófica, apesar de justificada pelo autor, é o capítulo dedicado a Três Mestres Modernos: Charles Darwin, John Henry Newman e Sigmund Freud.
Esta obra encontra-se ainda substancialmente enriquecida com inúmeras referências históricas, culturais, sociais e políticas, como a seguinte passagem exemplifica:
"Quando jovem, Kant interessava-se mais pela ciência do que pela filosofia. Quando começou a escrever filosofia, fê-lo num estilo cauteloso e convencional. Só aos 57 anos apresentou a obra que o tornou imortal, a Crítica da Razão Pura. Esta surgiu a público em 1781, no início de uma das mais espectaculares décadas na história da cultura humana, na qual Mozart compôs As Bodas de Fígaro e Don Giovanni, Gibbon publicou a sua História do Declínio e Queda do Império Romano, Boswell redigiu a sua Vida de Samuel Johnson e o jovem Turner expôs a sua obra pela primeira vez na Academia Real das Artes. No início da década, a constituição dos Estados Unidos fora esboçada e no seu termo já a Revolução Francesa tinha tido lugar."
Por todas estas razões esta é uma obra que não pode deixar de ler.