9 de Fevereiro de 2004 ⋅ Teses de filosofia

Apresentação

Célia Teixeira
O Conhecimento da Lógica: Uma Defesa do Racionalismo, de Célia Teixeira
Supervisão de João Branquinho
Dissertação de Mestrado
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Lisboa, 2004, 111 pp. (35 000 palavras)

O problema estudado nesta dissertação é o de saber como conhecemos as regras de inferência da lógica. Por exemplo, como sabemos que se for o caso que P e se for o caso que se P, então Q, podemos inferir que Q? Aparentemente, para sabermos isto não precisamos de recorrer à experiência, ou seja, parece que o pensamento é tudo o que basta para nos justificar a acreditar na validade de tal inferência. O que isto significa, é que, aparentemente, o nosso conhecimento das regras de inferência da lógica é a priori. Dado que algo é conhecível a priori se puder ser conhecido independentemente da experiência, a questão é saber como sabemos que é correcto usar as regras válidas de inferência da lógica sem apelar a quaisquer indícios empíricos.

Explicar a possibilidade do conhecimento a priori não é tarefa fácil. Mas explicar a possibilidade do conhecimento a priori da lógica é ainda mais complicado. Antes de mais, convém esclarecer que a questão sobre o conhecimento da lógica não é acerca de qualquer lógica em particular. A questão não é saber qual a melhor lógica, se a clássica ou a intuicionista ou outra qualquer. Essa é uma questão lógica e não epistemológica. Neste tipo de discussão, toma-se como premissa a ideia de que seja qual for a lógica que usamos para raciocinar, ela terá um conjunto de regras primitivas, isto é, regras não deriváveis de quaisquer outras. O problema epistemológico é saber como conhecemos essas regras primitivas de inferência. E essa é a questão filosófica tradicional do conhecimento da lógica. A dificuldade peculiar a essa questão consiste no facto de que, tendo em conta que essas regras são primitivas, então qualquer tentativa de justificar como as conhecemos irá usar essas mesmas regras ou regras que destas dependem, acabando assim por usar a lógica para justificar a lógica.

O objectivo deste estudo consiste em mostrar a inevitabilidade das explicações racionalistas para a explicação do nosso conhecimento da lógica. A nossa tese principal é a de que a única forma de justificar o conhecimento da lógica é apelando a uma capacidade por este responsável. Para tal, iremos elaborar uma defesa de uma posição racionalista a que chamaremos de "racionalismo naturalizado". Com este fim em vista, dividimos este estudo em quatro capítulos. No Capítulo 1, apresentaremos uma caracterização da noção de conhecimento a priori para de seguida a distinguir das noções de irrevisibilidade e de necessidade. Iremos mostrar que é mau qualquer argumento que pressuponha como premissa a favor do carácter a priori da lógica as conexões entre a priori e irrevisibilidade ou entre a priori e necessidade. Terminaremos o capítulo com um estudo da conexão entre a priori e analiticidade. Concluiremos que nenhuma noção de analiticidade poderá explicar, por si só, o carácter a priori da lógica e que para tal precisamos de uma teoria que mostre como tal é possível. E isto leva-nos para o Capítulo 2.

No Capítulo 2 iremos estudar as duas teorias empiristas mais influentes, as quais são teorias analíticas do conhecimento a priori: a velha teoria convencionalista e a nova teoria da definição implícita. O objectivo único deste capítulo é mostrar que as duas teorias empiristas não são boas teorias acerca do conhecimento da lógica. Iremos ver que ambas as teorias acabam por pressupor um tipo de explicação racionalista, o que mostra a inevitabilidade das justificações racionalistas.

O tópico do Capítulo 3 é as justificações inferenciais da lógica. O problema das justificações circulares é um problema mais geral a que qualquer teoria empirista tem de responder. O nosso objectivo é, mais uma vez, concluir pela inevitabilidade das justificações racionalistas.

Nos Capítulos 2 e 3 defendemos a inevitabilidade das explicações racionalistas, e no Capítulo 4 iremos apresentar e defender a nossa proposta racionalista, a qual designamos por "racionalismo naturalizado". Esta teoria, por ser naturalizada, tem a vantagem de não sofrer dos problemas apontados às teorias racionalistas tradicionais. Defendemos que a única forma de dar conta do problema do conhecimento da lógica é apelando para uma capacidade por ele responsável, como a capacidade de intuição racional. Se as nossas preocupações epistémicas dizem respeito ao modo como os agentes cognitivos conhecem as coisas que conhecem, então as nossas justificações epistémicas têm de explicar isso mesmo e nada mais. E isso é o que o racionalismo promete fazer e que nenhuma outra teoria o faz. Contudo, a questão de saber se temos ou não uma capacidade como a intuição racional, não é susceptível de ser respondida a priori, ou seja, pelos métodos filosóficos de análise conceptual. Essa é uma questão empírica que só a ciência nos poderá responder. Logo, a questão de saber como conhecemos as regras primitivas de inferência da lógica, reduz-se à questão de saber qual a capacidade responsável pela sua aquisição, e se essa capacidade é ou não algo como uma intuição racional. E a isto só a ciência nos poderá responder.

Célia Teixeira é licenciada e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e estudante de doutoramento em King's College London. É co-autora de Dicionário Escolar de Filosofia (Plátano, 2003), Renovar o Ensino da Filosofia (Gradiva, 2003), Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos (Gradiva, 2001) e A Arte de Pensar: Filosofia, 10.º ano (Didáctica Editora, 2003).

Célia Teixeira
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