Plenitude
14 de Fevereiro de 2005 ⋅ Teses de filosofia

Apresentação

Domingos Francisco
A Metáfora da Plenitude: A Heteronímia Pessoana à Luz da Teoria da Metáfora de Paul Ricoeur, de Domingos Francisco
Supervisão de Carlos João Correia
Dissertação de Mestrado
Universidade de Lisboa
Lisboa, 2002, 106 pp. (32 495 palavras)
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Esta é uma tese sobre a heteronímia pessoana. Serve-se, no entanto, como instrumento, em termos de aparelho conceptual, da teoria da Interpretação de Paul Ricoeur e, dentro desta, mais especificamente, da teoria da Metáfora.

Pretendemos, ao escrever este estudo, defender as seguintes teses:

Tese 1: O trabalho poético pessoano, que se consubstanciou na heteronímia, é um uso radical da linguagem poética, sendo que, seja cada um dos heterónimos, seja a heteronímia no seu todo, são metáforas.

O poema é um "dizer outro" sobre o Mundo. Mas um "dizer outro" que implica um "forçar" da linguagem até ao limite das suas capacidades semânticas — um "arrancar" pela linguagem de um sentido, de uma dimensão, ao qual, de outro modo, não é possível aceder. Dimensão simbólica que, ao ser expressa em linguagem, ilumina e vivifica a própria linguagem e a compreensão do Mundo em que projectamos esse trabalho linguístico.

Ora, os heterónimos — e de uma forma mais intensa e complexa, a heteronímia no seu todo — são metáforas dado que, se por um lado são um trabalho puramente linguístico, por outro, esse trabalho não permite uma leitura — uma interpretação — literal (poema, heterónimo e heteronímia no seu todo são fruto inteiramente da capacidade criadora de Pessoa — o poema remete para um autor que por si também é ficção. Sendo que o próprio criador da ficção se inventa a si próprio a cada invenção que produz), deixando aberto apenas o campo da interpretação figurada. Ora, isso sucede, a nossa ver, precisamente porque o uso linguístico presente nos heterónimos mais não é do que um uso radicalmente metafórico da linguagem.

Tese 2: Porque são metáforas. Porque as metáforas são a superfície linguística dos símbolos. Porque os símbolos se encontram vinculados ao Ser, ao Mundo e à Vida, a heteronímia é uma abertura, um laço referencial, ao Ser, ao Mundo e à Vida, entendidos na sua máxima plenitude.

Cada heterónimo, ao se constituir, exige outro — são metáforas que expressam dimensões simbólicas e que, para tanto, têm que se resguardar do total desaparecimento, ou seja, não se podem tornar metáforas mortas. Assim, cada heterónimo exige outro e evoca toda a rede (Pessoa chamou-lhe "drama em gente"). Caeiro é o centro dessa rede, mas existe uma malha de intersignificações entre cada heterónimo que vivifica, consolida e faz perdurar cada heterónimo por si e a heteronímia no seu conjunto.

Ora, como os símbolos se encontram vinculados ao Ser, ao Mundo e à Vida, dado que o símbolo, ao contrário da metáfora, possui uma dimensão não semântica, a heteronímia — ao ser radicalmente metáfora — pode, porque expressão simbólica, ser entendida como abertura para um Mundo — momento originário, primordial, fundamento da realidade e fundamento do discurso. Plenitude.

Tese 3: Os heterónimos constituem metáforas vivas porquanto são por si e em conjunto modos de vivificar a linguagem em que vivem e formas de inscrever o impulso num "pensar mais" ao nível do conceito.

Sendo metáforas, os heterónimos são trabalho no campo do discurso, que o mesmo é dizer, ao nível da linguagem. Todavia, são trabalho discursivo fixado pela escrita. São textos, isto é, discurso que cria o seu próprio espaço, que o mesmo é dizer, discurso que diz o que só pode ser dito daquela forma.

Ora, ao serem metáforas, são modos de vivificar a linguagem, dado que o discurso metafórico implica superar a significação literal dos termos e uma abertura para uma significação figurada. Significação figurada que se constitui por inscrever na linguagem um sentido outro, novo — vivificante.

Este sentido novo, vivificante, implica, por outro lado, a inscrição do impulso da imaginação num "pensar mais" ao nível do conceito. Que o mesmo é dizer, implica trazer à linguagem a sua dimensão criadora, fundante — radical. Este sentido novo é o que se desvela pela interpretação. Sentido sempre outro. Vivo.

Desta forma, a heteronímia é um trabalho de assumpção plena da Literatura, no que a literatura tem de mais radical e pleno — o fazer aceder à linguagem uma dimensão simbólica estruturante da Vida e do Mundo. Assumpção que implica uma total fusão entre autor e obra, sendo que a própria obra cria o autor e o autor a obra. Pessoa, o rosto, foi apenas a máscara. Pessoa, a obra, "é" tudo. Metáfora da plenitude.

Domingos Francisco

Nasceu em Alhandra (Vila Franca de Xira) em 1962. Licenciou-se tarde. Mas aproveitou bem. Tirou a licenciatura em Filosofia na Universidade de Lisboa. Deu aulas. Gosta de literatura. De Filosofia. Cinema. Arte e Museus. Casou com a mulher que ama. Não pertence a nenhum partido político. Tem dois filhos que lhe ensinam todos os dias que a vida encontra o seu sentido nas coisas mais simples. É Mestre em Estética e Filosofia de Arte. Actualmente, é professor requisitado no Museu Municipal de Coruche, onde coordena a actividade educativa daquele espaço.

Domingos Francisco faleceu subitamente no dia 7 de Abril de 2006.

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