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26 de Junho de 2006   Filosofia

Textos que respondem a problemas

Textos e Problemas de Filosofia
org. de Aires Almeida e Desidério Murcho
Lisboa: Plátano, 2006, 256 pp.

Esta antologia única reúne 53 excertos de textos clássicos que respondem a 18 problemas filosóficos. Os problemas são claramente formulados e sucintamente explicados. Inclui problemas de filosofia da acção, teoria dos valores, ética, filosofia política, estética, filosofia da religião, teoria do conhecimento e filosofia da ciência.

Os textos abrangem a filosofia antiga, medieval, moderna e contemporânea, e tanto incluem filósofos e pensadores muito estudados como outros menos estudados, apesar de inegavelmente centrais. Alguns textos — de Sexto Empírico, Tolstoi, Bentham, Moore, Ayer, Nozick e Dickie, entre outros — foram traduzidos especialmente para este volume. Todos os textos são complementados com tarefas de contextualização, interpretação e discussão. Indicam-se ainda leituras complementares e recursos na Internet, assim como temas para redigir ensaios.

Do máximo interesse para estudantes e professores de filosofia, esta obra responde às necessidades do ensino secundário e universitário.

Aires Almeida é mestre e professor de filosofia na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes (Portimão). Desidério Murcho é doutorando e tutor no King's College London. São ambos membros do Centro para o Ensino da Filosofia da Sociedade Portuguesa de Filosofia, e autores de manuais escolares e outros materiais didácticos para o ensino da filosofia.

Excerto

Mais do que a mera contraposição de teorias e argumentos diferentes que respondem ao mesmo problema, procurou-se seleccionar textos que apresentem objecções às ideias defendidas nos outros textos. Assim, no que respeita à ética de Kant e Mill, por exemplo, não se inclui apenas excertos dos textos destes filósofos; inclui-se também textos centrais de crítica específica às suas teorias e argumentos. Deste modo, o estudante é confrontado com a filosofia tal como ela realmente é: um debate vivo entre filósofos, e não uma mera contraposição de diferentes "paradigmas" solipsistas. E para estimular o estudante a participar nessa discussão incluem-se questões de discussão.

Cada secção é dedicada a um problema. Depois de alguns esclarecimentos sucintos sobre o problema, apresentam-se as ideias centrais dos textos escolhidos. Sempre que um filósofo surge pela primeira vez, é apresentado numa pequena nota informativa. Os textos são seguidos de:

  1. Tarefas de contextualização: ajudam o estudante a encontrar informação complementar relevante;
  2. Exercícios de interpretação: ajudam o estudante a compreender cabalmente o texto;
  3. Questões de discussão: estimulam o estudante a avaliar criticamente as ideias defendidas nos textos;
  4. Leituras complementares: ajudam o estudante a estudar autonomamente;
  5. Recursos na Internet: ajudam o estudante a encontrar informação de qualidade em língua portuguesa;
  6. Problemas: estimulam o estudante a elaborar pequenos ensaios.

É importante sublinhar a diferença entre textos introdutórios e textos substanciais. Um texto introdutório (a que por vezes se chama "bibliografia secundária") consiste na exposição e explicação imparcial dos problemas, teorias e argumentos da filosofia; é o que o próprio professor deve escrever para os seus estudantes e que os manuais e livros introdutórios devem conter. Os textos introdutórios apresentam o contexto filosófico (que não se deve confundir com o mero contexto histórico) que permite compreender melhor os textos substanciais. Os textos substanciais (a que por vezes se chama "bibliografia primária") são aqueles nos quais os filósofos discutem em primeira-mão os problemas, teorias e argumentos da filosofia — discussão que os textos introdutórios têm por missão expor e explicar de forma imparcial. Os textos substanciais ilustram a realidade da discussão filosófica, tal como ela de facto ocorre ao longo do tempo. São substanciais porque não apresentam ideias que entretanto se tornaram razoavelmente consensuais em filosofia, mas antes aquelas ideias que fazem parte do núcleo vivo da discussão filosófica. As excepções são textos que apresentam resultados que entretanto se tornaram razoavelmente consensuais, mas cuja origem clássica se deseja que o estudante conheça; é o caso do excerto do Teeteto, de Platão, aqui incluído. Apesar de este diálogo apresentar uma refutação da tese de que o conhecimento é crença verdadeira justificada, ele é sobretudo conhecido como o locus classicus no qual se apresenta a ideia de que ser uma crença verdadeira justificada é uma condição necessária para o conhecimento, ainda que não seja suficiente.

Seria um erro pensar que todos os textos da autoria de filósofos originais são substanciais; pois alguns filósofos originais escreveram livros introdutórios, como é o caso de Bertrand Russell, John Searle, Peter Singer, Thomas Nagel ou Simon Blackburn, entre outros. Na verdade, as "Orientações" indicam um texto que, sendo da autoria de um filósofo, não é um texto filosófico substancial; é, ao invés, um texto introdutório. Trata-se do texto de Searle, no qual este filósofo apresenta alguns aspectos centrais do problema do livre-arbítrio.

Seria igualmente um erro pensar que todos os capítulos ou textos incluídos em livros introdutórios da autoria de um filósofo original não são textos substanciais. Em alguns casos, os filósofos incluíram em livros introdutórios as suas ideias originais sobre uma dada área. É o caso do texto de James Rachels incluído nesta antologia: foi retirado de um livro introdutório mas trata-se de um texto filosófico substancial. Este capítulo surge também noutras antologias, precisamente porque apresenta importantes argumentos originais contra uma versão de senso comum do relativismo cultural — que, por ser algo ingénua, não é geralmente discutida pelos filósofos. Esta versão ingénua de relativismo cultural, que não é defendida por filósofos, deriva de trabalhos de antropologia cultural, em particular do trabalho de Ruth Benedict. Por se tratar de uma versão de senso comum de relativismo cultural, tem vantagens didácticas óbvias, pois vai ao encontro das intuições relativistas dos estudantes. O objectivo é fazer o estudante analisar criticamente as suas intuições de senso comum.

Uma antologia tem por obrigação dar ao estudante uma visão correcta de alguns dos loci classici dos problemas abordados. Assim, seleccionaram-se aqueles textos que representam posições influentes no debate filosófico e são didacticamente apropriados para estudantes, e não os textos que os autores da antologia preferem por esta ou aquela razão.

A selecção de textos é simultaneamente conservadora e inovadora. Conservadora porque na generalidade dos casos se procurou incluir apenas aqueles filósofos já familiares a grande parte dos professores — o que determinou a exclusão de muita da filosofia do séc. XX. Inovadora porque em alguns casos se incluíram textos que, não sendo familiares à generalidade dos professores, têm uma posição absolutamente central na tradição filosófica. Por exemplo, no Capítulo 7 (teoria do conhecimento) inclui-se um excerto do texto clássico de Sexto Empírico. Além disso, algumas áreas da filosofia sofreram desenvolvimentos de tal modo relevantes no séc. XX que nenhuma antologia pode dar uma visão correcta da área sem incluir esses filósofos; é o caso da estética (Capítulo 5). Porque a filosofia da religião é estudada no ensino secundário em opção concorrente com a estética, incluiu-se no Capítulo 6 alguns filósofos contemporâneos centrais mas pouco familiares. Deste modo, os dois capítulos têm uma certa harmonia e — mais importante — mostra-se claramente que é falsa a ideia de que a filosofia da religião é coisa do passado, ou um mero exercício escolar.

Índice

Prefácio para professores
Introdução para estudantes

1. Acção

Problema 1 A definição de acção
Texto 1 JOHN R. SEARLE, A Estrutura da Acção

Problema 2 O livre-arbítrio
Texto 2 BENTO DE ESPINOSA, Não há Vontade Absoluta ou Livre
Texto 3 JEAN-PAUL SARTRE, A Existência Precede a Essência
Texto 4 A. J. AYER, Liberdade e Necessidade
Texto 5 JOHN R. SEARLE, O Livre-Arbítrio

2. Valores

Problema 3 O relativismo cultural
Texto 6 RUTH BENEDICT, O Bem é o que a Sociedade Aprova
Texto 7 JAMES RACHELS, O Desafio do Relativismo Cultural

3. Ética

Problema 4 O egoísmo
Texto 8 THOMAS HOBBES, Piedade e Caridade
Texto 9 DAVID HUME, Do Amor de si

Problema 5 A fundamentação da moral
Texto 10 IMMANUEL KANT, Fundamentação da Metafísica dos Costumes
Texto 11 JOHN STUART MILL, Uma Crítica a Kant
Texto 12 JOHN STUART MILL, O que o Utilitarismo é
Texto 13 BERNARD WILLIAMS, Uma Crítica ao Utilitarismo

4. Política

Problema 6 A justificação do estado
Texto 14 ARISTÓTELES, Política
Texto 15 JOHN LOCKE, Origem, Extensão e Fim do Governo
Texto 16 JEREMY BENTHAM, Fragmento sobre o Governo
Texto 17 G. W. F. HEGEL, Filosofia do Direito
Texto 18 ROBERT PAUL WOLFF, Em Defesa do Anarquismo

Problema 7 A justiça distributiva
Texto 19 JOHN RAWLS, Uma Teoria da Justiça
Texto 20 ROBERT NOZICK, Uma Crítica a Rawls

5. Estética

Problema 8 A natureza da experiência estética
Texto 21 IMMANUEL KANT, Crítica da Faculdade do Juízo
Texto 22 GEORGE DICKIE, O Mito da Atitude Estética

Problema 9 A justificação do juízo estético
Texto 23 DAVID HUME, Do Padrão do Gosto
Texto 24 MONROE BEARDSLEY, Razões e Juízos

Problema 10 A definição de arte
Texto 25 ARISTÓTELES, Poética
Texto 26 LEÃO TOLSTOI, O que é a Arte?
Texto 27 CLIVE BELL, Arte e Forma
Texto 28 MORRIS WEITZ, A Arte não pode ser Definida

6. Religião

Problema 11 O sentido da vida
Texto 29 LEÃO TOLSTOI, Confissão
Texto 30 KURT BAIER, O Sentido da Vida

Problema 12 A existência de Deus
Texto 31 G. W. LEIBNIZ, Por que há Algo em Vez de Nada
Texto 32 DAVID HUME, Uma Crítica ao Argumento Cosmológico
Texto 33 SANTO ANSELMO, Proslogion
Texto 34 GAUNILO DE MARMOUTIER, Em Defesa do Insensato
Texto 35 WILLIAM PALEY, Desígnio Divino
Texto 36 DAVID HUME, Uma Crítica ao Argumento do Desígnio
Texto 37 IMMANUEL KANT, Deus como Postulado da Razão
Texto 38 RICHARD SWINBURNE, O Argumento Moral

Problema 13 O mal
Texto 39 J. L. MACKIE, Mal e Omnipotência
Texto 40 ALVIN PLANTINGA, Deus, a Liberdade e o Mal

Problema 14 A racionalidade da fé
Texto 41 TOMÁS DE AQUINO, A Razão não é Contrária à Fé
Texto 42 SØREN KIERKEGAARD, Sem Risco Não Há Fé
Texto 43 W. K. CLIFFORD, A Ética da Crença

7. Conhecimento

Problema 15 A definição de conhecimento
Texto 44 PLATÃO, Teeteto
Texto 45 EDMUND GETTIER, É a Crença Verdadeira Justificada Conhecimento?

Problema 16 A possibilidade do conhecimento
Texto 46 SEXTO EMPÍRICO, Hipóteses Pirrónicas
Texto 47 RENÉ DESCARTES, Penso, Logo Existo
Texto 48 DAVID HUME, Da Filosofia Académica ou Céptica
Texto 49 G. E. MOORE, Demonstração de um Mundo Exterior

8. Ciência

Problema 17 A verificação das teorias científicas
Texto 50 KARL POPPER, A Lógica da Investigação Científica
Texto 51 WESLEY C. SALMON, Previsão Racional

Problema 18 A objectividade científica
Texto 52 THOMAS KUHN, Objectividade, Juízo de Valor e Escolha de Teorias
Texto 53 LARRY LAUDAN, Ciência e Valores

Fontes