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Crítica
Textos e Problemas da Filosofia 16 de Julho de 2006 · Filosofia

Textos e Problemas de Filosofia, org. de Aires Almeida e Desidério Murcho
Lisboa: Plátano, 2006, 256 pp.
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Apresentação · Prefácio · Introdução

Prefácio para professores

Este livro apresenta excertos das doze obras de referência das "Orientações para a Leccionação do Programa de Filosofia", assim como quarenta e um textos opcionais, abrangendo o Programa do 10.º e do 11.º anos. Cada secção do Programa é abordada partindo de um problema explicitamente formulado e brevemente explicado. Os textos escolhidos são respostas a estes problemas.

Mais do que a mera contraposição de teorias e argumentos diferentes que respondem ao mesmo problema, procurou-se seleccionar textos que apresentem objecções às ideias defendidas nos outros textos. Assim, no que respeita à ética de Kant e Mill, por exemplo, não se inclui apenas excertos dos textos destes filósofos; inclui-se também textos centrais de crítica específica às suas teorias e argumentos. Deste modo, o estudante é confrontado com a filosofia tal como ela realmente é: um debate vivo entre filósofos, e não uma mera contraposição de diferentes "paradigmas" solipsistas. E para estimular o estudante a participar nessa discussão incluem-se questões de discussão.

Cada secção é dedicada a um problema. Depois de alguns esclarecimentos sucintos sobre o problema, apresentam-se as ideias centrais dos textos escolhidos. Sempre que um filósofo surge pela primeira vez, é apresentado numa pequena nota informativa. Os textos são seguidos de:

  1. Tarefas de contextualização: ajudam o estudante a encontrar informação complementar relevante;
  2. Exercícios de interpretação: ajudam o estudante a compreender cabalmente o texto;
  3. Questões de discussão: estimulam o estudante a avaliar criticamente as ideias defendidas nos textos;
  4. Leituras complementares: ajudam o estudante a estudar autonomamente;
  5. Recursos na Internet: ajudam o estudante a encontrar informação de qualidade em língua portuguesa;
  6. Problemas: estimulam o estudante a elaborar pequenos ensaios.

É importante sublinhar a diferença entre textos introdutórios e textos substanciais. Um texto introdutório (a que por vezes se chama "bibliografia secundária") consiste na exposição e explicação imparcial dos problemas, teorias e argumentos da filosofia; é o que o próprio professor deve escrever para os seus estudantes e que os manuais e livros introdutórios devem conter. Os textos introdutórios apresentam o contexto filosófico (que não se deve confundir com o mero contexto histórico) que permite compreender melhor os textos substanciais. Os textos substanciais (a que por vezes se chama "bibliografia primária") são aqueles nos quais os filósofos discutem em primeira-mão os problemas, teorias e argumentos da filosofia — discussão que os textos introdutórios têm por missão expor e explicar de forma imparcial. Os textos substanciais ilustram a realidade da discussão filosófica, tal como ela de facto ocorre ao longo do tempo. São substanciais porque não apresentam ideias que entretanto se tornaram razoavelmente consensuais em filosofia, mas antes aquelas ideias que fazem parte do núcleo vivo da discussão filosófica. As excepções são textos que apresentam resultados que entretanto se tornaram razoavelmente consensuais, mas cuja origem clássica se deseja que o estudante conheça; é o caso do excerto do Teeteto, de Platão, aqui incluído. Apesar de este diálogo apresentar uma refutação da tese de que o conhecimento é crença verdadeira justificada, ele é sobretudo conhecido como o locus classicus no qual se apresenta a ideia de que ser uma crença verdadeira justificada é uma condição necessária para o conhecimento, ainda que não seja suficiente.

Seria um erro pensar que todos os textos da autoria de filósofos originais são substanciais; pois alguns filósofos originais escreveram livros introdutórios, como é o caso de Bertrand Russell, John Searle, Peter Singer, Thomas Nagel ou Simon Blackburn, entre outros. Na verdade, as "Orientações" indicam um texto que, sendo da autoria de um filósofo, não é um texto filosófico substancial; é, ao invés, um texto introdutório. Trata-se do texto de Searle, no qual este filósofo apresenta alguns aspectos centrais do problema do livre-arbítrio.

Seria igualmente um erro pensar que todos os capítulos ou textos incluídos em livros introdutórios da autoria de um filósofo original não são textos substanciais. Em alguns casos, os filósofos incluíram em livros introdutórios as suas ideias originais sobre uma dada área. É o caso do texto de James Rachels incluído nesta antologia: foi retirado de um livro introdutório mas trata-se de um texto filosófico substancial. Este capítulo surge também noutras antologias, precisamente porque apresenta importantes argumentos originais contra uma versão de senso comum do relativismo cultural — que, por ser algo ingénua, não é geralmente discutida pelos filósofos. Esta versão ingénua de relativismo cultural, que não é defendida por filósofos, deriva de trabalhos de antropologia cultural, em particular do trabalho de Ruth Benedict. Por se tratar de uma versão de senso comum de relativismo cultural, tem vantagens didácticas óbvias, pois vai ao encontro das intuições relativistas dos estudantes. O objectivo é fazer o estudante analisar criticamente as suas intuições de senso comum.

Uma antologia tem por obrigação dar ao estudante uma visão correcta de alguns dos loci classici dos problemas abordados. Assim, seleccionaram-se aqueles textos que representam posições influentes no debate filosófico e são didacticamente apropriados para estudantes, e não os textos que os autores da antologia preferem por esta ou aquela razão.

A selecção de textos é simultaneamente conservadora e inovadora. Conservadora porque na generalidade dos casos se procurou incluir apenas aqueles filósofos já familiares a grande parte dos professores — o que determinou a exclusão de muita da filosofia do séc. XX. Inovadora porque em alguns casos se incluíram textos que, não sendo familiares à generalidade dos professores, têm uma posição absolutamente central na tradição filosófica. Por exemplo, no Capítulo 7 (teoria do conhecimento) inclui-se um excerto do texto clássico de Sexto Empírico. Além disso, algumas áreas da filosofia sofreram desenvolvimentos de tal modo relevantes no séc. XX que nenhuma antologia pode dar uma visão correcta da área sem incluir esses filósofos; é o caso da estética (Capítulo 5). Porque a filosofia da religião é estudada no ensino secundário em opção concorrente com a estética, incluiu-se no Capítulo 6 alguns filósofos contemporâneos centrais mas pouco familiares. Deste modo, os dois capítulos têm uma certa harmonia e — mais importante — mostra-se claramente que é falsa a ideia de que a filosofia da religião é coisa do passado, ou um mero exercício escolar.

Porque é importante que o estudante contacte com diferentes filósofos, privilegiou-se a diversidade. Assim, por exemplo, em vez de se incluir um texto de Hobbes como representante clássico do determinismo radical (Capítulo 1), optou-se por Espinosa porque Hobbes surge no Capítulo 3; em vez de se incluir a famosa e importante teodiceia de Leibniz ou de Swinburne, no Capítulo 6, optou-se por incluir Plantinga porque aqueles filósofos surgem já noutra secção do mesmo capítulo.

Esta antologia segue de perto o programa do ensino secundário, e herda algumas das suas deficiências. Uma das mais óbvias é começar por uma disciplina excessivamente abstracta e especializada: a filosofia da acção. Seria mais avisado começar pelos valores, avançar para a ética e só então leccionar a filosofia da acção — ou nem sequer a leccionar, pois esta não é uma área da filosofia tipicamente leccionada a nível introdutório, por razões didácticas óbvias.

Agradecemos a Faustino Vaz, Pedro Madeira, Célia Teixeira, Pedro Santos, Artur Polónio, Pedro Galvão, Rui Amado, João Dias Fonseca, José Carlos Soares, Maria José Vidal, Luís Gonçalves e Helena Melo as correcções, críticas e sugestões que muito nos ajudaram a melhorar este livro. Os erros que permanecerem são da nossa responsabilidade.


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