O Rasto do teu Sangue na Neve, de Mel Odom
4 de Julho de 2010 ⋅ Filosofia da mente

Intuições cartesianas e circularidade

Um exame do argumento de Kripke contra o materialismo tipo-tipo Matheus Silva
Universidade Federal de Minas Gerais

Em “Identity and Necessity” e Naming and Necessity, Saul Kripke apresenta argumentos contra três formas de materialismo:

  1. Aquele que afirma a identidade de uma pessoa com o seu corpo (identidade de substâncias);
  2. O que propõe a identidade de cada evento mental particular com certo evento particular no cérebro (identidade de particulares ou espécimen-espécimen);
  3. O materialismo que defende que cada tipo de estado mental é idêntico a um tipo de estado do cérebro (identidade de propriedades ou tipo-tipo).

Na bibliografia acerca do tema há uma diferença de importância atribuída aos argumentos de Kripke, que varia de acordo com a forma de materialismo que é alvo de seus argumentos: quando dirigidos contra o materialismo tipo-tipo, seus argumentos são geralmente tidos como sólidos e de grande apelo intuitivo, mas quando dirigidos contra o materialismo espécimen-espécimen, há um quase consenso de que os mesmos argumentos são fracos1. Penso que essa diferença de importância é injustificada, pois as intuições cartesianas dos argumentos de Kripke se dirigem contra as três formas de materialismo mencionadas. Portanto seria natural pensar que se as intuições cartesianas dos argumentos de Kripke são eficientes contra o materialismo tipo-tipo, também são eficientes contra o materialismo espécimen-espécimen. Irei pressupor neste ensaio que essa diferença de importância é infundada.2

O meu objetivo neste ensaio é mostrar como um dos argumentos de Kripke (1980: 150-151) contra o materialismo tipo-tipo não consegue estabelecer o que pretende, pois é circular. Objeções semelhantes contra os demais argumentos de Kripke contrários ao materialismo podem ser encontradas nos trabalhos de Bealer (1996: 355-388), Feldman (1974: 665-676) e Lycan (1974: 677-689). Como ignoro boa parte da bibliografia relevante não tenho pretensões de ser original nesse artigo.

Num primeiro momento, faço uma apresentação do argumento: para chegar às suas conclusões, Kripke utiliza a tese da necessidade da identidade e intuições cartesianas. Em seguida sustento que o argumento de Kripke é circular por duas razões:

  1. O argumento pressupõe que as intuições contrárias ao materialismo são verdadeiras desde o início; e
  2. As intuições contrárias ao materialismo podem ser abandonadas a partir de futuras descobertas científicas.

O argumento de Kripke

O materialismo tipo-tipo afirma que certos estados mentais, como a dor, são idênticos a certos estados cerebrais, como o disparar de certos neurônios (o exemplo utilizado por Kripke é a estimulação das fibras-C). Seja d o estado mental "dor" e f o estado cerebral "estimulação das fibras-C" o argumento de Kripke pode ser apresentado como o seguinte modus tollens:

P1) Se d é idêntico a f, então d é necessariamente idêntico a f.
P2) É metafisicamente possível que d não seja idêntico a f.
C) Logo, d não é idêntico a f.

A primeira premissa é uma aplicação da tese da necessidade da identidade, que afirma que qualquer identidade verdadeira deve ser necessária. Esta premissa é rejeitada por materialistas como Armstrong (1968) e Lewis (1966: 17-25). Irei simplesmente pressupor que esta premissa é incontroversa para fins de argumentação e também porque a considero plausível. P2 é a premissa mais importante do argumento de Kripke e também a mais criticada. Corresponde às intuições cartesianas (Descartes 1641: Meditação VI, parágrafo 17) sobre as relações entre o mental e o físico no chamado argumento da concebilidade: uma vez que é possível conceber de maneira clara e distinta que a mente poderia existir sem o corpo, pode-se concluir disso que eles são distintos. Tais intuições cartesianas (IC) são reformuladas por Kripke da seguinte maneira:

podemos conceber um mundo possível p em que determinada pessoa tem os estados cerebrais f (a estimulação das fibras-C existe), mas não tem o respectivo estado mental d (ela não sente qualquer dor). Como nesse mundo possível f pode existir sem d, a relação de identidade f = d não existe em p. O mesmo vale para a possibilidade contrária: podemos conceber um mundo possível p em que o estado mental d ocorre sem o respectivo estado cerebral f. Isto quer dizer que podemos imaginar uma pessoa com dor, mesmo sem possuir qualquer estado cerebral classificável. Logo, P2) É metafisicamente possível que d não seja idêntico a f.

As razões invocadas em IC dependem de uma suposição fundamental: se uma situação é concebível então é metafisicamente possível. Como é uma situação concebível a ocorrência de f sem a existência de d (e vice-versa) segue-se que é uma situação metafisicamente possível. O argumento de Kripke pretende estabelecer as mesmas conclusões do argumento da concebilidade, mas é mais sofisticado que este devido a seus recursos modais.

Uma objeção imediata à segunda premissa pode ser feita a partir das teses essencialistas do próprio Kripke. Seja c “o calor” e m “o movimento das moléculas” no seguinte modus tollens:

P1* Se c é idêntico a m, então c é necessariamente idêntico a m.
P2* É metafisicamente possível que c não seja idêntico a m.
C* Logo, c não é idêntico a m.

P2* aparenta ser tão intuitiva quanto P2, mas como a própria tese essencialista de Kripke afirma P2* é uma premissa falsa, pois se baseia em situações possíveis expressas incorretamente. P2* pode parecer metafisicamente possível, pois parece concebível que c não seja m, mas não é: trata-se de uma identidade necessária, estabelecida a posteriori. Do mesmo modo, continua a objeção, P2 pode aparentar ser metafisicamente possível, mas não é realmente possível. Portanto, se situações metafisicamente impossíveis como P2* parecem concebíveis, a suposição de que todas as situações concebíveis são metafisicamente possíveis é infundada e P2 é questionável. O que é possível ou impossível em relação ao calor não pode ser decidido a priori, mas sim pela investigação empírica.

Kripke tem uma resposta para essa objeção. A analogia não funciona porque há uma explicação para a ilusão de contingência presente em P2* que não ocorre em P2. Parece concebível que o calor não seja idêntico ao movimento das moléculas porque a situação aparentemente imaginada é confundida com uma situação diferente, que é idêntica do ponto de vista epistêmico e metafisicamente possível. A situação possível realmente imaginada é de que o movimento das moléculas pode existir sem causar a sensação de calor ou de que algo pode produzir a sensação de calor sem ser o movimento das moléculas. Mas a sensação de calor não é uma propriedade essencial do calor, é uma propriedade contingente.

De um lado temos a realidade do calor, que é idêntica ao movimento molecular, do outro lado temos a aparência do calor, que é a sensação de calor, algo meramente contingente. Apenas parece possível conceber que o calor não é o movimento molecular, mas isso de fato não é concebível, pois é metafisicamente impossível. O que é possível conceber é o calor sem a sensação de calor causada em nós. É por isso que há uma ilusão de que essa identidade necessária seria contingente.

O problema da analogia, afirma Kripke, é que não existe uma explicação semelhante para P2. Há uma diferença fundamental entre a suposta identidade que envolve o evento mental d e o evento físico f e a identidade que envolve o calor e o movimento das moléculas. Se em P2* podemos encontrar um hiato entre o calor real (o movimento molecular) e a aparência de calor (a sensação de calor), em P2 tal hiato não é possível, pois a dor real é a própria sensação de dor. Podemos identificar o calor pela propriedade contingente que nos afeta de tal e tal modo (a sensação de calor), mas não podemos afirmar de maneira análoga que sentimos a dor pela propriedade contingente que nos afeta de tal e tal modo. A aparência de dor é a dor, o sentir da dor é a própria dor.

Podemos conceber claramente uma circunstância possível em que há o estado físico f no cérebro de uma pessoa sem que este seja sentido como dor. Neste caso, todas as propriedades de d: a fenomenologia da dor, seus qualia e seus aspectos subjetivos internos não estariam presentes. Mas tais propriedades não são propriedades contingentes de qualquer estado mental designado como dor, são suas propriedades essenciais. Há aqui uma forte intuição essencialista que nos diz que em qualquer mundo possível em que a dor exista, a propriedade de ser sentida como dor está presente. Mas essa propriedade fenomenológica da dor é contingente para o estado cerebral f. Logo, P2) É metafisicamente possível que d não seja idêntico a f.

Seja Q os aspectos subjetivos presentes na sensação da dor. Tal propriedade é essencial em d, mas é contingente em f. Se d = f, pelo princípio da indiscernibilidade dos idênticos (Lei de Leibniz) qualquer propriedade que se aplica a d é também uma propriedade que se aplica a f. Mas Q é uma propriedade que se aplica a d e não se aplica a f, ergo d e f não podem ser idênticos:

Q é uma propriedade essencial de d
Q não é uma propriedade essencial de f
Logo, d = f.

Por que o argumento de Kripke é circular

Voltemos a P2. Quais são as razões que Kripke apresenta para sustentar sua intuição de que é metafisicamente possível que d não seja idêntico a f? Podemos conceber claramente circunstâncias possíveis em que os estados cerebrais f frequentemente correlacionados com estados mentais d existem sem correlação com d. Kripke pretende suportar essa intuição ao afirmar que não há nenhuma ilusão de contingência nessas situações possíveis tal como há nas situações possíveis em que não há a identidade entre calor e movimento molecular. Podemos realmente pensar em várias situações possíveis em que pessoas sentiriam dor sem qualquer estado cerebral correspondente e o desafio que Kripke faz ao materialista é justamente esse: mostrar que essas coisas que nós pensamos que são possíveis são de fato impossíveis e essas coisas que nós podemos conceber são de fato coisas que não podemos conceber.

O problema desse desafio é que as intuições oferecidas contra o materialismo não seguem alguns procedimentos básicos necessários para o estabelecimento de identidades necessárias a posteriori. Considere o seguinte argumento:

1K) Se o calor é o movimento das moléculas, é necessariamente o movimento das moléculas.
2K) O calor é o movimento das moléculas.
CK) Logo, o calor é necessariamente o movimento das moléculas.

1K diz respeito a tese da necessidade da identidade. 2k é uma verdade empírica descoberta a posteriori. Ck segue-se da verdade das duas premissas e também é conhecível a posteriori. É a partir dessa constatação que Kripke tenta conceber uma situação possível P2* capaz de anular a identidade entre calor e o movimento das moléculas. Mas tal situação possível não anula a identidade do calor com o movimento das moléculas e nenhuma outra situação possível capaz de anular essa identidade é concebível. Agora consideremos um modus ponens semelhante no caso da identidade mente-corpo:

1K*) Se a dor é a estimulação das fibras-C, é necessariamente a estimulação das fibras-C.
2K*) A dor é a estimulação das fibras-C.
CK*) Logo, a dor é necessariamente a estimulação das fibras-C.

Será que a partir desse modus ponens é possível conceber uma situação contrafactual em que não haveria a identidade entre a dor e a estimulação das fibras-C? Sim, mas para isso temos que negar que a premissa 2K* seja uma verdade empírica ou pressupor que ela seja falsa. Se a considerarmos verdadeira, como é o caso da premissa 2k no modus ponens anterior, não podemos conceber nenhuma situação possível que anule a identidade entre a dor e a estimulação das fibras-C.

Apenas podemos conceber uma pessoa que sente dor, mas não possui cérebro, se pressupormos desde o início que a identidade entre estados mentais como d e estados cerebrais como f, é falsa. Mas, contra-argumenta o materialista, apenas uma pessoa que não compreenda a natureza da dor pode imaginar isso. Do mesmo modo, podemos conceber uma situação em que exista calor, mas não exista movimento molecular se pressupomos que a identidade necessária entre calor e o movimento molecular não é uma verdade empírica. Mas alguém capaz de imaginar isso não sabe realmente o que é o calor.

Há uma diferença de estratégia fundamental no modo como Kripke apresenta situações possíveis nas quais aparentemente não há uma identidade entre o calor e o movimento molecular e situações possíveis nas quais realmente não há uma identidade entre a dor e a estimulação das fibras-C. No primeiro caso, a premissa 2K é pressuposta como verdadeira desde o início e isto anula qualquer situação possível em que o calor não seja de fato idêntico ao movimento molecular. No caso da identidade entre eventos físicos e mentais, a conclusão 2K* é pressuposta como falsa desde o início e assim é possível conceber circunstâncias em que a dor não seja a estimulação das fibras-C. Logo o argumento de Kripke é circular.

Retornemos à conclusão CK que nos diz que o calor é necessariamente o movimento das moléculas. Podemos utilizar o mesmo procedimento de Kripke aqui e também obteremos a conclusão de que o calor não é idêntico ao movimento das moléculas, pois podemos conceber situações contrafactuais reais em que essa identidade não ocorre. Se partirmos do pressuposto de que a premissa 2K é falsa, então podemos conceber isso. Mas só podemos saber se a premissa 2K é verdadeira ou falsa a posteriori, isto é, a partir da experiência empírica.

A história da física torna essa afirmação mais clara: por volta do final do século XVIII uma das hipóteses disponíveis acerca da natureza do calor era de o que o calor seria como uma substância fluida e indestrutível que permeava os corpos e transitava de corpos mais quentes para corpos mais frios. Esta substância hipotética foi chamada de “calórico” por Lavoisier (Nussenzveig 1981). A temperatura era uma espécie de medida da densidade de “calórico” na matéria, quanto mais “calórico” existente num determinado corpo, maior a sua temperatura. Interessante observar que essa hipótese era a mais aceita entre os cientistas da época. Um cientista como Lavoisier poderia perfeitamente conceber que o calor é distinto do movimento das moléculas, pois partia do pressuposto de que a premissa 2K é falsa — a hipótese rival, de que o calor é o movimento das moléculas, só se tornou dominante no século XIX.

Isso mostra como o essencialismo proposto por Kripke não é uma teoria metafísica apriorística. Ela nos permite saber a priori que os particulares podem ter propriedades essenciais e acidentais. Mas saber, em cada caso, se uma propriedade é essencial ou acidental depende do nosso melhor conhecimento empírico disponível (Murcho 2002). Nossas intuições acerca do que é concebível ou inconcebível são modificadas por nosso conhecimento empírico do mundo. O próprio Kripke (1980: 142-143) apresenta um exemplo dessa mudança de concebilidade: quando descobrimos que uma mesa de madeira é feita de moléculas, nós perdemos com isso a nossa capacidade de imaginar ou conceber que ela poderia ser feita de outra coisa qualquer. Isso ocorre mesmo que nós ainda possamos imaginar uma mesa qualitativamente similar, mas feita de outra coisa qualquer. Por outro lado, com essa descoberta nós ganhamos a capacidade de conceber a mesa como sendo composta de minúsculas partículas, apesar das nossas intuições anteriores de que uma propriedade essencial da mesa, sua solidez, não poderia possuir qualquer relação com entidades tão estranhas.

Do mesmo modo, podemos conceber que a dor não é idêntica à estimulação das fibras-C e vir a descobrir que a dor é idêntica à estimulação das fibras-C. Suponha que depois de algumas importantes descobertas na neurociência o materialismo tipo-tipo venha a ser aceito pela comunidade científica e pelas pessoas do senso comum. Parece descabido dizer nesse caso que as pessoas não poderiam conceber a dor como idêntica a qualquer tipo de estado cerebral. Na verdade nós perderíamos rapidamente nossa capacidade de conceber que a dor é outra coisa além de um tipo de estado cerebral. Portanto o argumento de Kripke também é circular por essa razão: pressupõe que as intuições contrárias ao materialismo são verdadeiras independentemente de nosso melhor conhecimento empírico disponível, o que é questionável.

Versões mais sofisticadas do argumento poderiam evitar essa objeção desde que sejam capazes de satisfazer duas condições: 1) não utilizem intuições contrárias ao materialismo que estão sob disputa, 2) e não utilizem intuições contrárias ao materialismo que poderiam ser abandonadas a partir de futuras descobertas científicas. Mas está longe de ser claro como uma versão do argumento da concebilidade poderia satisfazer essas condições.

Matheus Silva

Notas

  1. Veja, por exemplo, Nagel (2000).
  2. Argumentos detalhados que demonstram como essa diferença de importância é injustificada podem ser encontrados no excelente trabalho de Branquinho (2003). Este trabalho também influenciou decisivamente a minha apresentação dessa discussão.

Referências

  1. Armstrong, D.M. (1968) A Materialist Theory of the Mind. Nova Iorque: Humanities Press.
  2. Branquinho, J. (2003) “Contra o Materialismo”. Seminário de Filosofia Analítica. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.
  3. Kripke, S. (1971) “Identity and Necessity”. In Identity and Individuation, org. Milton K. Munitz. Nova Iorque: New York University Press, pp. 188-190.
  4. Kripke, S. (1980) Naming and Necessity. Cambridge, MA: Harvard University Press, pp. 134-155.
  5. Bealer, G. (1996) “The Rejection of the Identity Thesis”, in The Mind-Body Problem: A Guide to the Current Debate, org. R. Warner e T. Szubka. Oxford: Blackwell, pp. 355-388.
  6. Descartes, R. (1641) Meditações Metafísicas, Trad. M. E. Galvão. Martins Fontes, São Paulo: 2000.
  7. Feldman, F. (1974) “Kripke on the Identity Theory.” The Journal of Philosophy, Vol. 71, No. 18, pp. 665-676.
  8. Lewis, D, (1966) “An Argument for the Identity Theory.” The Journal of Philosophy, LXIII, 1, pp. 17-25.
  9. Lycan, W. (1974) “Kripke and the Materialists.” The Journal of Philosophy, Vol. 71, No. 18, pp. 677-689.
  10. Murcho, D. (2002) Essencialismo Naturalizado: Aspectos da Metafísica da Modalidade. Coimbra: Angelus Novus.
  11. Nagel, T. (2000) “The Psychophysical Nexus.” In New Essays on the A Priori, org. P. Boghossian e C. Peacocke. Oxford: Oxford University Press, 434-72.
  12. Nussenzveig, M. (1981) Curso de Física Básica. São Paulo: Edgard Blücher.
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