Textos e Problemas de Filosofia Leão Tolstoi
25 de Março de 2008 ⋅ Ética

Confissão

Leão Tolstoi

"Muito bem, serás mais famoso do que Gogol, Pushkin, Shakespeare, Molière, mais famoso do que todos os escritores do mundo — e depois?"

E eu não encontrava resposta absolutamente nenhuma.

[…]

E isto estava a acontecer-me quando tudo indicava que se devia considerar que eu era um homem completamente feliz; isto aconteceu-me quando não tinha ainda cinquenta anos. Tinha uma mulher bondosa e dedicada que eu amava, bons filhos e bens que cresciam sem qualquer esforço da minha parte. Era mais do que nunca respeitado por amigos e conhecidos, elogiado por estranhos, e podia dizer sem qualquer ilusão que gozava de uma certa celebridade. Além disso, não estava sem saúde física nem mental; pelo contrário, gozava de um vigor físico e mental que raramente encontrava em pessoas da minha idade. Fisicamente, podia acompanhar os camponeses no trabalho de campo; mentalmente, podia trabalhar entre oito a dez horas de seguida sem sofrer quaisquer efeitos do esforço. E nesta situação cheguei a um ponto em que não podia viver; e apesar de temer a morte tinha de usar ardis contra mim mesmo para não me suicidar.

Eu descrevia a minha condição espiritual da seguinte maneira: a minha vida era uma espécie de brincadeira estúpida e perversa que alguém me estava a fazer. Apesar de eu não aceitar a existência de qualquer "Alguém" que me pudesse ter criado, a noção de que alguém me trouxera a este mundo como uma brincadeira estúpida e perversa parecia-me a maneira mais natural de descrever a minha situação.

Não podia deixar de imaginar que algures alguém se divertia, rindo-se de mim e da maneira como vivi durante trinta ou quarenta anos, estudando, desenvolvendo-me, crescendo em corpo e alma; rindo-se por eu ter agora atingido a completa maturidade intelectual e ter chegado ao cume no qual a vida se revela para ficar aí como um completo idiota, vendo claramente que nada há na vida, que nunca houve e que nunca haverá. "E ele ri-se…"

Mas houvesse ou não alguém que se divertia à minha custa, isso não tornava as coisas mais fáceis para mim. Eu não conseguia atribuir qualquer sentido racional a um único acto em toda a minha vida. O que me surpreendia era não ter compreendido isso desde sempre. Toda a gente soubera sempre disso. A doença e a morte, mais cedo ou mais tarde, acabariam por vir (na verdade, aproximavam-se já), afectando toda a gente e eu próprio, e nada restaria excepto podridão e vermes. Os meus feitos, sejam eles quais forem, serão esquecidos mais cedo ou mais tarde, e eu próprio não existirei mais. Porquê, então, fazer seja o que for? Como pode alguém não ver isto e viver? É isso que é espantoso! Só é possível viver enquanto a vida nos intoxica; quando ficamos sóbrios não podemos deixar de ver que tudo isto é uma ilusão, uma estúpida ilusão! E isto não é divertido nem espirituoso; é apenas cruel e estúpido.

[…]

A minha questão, a questão que me tinha conduzido à beira do suicídio quando eu tinha cinquenta anos, era a questão mais simples que existe na alma de todos os seres humanos, da criança simplória ao mais sábio dos anciãos, a questão sem a qual a vida é impossível; pois era o que eu sentia com respeito a isso. A questão é esta: O que será do que faço hoje e amanhã? O que será da minha vida inteira?

Expresso de forma diferente, a questão pode ser: Por que hei-de viver? Por que hei-de desejar ou fazer seja o que for? Ou, de outra forma ainda: Há algum sentido na minha vida que não seja destruído pela minha morte, que se aproxima inevitavelmente?

Procurei por todo o conhecimento humano uma resposta a esta questão, que é uma só questão expressa de diferentes maneiras. E descobri que, com respeito a esta questão, a soma do conhecimento humano divide-se como que em dois hemisférios opostos, em dois extremos que ocupam dois pólos, um positivo e um negativo. Mas não havia respostas à questão da vida em qualquer deles.

Um campo do conhecimento nem sequer reconhece a existência da questão, apesar de responder clara e precisamente às questões que colocou por si. Trata-se do campo da ciência experimental, na extremidade da qual está a matemática. O outro campo do conhecimento reconhece a existência da questão, mas não lhe dá resposta. Trata-se do campo da filosofia especulativa, na extremidade da qual está a metafísica.

[…]

Na minha procura de respostas à questão da vida senti-me exactamente como um homem que está perdido numa floresta.

Cheguei a uma clareira, subi a uma árvore, e tive uma perspectiva desobstruída do espaço sem fim à minha volta. Mas eu podia ver que não havia casa alguma nem poderia haver; regressei à floresta espessa, às trevas, e uma vez mais não via casa alguma — só as trevas.

Assim vagueei pela floresta do conhecimento humano. De um lado, estavam as clareiras das ciências matemáticas e experimentais, que me abriam horizontes astutos; mas não encontrava aí casa alguma. Do outro lado, estavam as trevas das ciências especulativas, onde cada passo que dava me mergulhava ainda mais fundo nas trevas, convencendo-me finalmente de que não havia saída.

Ao entregar-me à luz brilhante do conhecimento, só desviava os meus olhos da questão. Por mais claros e tentadores que fossem os horizontes que se abriam perante mim, por mais tentador que fosse afundar-me no infinito deste conhecimento, cedo compreendi que quanto mais claro era este conhecimento, menos eu precisava dele, menos respondia à minha questão.

[…]

Na verdade, um conhecimento estritamente racional começa, à maneira de Descartes, com uma dúvida absoluta de tudo. O conhecimento estritamente racional põe de lado qualquer conhecimento baseado na fé e reconstrói tudo a partir do zero de acordo com as leis da razão e da experiência; não pode dar resposta à questão da vida além da que eu tinha recebido — uma resposta indefinida. Só à primeira vista parecia que o conhecimento dava uma resposta positiva, a resposta de Schopenhauer: a vida não tem sentido, é um mal. Mas quando vi melhor percebi que não era uma resposta positiva e que só as minhas emoções a tinham tomado como tal. Estritamente falando, tal como formulada pelos brâmanes, Salomão e Schopenhauer, a resposta é apenas uma vagueza ou uma identidade; 0 = 0, a vida que se me apresenta como nada é nada. Assim, o conhecimento filosófico nada nega, respondendo apenas que não pode decidir esta questão e que do seu ponto de vista qualquer resolução permanece indefinida.

Ao compreender isto, tomei consciência de que não podia procurar uma resposta à minha questão no conhecimento racional. A resposta dada pelo conhecimento racional é apenas uma indicação de que só se pode obter uma resposta formulando a questão de maneira diferente, isto é, só quando a relação entre o finito e o infinito for introduzida na questão. Tomei também consciência de que por mais irracionais ou pouco atraentes que fossem as respostas dadas pela fé, têm a vantagem de introduzir em todas as respostas uma relação entre o finito e o infinito, sem a qual não pode haver resposta. Ponha eu como puser a questão de saber como viver, a resposta é: de acordo com a lei de Deus. Haverá algo de real que resulte da minha vida? Tormento eterno ou felicidade eterna. Que sentido há que não seja destruído pela morte? A união com o Deus infinito, o paraíso.

Assim, em complemento ao conhecimento racional, que antes me parecera ser o único, fui inevitavelmente levado a reconhecer um tipo diferente de conhecimento, um tipo irracional, que toda a humanidade tinha: a fé, que nos dá a possibilidade de viver. Quanto a mim, a fé continua a ser tão irracional quanto antes, mas não podia deixar de reconhecer que só ela dava à humanidade uma resposta à questão da vida, tornando assim possível viver.

O conhecimento racional conduziu-me à conclusão de que a vida não tinha sentido; a minha vida parou, e eu queria acabar comigo. Ao olhar para as outras pessoas vi que viviam e convenci-me de que conheciam o sentido da vida. Voltei-me então e olhei para mim mesmo; desde que conhecesse o sentido da vida, viveria. Tal como acontecia com os outros, assim era comigo: a fé dava-me o sentido da vida e a possibilidade de viver.

Leão Tolstoi

Interpretação

  1. O que quer o autor dizer com a pergunta "E depois?" quando considera a possibilidade de ser muito famoso e bem-sucedido?
  2. Tolstoi era feliz quando colocou o problema do sentido da vida? Porquê?
  3. Por que razão pensa Tolstoi que, de um ponto de vista mais alargado, a sua felicidade e sucesso não têm qualquer valor?
  4. O que simbolizam a floresta e as clareiras?
  5. Explique que dilema é simbolizado pela opção entre as trevas da floresta e as respectivas clareiras.
  6. Que ideia central defende Tolstoi relativamente ao poder da filosofia para responder ao problema do sentido da vida?
  7. Qual é o sentido da vida, segundo Tolstoi?

Discussão

  1. Será importante saber que Tolstoi era feliz quando se viu perante o problema do sentido da vida? Porquê?
  2. "Se Tolstoi era feliz, é totalmente irrelevante saber se, de um ponto de vista mais alargado, a sua vida tem ou não valor. O que conta é que a vida de Tolstoi tem valor para Tolstoi." Concorda? Porquê?
  3. Tolstoi defende que a resposta ao problema do sentido da vida está para lá da racionalidade. Concorda com Tolstoi? Porquê?
  4. Admitindo que a resposta ao problema do sentido da vida está para lá da racionalidade, será essa resposta satisfatória? Porquê?
  5. Para responder ao problema do sentido da vida é necessário introduzir o tema da relação entre o finito e o infinito, defende Tolstoi. Concorda? Porquê?
  6. O sentido da vida é a união com Deus, defende Tolstoi. Concorda? Porquê?
Tradução de Desidério Murcho
Retirado de Textos e Problemas de Filosofia, org. por Aires Almeida e Desidério Murcho (Plátano, 2006)
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