Senecio, de Paul Klee
16 de Agosto de 2009 ⋅ Filosofia

A traição aos gregos

Gonçalo Armijos Palácios
Universidade Federal de Goiás

Quando o academicismo bajulador se entrona no ambiente filosófico, a filosofia não pode, simplesmente, ser feita, deve ser perpetrada.

Os gregos nos legaram a filosofia e nos ensinaram a filosofar, fomos nós que não aprendemos — ou assim parece. Não filosofamos como eles o faziam porque, lamentavelmente, queremos, sempre, filosofar a partir deles ou a partir de outros. Partimos de um respeito mal entendido, ou mal concebido, da grandiosidade daqueles pensadores. Eles não são grandes por serem inatingíveis, mas por, simplesmente, terem sido eles mesmos. A enormidade deles se deve, em muito, ao nosso próprio apoucamento.

O caráter frutífero do pensamento dos antigos filósofos decorre, em grande parte, do seu antitradicionalismo teórico. Resulta de eles terem rompido com uma tradição histórica muito forte. O que os levou, inclusive, a serem perseguidos. Lamentavelmente, eles se tornaram, para nós, uma tradição a ser reverenciada. E nós os assumimos como uma tradição insuperável. Obstinamo-nos em não filosofar a partir de nós, mas a partir deles. E chegamos, inclusive, a afirmar que não podemos filosofar a não ser debatendo os problemas que eles debatiam.

Por isso, a falta de uma filosofia clara, transparente, objetiva — pública, numa palavra —, a atribuímos às causas mais diversas. Sem dúvida, a filosofia tornou-se, desde a época medieval, um assunto privado, reservado a centros inacessíveis e a pessoas afastadas do povo, verdadeiros santos. A filosofia converteu-se em assunto escuro, chato, incompreensível, afastado dos assuntos que interessam à maioria, inatingível pelo comum dos mortais.

Desse modo, uma daquelas causas que nos impedem de filosofar seria a superioridade da língua grega. Como se fosse por causa da língua que podemos ou não filosofar. Dado estranhíssimo. Heidegger afirma tal superioridade. Mas será que uma língua é inferior ou superior a outra? Se em uma língua conseguimos dizer o que queremos comunicar, não é sinal de que é adequada? Que outro critério poderíamos usar? Dizer que a língua grega é superior às nossas línguas porque nas nossas não conseguimos dizer as coisas que os gregos diziam, ou como os gregos as diziam, é pôr o carro na frente dos bois. Se fosse a língua que determinasse a possibilidade ou impossibilidade de refletirmos filosoficamente, por que então os gregos contemporâneos não filosofam? Será porque o grego clássico é superior, também, ao grego moderno — enriquecido, este, por influências lingüísticas, históricas e de todo tipo, em mais de dois mil anos de crescimento cultural?

Afirmo que é a atitude perante as coisas que nos permite ou não filosofar. Sem essa atitude jamais iremos filosofar. Se acharmos que não podemos fazê-lo por conta própria, certamente não o faremos, falando grego, latim ou sânscrito. Filosofamos na medida em que, tendo uma certa atitude, pensamos como meros seres humanos, não por falarmos esta ou aquela língua.

Qual seria a atitude dos gregos que lhes permitia filosofar? Confiar em si mesmos e valorizar-se a si mesmos valorizando seus problemas e preocupações. Eles mesmos eram sua principal preocupação.

Tinham mitologia, e não história. Isto parecerá, ao leitor, uma afirmação esquisita. Quero dizer com isso que os filósofos gregos não tinham uma história que deviam respeitar e a que deviam necessariamente se submeter. Eles não formavam parte de uma história mundial. Hoje nós não formamos parte de história e processos. Fomos subjugados por outras culturas. Os gregos não. Eles não eram uma pequena parte do mundo. Era assim que se pensavam, assim se concebiam. Não tinham, num sentido, um interesse nostálgico pelo passado ou por outros povos. De qualquer modo, não tinham interesse pelo que outros povos não helênicos pensavam antes deles. Eles não se interessavam por fazer um mapeamento intelectual de tradições ou culturas pré-helênicas. Em uma palavra, eles eram eles. (E por "eles" me refiro, naturalmente, aos filósofos.) Por que, então, faziam tanta filosofia e tão boa? Porque se sentiam capazes de pensar por si sós. Os bárbaros eram os outros.

Nós, como poderíamos fazer filosofia, se partimos do pressuposto contrário, de que os bárbaros somos nós? Se não fazemos filosofia não é, penso, por uma inferioridade metafísica da nossa língua em relação à dos gregos clássicos, mas devido à nossa escassa auto-estima filosófica — auto-estima inexistente em muitos casos. Se não nos pensamos capazes de filosofar, com certeza não o faremos.

Se é verdade que os gregos eram fiéis a sua realidade política concreta, também os modernos, por exemplo, o foram, e o são os contemporâneos. Na filosofia ocorre da mesma maneira. Há filósofos modernos que pensam por si sós, sem fazer alusões aos gregos — a não ser para criticá-los -, assim como há filósofos contemporâneos que fazem filosofia sem se incomodar com épocas pretéritas.

Mas também é verdade que há lugares onde os estudantes são forçados a admirar excessivamente a tradição e não se lhes permite ousar afastar-se dela. Esse lugar é a academia. Vejamos só os títulos das dissertações de graduação e pós graduação: "O conceito de xxx em YYY", "A noção de www em ZZZ", "A categoria de uuu em VVV" etc. E o mesmo ocorre com os artigos e publicações acadêmicos. Dessa forma, é o sentimento de inferioridade em relação a filósofos gregos, medievais, modernos ou contemporâneos que impede as novas gerações de filosofar, não a inferioridade da língua em que falam. (Língua que, pelo próprio desenvolvimento histórico, é mais rica conceitualmente do que alguma vez imaginou-se que a língua clássica poderia ser.)

Em suma, é o complexo de inferioridade de muitos professores de filosofia que não querem ou não podem filosofar, e se limitam a comentar, que impede o livre exercício do filosofar. A Capes, o CNPq, o Ministério da Educação, ou quem quer que detenha a competência, deveriam proibir, na filosofia, os trabalhos cuja intenção seja explicar para o mundo os significados de "o conceito de xxx em ZZZ". As prateleiras de todas as bibliotecas universitárias estão lotadas com esses trabalhos. Eu queria ver se alguém podia receber um doutorado em biologia com um trabalho cujo tema fosse "O conceito de dor em Galeno" ou "A noção de diarréia em Hipócrates". Talvez isto tenha interesse histórico. Um texto de história da medicina pode ter semelhante tema. E até seria interessante. Mas não um trabalho de biologia, isto é, um trabalho em que se discutam assuntos prementes para os biólogos contemporâneos e, em decorrência disso, para os seres humanos. Devemos, portanto, redefinir o espírito dos Departamentos de Filosofia. Ou fazemos história da filosofia, ou filosofia. Devemos ter a coragem de mudar o nome do departamento para o de "história" se nos sentirmos incapazes de filosofar por conta própria e se achamos que nossos alunos também o são — e sempre se pensa que eles são. Ou, então, se não queremos ser tidos como historiadores das idéias, então vamos nomear os departamentos de Departamentos de Comentariologia, se a única que fazemos, ou nos achamos em condições de fazer, é comentar textos filosóficos. E como para isso alguns se acham bons, então nasce a terrível figura do especialista, o carrasco da iniciativa e do avanço filosóficos. O especialista é o dono das opiniões sobre as idéias de outros. Aí é que o aluno se perde definitivamente, e a filosofia esmorece.

Essa é a traição aos gregos. Eram eles especialistas? Comentadores? Eram acadêmicos nesse sentido? Essa é a pergunta que deve ser respondida. Ou eram simples mortais que se sentiam em condições de pensar sem ter de se deslocar dois mil anos no tempo. A questão é: os grandes filósofos, gregos, modernos ou contemporâneos, foram e são especialistas? Foram e são comentadores? São seus textos cheios de referências, citações, ou análises conceituais de conceitos alheios, ou simples reflexões próprias? Esses filósofos foram preparados para comentar, para citar, ou, pelo contrário, para refletir?

Nós, portanto, não somos nem piores nem melhores do que os gregos. Podemos, sim, ter uma atitude que nos condene a fazer coisas ruins: o enésimo comentário de um conceito pelo qual, por exemplo, só os especialistas se interessam. Se temos saudades dos gregos, façamos como eles, vamos direto ao assunto: filosofemos! E se queremos que nossa língua iguale a transparência da língua grega, é só falar de assuntos que nos interessam: os da nossa própria cultura, os assuntos atuais. (A não ser em casos excepcionais, que há.) É muito simples, pois se fôssemos falar de assuntos atuais, o faríamos com o vocabulário em voga, o que é de uso corrente; pelo contrário, ao falar de assuntos há muito enterrados no esquecimento, só poderemos fazê-lo com o vocabulário adequado a tais assuntos, para o qual deveremos ressuscitar línguas mortas e terminologia alheia. Neste último caso estamos condenados à escuridão, ao pedantismo do especialista, e ao desdém do homem comum.

A traição consiste em esconder-nos por trás de vocabulários emprestados para tratar de assuntos que não são problemas para ninguém nem nos dizem respeito. Além de traidores da inteligência, nos convertemos em intrometidos esclarecidos.

Esta verdade é difícil de ocultar, mas poucos querem vê-la: assim como o crítico de arte não é artista, nem o historiador da ciência cientista, o mero comentador de textos filosóficos não é filósofo — dura verdade para se engolir.

Responsabilizar a língua pelo uso que dela se faz é, portanto, tirar a responsabilidade de quem verdadeiramente a tem, seu usuário. Se achamos que nossa língua não presta, então caímos no absurdo de ter de inventar uma que preste. O caráter ridículo do projeto mostra por si só o absurdo da tese da qual se parte. Encaremos o problema e admitamos que não filosofamos não porque nossa língua não preste, mas porque não nos atrevemos a usá-la filosoficamente.

Se a língua grega tinha algo de privilegiado era o fato de ela ser usada de maneira autêntica, para comunicar, e de não ser usada da maneira pedante dos especialistas que mal conseguem se comunicar, tal é a "profundidade" de seus discursos. É o uso da língua grega que deu aos primeiros filósofos uma perspectiva privilegiada em relação àqueles que se arrogam o direito exclusivo de "interpretá-los". São os acadêmicos posteriores que, colocando-se numa situação de inferioridade com relação aos filósofos clássicos mas de superioridade com relação a seus contemporâneos, que tornam seus discursos escuros, inautênticos e de conteúdo filosófico nulo. Não que sejam discursos necessariamente falsos e, sim, necessariamente, não-filosóficos. Nunca tive problemas com a minha língua ou com o português ou com o inglês para dizer o que penso. É sugestivo que, no fundo, os especialistas tampouco, pois, caso contrário, como é que eles conseguem "explicar" em português ou que não se pode "dizer" em português? Mais ainda, como é possível "ensinar" em português o que não se pode "pensar" em português? Numa palavra, como é que eles conseguem ensinar filosofia numa língua que, segundo alguns, não tem aquele acesso privilegiado que o grego (ou alemão) tem?

Por que não se faz filosofia como se fazia na antiga Grécia? Porque entre os filósofos e seus problemas ninguém se interpunha. Hoje, em muitos lugares, parece que é proibido ter problemas filosóficos próprios. Entre o aprendiz de filósofo e a filosofia se interpõe um número interminável de leituras secundárias, de especialistas, de comentadores, de dissertações sobre o conceito de xxx em YYY. Não é possível fazer um texto filosófico sem ter de citar uns vinte ou trinta especialistas, eruditos, comentadores, numa palavra, sem ter de fazer vênia aos atravessadores do pensamento. Não significa, portanto, que não possamos usar nossa língua para filosofar porque nossa língua não preste; é que os professores, as bancas examinadoras, os comitês que apóiam as publicações e as pesquisas filosóficas não deixam. Não permitem que seja feito o que os gregos faziam: usar sua língua para filosofar, sem ter de pedir autorização aos donos do saber, sem ter de fornecer bibliografias intermináveis que satisfaçam aos doutos ignorantes que ensinam mal o que não conseguem fazer bem. Assim, enquanto os especialistas, os não-filósofos, controlarem a produção e a difusão de idéias, aqui no Brasil, não existirá filosofia como existe música, arte e até ciência e tecnologia brasileiras.

A tradição cartesiana — diz o colega Joel — nos tornou cegos. Eu acrescentaria: e, os especialistas, mudos.

Gonçalo Armijos Palácios
gonzalo.armijos@gmail.com
Retirado de De Como Fazer Filosofia sem ser Grego, Estar Morto ou Ser Gênio, de Gonçalo Armijos Palácios (Goiânia, Editora UFG, 2004)
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