Infracção, de Anne Marie Laurin
10 de Fevereiro de 2010 ⋅ Opinião

Trair a tradução

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Um dos aspectos que me incomoda em muitas edições portuguesas, sobretudo do passado, é uma falta de fidelidade ao original. Subitamente, é como se o autor não tivesse qualquer palavra a dizer; o livro não lhe pertence já, e passou a poder ser adulterado como muito bem o entender o tradutor ou, a mais das vezes, o editor. Isto ainda ocorre hoje nas zonas mais anémicas do mundo editorial de língua portuguesa, e é uma vergonha. Entre isto e as traduções ultra-literais pejadas de anglicismos ou galicismos venha o diabo e escolha.

Vem isto a propósito de uma descoberta impressionante: em 1970 a Moraes Editora publicou em Portugal a tradução, da autoria de Maria Luísa Nunes, do clássico da filosofia contemporânea de Gilbert Ryle, The Concept of Mind. Não só o título foi adulterado para O Conceito de Espírito, como se lhe acrescentou um subtítulo: Introdução à Psicologia. Não só este subtítulo não existe na edição original, como trai evidentemente o conteúdo do livro, que não é de psicologia, mas estritamente filosófico. (Mas é preciso não esquecer que em Portugal até meados da década de 70 do séc. XX a psicologia era ainda encarada como uma disciplina da filosofia, representando por isso um atraso de cerca de um século relativamente aos países academicamente saudáveis.)

Ora, o termo português “mente” capta perfeitamente o latim mens, que por sua vez está na origem de mind. Se Ryle quisesse falar de espírito, teria falado de spirit. Ao contrário do que muita gente pensa, mind não tem qualquer conotação com cérebro, nem com qualquer outro elemento físico. Mind é como mens e como “mente”: o lugar do pensamento, do sentir, etc., e é a tradução correcta do latim mens.

De onde vem a animosidade com o termo português “mente,” que tem a etimologia certa, preferindo-se um termo espiritualista, que tem conotações erradas? Do francês. Porque em francês se quisermos falar de mente parece que estamos a falar de doenças mentais: philosophie du mental é então preterido a philosophie de l’esprit. Mas desde quando somos nós francófonos? Ou anglófonos, já agora. O que somos é lusófonos. Ou não?

Por sua vez, este aspecto relaciona-se de perto com outro pecadilho do mundo editorial de língua portuguesa, sobretudo do passado: uma certa heteronomia, que faz editores, revisores e tradutores terem medo do que “soa mal,” acabando por adulterar os originais para “soar bem.” Acontece que nenhuma regra é absoluta, no que respeita à tradução e edição, e é isso que exige autonomia: em alguns casos “soar mal” é razão para não grafar algo, se o sentido não for adulterado; mas noutros casos não o é. Além disso, o que soa bem e o que soa mal depende em grande parte do que escrevermos nos livros e falarmos nas aulas; não é uma entidade estática. Uma boa tradução é tão fiel quanto possível ao original, na letra… e no espírito!

Há uns anos entrei numa livraria inglesa e por um acaso veio-me às mãos um romance de Somerset Maugham, que eu tinha lido em adolescente em tradução portuguesa. Fiquei siderado. Um autor que eu considerava destituído de estilo revelava-se, no original, um cultor da língua inglesa. Isto é o resultado de absolutizar o “soar mal”: às tantas, a única coisa que soa bem é o uso anódino da língua, tal como a encontramos nos jornais, e assassina-se o estilo de um autor para “soar melhor.” Claro que em muitos casos não é possível captar certas subtilezas de estilo, mas noutros casos é. E quando o é, o “soar mal” é razão insuficiente para não captar o estilo que o autor decidiu imprimir ao seu texto. Afinal, se o autor quisesse escrever desse modo anódino poderia tê-lo feito.

Para nossa desgraça, também ocorre o contrário: passagens que no original são directas e sem adornos, ficam em português com um sabor pretensamente literário e metafórico, mas que na realidade é apenas um rendilhado de mau gosto, manifestando a pobreza literária do tradutor ou do revisor, e bloqueando a precisão desadornada do autor.

Haja respeito, por amor das musas!

E, na ausência disso, pelo menos competência e profissionalismo.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
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