8 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Três problemas no ensino

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A situação de conflito absurda a que se chegou no ensino parece resultar de três factores — outros terão o seu papel causal, mas estes parecem importantes.

O primeiro factor é a falta de profissionalismo de alguns professores. Saindo das universidades mal formados, alguns professores parecem não querer assumir as suas deficiências e ainda menos estudar para poderem desempenhar com profissionalismo a sua tarefa. Comprar livros, ler, discutir ideias, estudar — estas não parecem actividades populares entre os professores. Durante décadas, alguns professores dedicaram-se exclusivamente a dar aulas pelo manual escolar, redigido por vezes por professores com iguais deficiências formativas.

Quando foi criada a melhor iniciativa das últimas décadas no que respeita à educação — a formação de professores, contínua e obrigatória — os professores colaboraram na fraude: formações de fantasia em que toda a gente era aprovada, sobre matérias sem qualquer relevância para a qualidade do ensino. Professores com graves carências em física ou matemática faziam formações de teatro ou de Internet ou de jogo do pau, nas quais nada realmente aprendiam — e mesmo que aprendessem não seria relevante para a excelência do ensino. Bastaria que os professores tivessem exigido formação de qualidade e rigorosa, e um factor central da avaliação de professores estaria resolvido, pois se a formação fosse de qualidade muitos professores não teriam aproveitamento.

O segundo factor é a mentira política. Não é pura e simplesmente verdade que os actuais dirigentes educativos estejam genuinamente interessados na excelência educativa. Só duas coisas os preocupam: mostrar aos organismos internacionais números felizes de sucesso escolar inventado e poupar dinheiro. Tudo o que fazem é com estes dois axiomas em mente. O objectivo dos exames de fantasia e das outras medidas educativas é impedir por via administrativa a reprovação, sem que isso resulte de melhores aprendizagens. O objectivo da avaliação dos professores é apenas poupar dinheiro.

O terceiro factor é talvez o mais perverso. Porque nunca antes os dirigentes educativos mostraram tanto desinteresse pelas questões educativas, são os técnicos do Ministério da Educação que realmente governam actualmente. E fazem-no como sabem: com regras, legislações, formulários, normas, circulares. A consequência disto é a neutralização dos professores mais competentes, que agora não têm tempo para estudar nem preparar aulas; são estes professores que estão a pedir reforma antecipada pois, por profissionalismo e amor ao ensino, suportam programas idiotas, manuais tolos, colegas sem vida intelectual e estudantes mal-educados — mas não têm realmente paciência para passar a vida em reuniões e a ler legalês mentecapto.

Entretanto, nada se faz de relevante para melhorar a qualidade do ensino: nem por parte dos professores, nem do Ministério, nem dos legisladores. É como haver falta de água e andarmos a discutir a cor do Rio Douro.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (9 de Dezembro de 2008)
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