George Orwell
27 de Março de 2008 ⋅ Opinião

Ensimesmamento, estilo e totalitarismo

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Numa recensão publicada em Julho de 1948 na revista The New Yorker de O Nó do Problema, do escritor católico Graham Greene, Orwell critica o inverosímil ensimesmamento do protagonista, Scobie, para o qual a sua própria trajectória religiosa se sobrepõe a toda a realidade que o rodeia. Situando-se o romance em África em plena segunda guerra mundial, e quando os movimentos independentistas africanos ganhavam força, Orwell comenta:

"O que Scobie teria realmente em vista o tempo todo — a hostilidade entre branco e negro, e a luta contra o movimento nacionalista local — nunca é mencionado. Na verdade, apesar de os seus pensamentos nos serem exibidos em pormenor, raramente parece pensar sobre o seu trabalho, e quando isso acontece fá-lo com respeito aos aspectos triviais, e nunca sobre a guerra, apesar de a data ser 1942. Tudo o que lhe interessa é o seu próprio caminhar em direcção à danação." (pp. 1338-1339 da edição da Everyman's.)

Orwell argumenta que uma dor de alma, conflito espiritual ou dilema pastoral não pode ser mais importante do que a morte, o sofrimento e a miséria de milhares de seres humanos à nossa volta. Acusa por isso o romance de Greene de falta de verosimilhança. Isto mostra a sua impaciência com escritores intimistas — sobretudo quando estão inseridos numa realidade que no seu entender necessariamente se sobrepõe a quaisquer angústias solipsistas. Greene escreve um romance sobre dilemas religiosos infantis imediatamente a seguir à segunda guerra mundial, localiza-o em África durante a guerra e não tem qualquer interesse nas realidades exteriores tangíveis; o Eu, e a sua imaginada relação pessoal com Deus, é tudo o que lhe interessa. Orwell rejeita a mundividência católica de Greene, na qual a palavra "moral" significa apenas essa relação onanista com a divindade, ao invés de um interesse descentrado nos outros seres humanos. Na mentalidade religiosa de Greene, os conflitos individuais de consciência, por mais comezinhos que sejam, são vistos como se tivessem importância cósmica e Orwell considera que esta é uma perspectiva inaceitável.

Orwell classifica tais devaneios ensimesmados usando uma palavra que é recorrente nos seus ensaios: humbug (treta). E detectar e denunciar a treta é uma das tarefas centrais dos ensaios e da ficção de Orwell, o que lhe confere uma estranha actualidade — pois parece haver cada vez mais treta. Recentemente, fez sucesso o ensaio de um importante filósofo norte-americano no qual se analisa a noção de bullshit, que corresponde ao que Orwell chamava treta (Harry Frankfurt, Da Treta, Livros de Areia Editores, 2006, originalmente intitulado On Bullshit). A treta é muitíssimo mais devastadora do que a simples mentira. Nos casos mais óbvios de mentira, quem mente sabe que não está a dizer a verdade e a mentira é tanto menos eficiente por causa disso.

Dada a complexidade do mundo actual, é muito difícil saber se um político está a mentir ou não quando invoca dados de espionagem para justificar determinado curso de acção, como aconteceu no caso dos EUA relativamente à alegada posse de armas de destruição maciça por parte do Iraque. Mas é razoavelmente menos difícil saber se esse político está a ser sincero. A sinceridade detecta-se pela força da convicção, pela aparência de boas intenções; e também no olhar, no modo como se fala, na linguagem corporal. Por isso, os políticos desenvolveram uma capacidade singular para acreditar sinceramente no que precisam de acreditar para conseguir os seus fins políticos. Isto torna muito mais difícil ao cidadão comum detectar o engodo pois, num certo sentido, já não é realmente uma mentira: é treta.

Imposturas Intelectuais

Outra das tretas do nosso tempo é a existência de intelectuais que se dizem libertários mas que escrevem de modo manipulador, antidemocrático e sem mostrar qualquer interesse pela verdade, como Sokal e Bricmont defenderam (Imposturas Intelectuais, Gradiva, 1999). A própria noção de que há uma verdade independente do que as pessoas pensam dela é tipicamente posta em causa por este tipo de pensadores, desconhecendo que esta foi a postura dos regimes totalitaristas, como Orwell viu claramente no pequeno ensaio "Verdade Histórica", a publicar brevemente pela Antígona:

"O que há de realmente assustador no totalitarismo não é o cometer de "atrocidades", mas o ataque ao conceito de verdade objectiva, ao afirmar que controla o passado como controla o futuro."

Esta cegueira dos intelectuais que fazem as modas francesas e norte-americanas é parcialmente uma consequência do tipo de ensimesmamento que Orwell denuncia em Greene. São autores mais interessados na sua autopromoção do que na realidade que os rodeia. Mas é também uma consequência — e uma causa — de um estilo literário obscuro, manipulador e que faz a linguagem desses autores pensar sozinha por eles. Esse estilo é cuidadosamente analisado por Orwell num dos seus mais bem conseguidos ensaios, a publicar pela Antígona: "Política e a Língua Inglesa".

Nesse ensaio, Orwell defende que ao usar uma linguagem obscura, retorcida e barroca os seus autores não estão genuinamente a pensar, mas apenas a pôr à frente umas das outras expressões que pensam por eles. Este fenómeno é talvez mais comum hoje do que no seu tempo. Fala-se hoje da "construção social da realidade" e de "paradigmas", mas poucas pessoas sabem realmente o que querem dizer com tais expressões; usam-nas apenas para se dar ares de sofisticação intelectual ao mesmo tempo que evitam o incómodo de pensar no que estão a dizer.

Clear and Simple as the Truth

Orwell cultiva de forma magistral o estilo clássico, tanto na descrição de acontecimentos a que assistiu (veja-se "Um Enforcamento", incluído na selecção da Antígona), como na apresentação e defesa das suas ideias. O estilo clássico tem várias características que o distinguem de outros estilos, mas uma delas é particularmente relevante. Trata-se do pressuposto da igualdade epistémica, apresentado por Francis-Noël Thomas e Mark Turner no livro Clear and Simple as the Truth: Writing Classic Prose (Princeton University Press, 1997).

O pressuposto da igualdade epistémica que caracteriza o estilo clássico magistralmente cultivado por Orwell é a ideia de que o leitor está ao mesmo nível epistémico do autor, bastando por isso que lhe seja transmitida a informação relevante da maneira mais directa possível para que veja o mesmo que vê o autor. O modelo do estilo clássico é o descritivo, em que alguém que olha por uma janela, por exemplo, descreve cuidadosamente o que está a ver a alguém que não está à janela — mas que pode assim compreender exactamente o que a primeira está a ver, sem haver lugar a mistérios hermenêuticos. Apesar deste modelo, o estilo clássico aplica-se igualmente à apresentação e defesa de ideias. O resultado é o tipo de prosa ática cultivada por Orwell, cuja simplicidade superficial esconde um imenso trabalho de bastidores — um pouco como a mais simples sonata para piano exige imensa preparação prévia, tanto do compositor como do intérprete.

Por oposição ao estilo clássico, Thomas e Turner dão como exemplo o estilo de autores como Michel Foucault, e facilmente detectável nos impostores analisados por Sokal e Bricmont. Neste caso, temos um pressuposto oculto que trabalha continuamente nas entrelinhas do texto — o pressuposto de que só depois de muito esforço poderá o leitor compreender o que o seu autor, que é epistemicamente superior, quer dizer. Trata-se de um estilo que está antes de mais preocupado em evidenciar a superioridade epistémica do seu próprio autor. O texto incide apenas tangencialmente sobre a realidade pública, usando-a na verdade como instrumento de engrandecimento do autor; o que interessa não é a realidade pública, mas o olhar do autor sobre essa realidade. E não interessa se esse olhar é razoável, iluminante ou defensável. Tudo o que interessa é que seja sonante e luxuoso, difícil e deslumbrante, para exibir assim a superioridade epistémica do autor. A realidade, para a qual Orwell está sempre a chamar a atenção, é tão desprezível para tais autores como para Graham Greene: o Eu e a subjectividade sobrepõem-se a tudo.

Orwell mostra que este tipo de estilo literário está ao serviço da manipulação política e psicológica, do controlo de mentalidades e do totalitarismo. Uma das tretas do nosso tempo é a proliferação de intelectuais que se dizem libertários mas que de facto são totalitaristas sem estado.

Desidério Murcho
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte