The Trial and Death of Socrates
21 de Fevereiro de 2004 ⋅ História da filosofia

Ouvir Platão

Desidério Murcho
The Trial and Death of Socrates, de Platão
Londres: Naxos, 2001, £16,99
Comprar

Fale-se com qualquer pessoa culta com deficiências visuais, não necessariamente cega, e fica-se abismado com as dificuldades que encontra no nosso país, onde ninguém aposta nos audiolivros. Pode-se argumentar que o mercado português é pequeno, ao contrário do que acontece em países como o Reino Unido, onde há audiolivros em todas as livrarias. Mas os audiolivros não se dirigem apenas a pessoas com deficiências visuais. Não é preferível ouvir um bom livro enquanto se está no automóvel a aturar mais um dos muitos congestionamentos? Ou enquanto se faz uma viagem longa? Ou quando se vai para a cama? Ou só pelo prazer de uma experiência verdadeiramente única? Claro que sim; é o que tanta gente faz noutros países.

Um bom ponto para entrar na magia de ouvir um livro é precisamente em contacto com uma cultura que vivia intimamente ligada à audição de narrativas e ideias: a cultura grega. É hoje difícil imaginar, mas para os gregos a audição de um livro era uma experiência mais comum do que a leitura, pois antes de Guttenberg os livros tinham de ser laboriosamente copiados à mão.

Esta caixa de quatro CD reúne duas obras de Platão: a Apologia de Sócrates e o Fédon. Na primeira, Sócrates discursa perante o tribunal em sua própria defesa, e contra a acusação que lhe moveram e que o levará à morte. No Fédon, Sócrates aguarda o momento de beber o veneno que o irá matar por ordem do tribunal, e aproveita as últimas horas para discutir filosofia com os seus amigos. O tema, apropriado à situação, é a imortalidade da alma.

É sobretudo no Fédon que a natureza revolucionária da filosofia se torna manifesta. O que está em causa é algo que foi amordaçado durante séculos, para reaparecer com o Renascimento: a ideia de investigação livre de ideias, a atitude crítica, a procura de objecções e contra-argumentos, o refinamento de posições e a atenção ao pormenor importante. Não vemos Sócrates a usar a sua autoridade para silenciar os contra-argumentos dos seus amigos, mas antes a responder-lhes; não vemos Sócrates a fazer declarações de aspecto profundo, mas a defender claramente e com simplicidade as suas ideias, com base em argumentos que oferece à avaliação pública. Assistir a esta magnífica encenação da Naxos, interpretada por Bruce Alexander, David Timson, Jamie Glover, Gordon Griffin e Neville Jason, é emocionante.

Sócrates procura mostrar que há uma alma imortal e que a vida depois da morte será mais compensadora do que a vida terrena. É evidente que a primeira dificuldade que esta ideia enfrenta é a seguinte: se isso é verdade, por que não defender então o suicídio como uma via para essa tal vida depois da morte? A primeira resposta de Sócrates não é muito convincente, baseando-se unicamente na autoridade religiosa: a religião grega proíbe o suicídio. Os seus amigos, contudo, desmontam prontamente este argumento: o mero preceito religioso nada é perante a análise crítica da filosofia. E este é o espírito filosófico por excelência, atraiçoado sempre que se foge ao pensamento articulado e fundamentado na argumentação sólida. Esta encenação faz jus a um último aspecto importante: ao contrário do que se pensa, nada há de desumano nesta atitude filosófica; pelo contrário, é a mais humana das actividades. E quando se ouve os diálogos vivos de Platão compreende-se que é a alternativa a esta atitude que é verdadeiramente desumana, pois representa uma violência exercida sobre a natural capacidade humana para inquirir.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Recensão publicada no jornal Público (19 de Julho de 2003)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte