1 de Novembro de 2016   Dicionário Escolar de Filosofia

V

vagueza

Uma afirmação é vaga quando dá origem a casos de fronteira indecidíveis. Por exemplo, a frase “Sócrates era calvo” é vaga porque apesar de ser obviamente verdadeira caso Sócrates tenha zero cabelos, e falsa caso tenha muitos milhares, há casos intermédios em que não se sabe se a frase é verdadeira ou falsa. Toda a linguagem é vaga, mas devemos tentar ser tão pouco vagos e tão precisos quanto possível, particularmente em filosofia. Por exemplo, no dia-a-dia diz-se que o Fédon, de Platão, “tem a ver com” a imortalidade da alma, e que “remete para" problemas metafísicos. Mas em filosofia quer-se maior precisão: uma formulação e discussão clara dos problemas, teorias e argumentos discutidos e apresentados no Fédon. (Desidério Murcho)

validade formal/material

A validade formal e material é uma forma popular e confusa de falar de contradição e de verdade. Dizer que uma afirmação como “Os círculos são quadrados" não tem “validade formal” é apenas uma maneira confusa de dizer que essa afirmação é uma contradição (que não resulta, ironicamente, da sua forma lógica). E dizer que uma afirmação como “A neve é branca" tem “validade material” é apenas dizer que a afirmação é verdadeira. Em nenhum dos casos se trata realmente de validade/invalidade. Ver também a priori / a posteriori. (Desidério Murcho)

validade/invalidade

A correcção ou incorrecção de um argumento. Há dois tipos de validade: a dedutiva e a não dedutiva. Um argumento dedutivo é válido quando é impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa; se isso for possível, o argumento é inválido. Um argumento não dedutivo é válido quando é improvável, mas não impossível, que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa; se for provável, é inválido. Não deve confundir-se este sentido lógico dos termos “validade" e “invalidade” com o seu sentido popular, que significa “com valor" e “sem valor”. Assim, popularmente diz-se que uma proposição é válida ou inválida, querendo dizer que tem valor ou que não tem valor (e, muitas vezes, que é verdadeira ou falsa). Mas não se pode dizer que uma proposição é válida ou inválida no sentido lógico do termo. No sentido lógico do termo só os argumentos podem ser válidos ou inválidos; as proposições são verdadeiras ou falsas, interessantes ou entediantes, e muitas outras coisas, mas nunca podem ter a propriedade da validade argumentativa. Ver verdade. (Desidério Murcho)

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valor

Quando reconhecemos um valor nas coisas (por exemplo, considerando-as belas, justas ou sagradas), inclinamo-nos a ter uma atitude favorável para com elas que se reflecte nos nossos actos e escolhas (ver acção). Quem tem uma postura objectivista em relação aos valores julga que as coisas são valiosas independentemente de as valorizarmos, mas para um subjectivista as coisas são valiosas simplesmente porque as valorizamos. Atribuir valor instrumental a uma coisa é considerá-la valiosa apenas em virtude de esta ser um meio para alcançar aquilo que julgamos ter valor em si — isto é, aquilo que julgamos ter valor intrínseco. Ver hedonismo, objectivismo/subjectivismo, juízo de facto/juízo de valor. (Pedro Galvão)

valor de verdade

Ver verdade, valor de.

variável

Em lógica, um símbolo usado para representar um objecto ou uma proposição. No cálculo proposicional as letras P, Q, etc. são normalmente usadas como variáveis proposicionais para representar qualquer proposição. Por exemplo, a expressão “Se P, então Q" permite representar a afirmação “Se está a chover, não vou à praia”, representando P “Está a chover" e Q “Não vou à praia”. No cálculo de predicados as letras x, y, etc., são normalmente usadas como variáveis predicativas para representar qualquer objecto de um conjunto especificado de objectos. Por exemplo, dado o conjunto dos seres humanos, o símbolo x pode ser usado em “x é mortal”, para representar qualquer um de nós. Ver lógica e símbolos lógicos. (Célia Teixeira)

verdade lógica

Ver tautologia.

verdade, condições de

Ver tabela de verdade.

verdade, tabela de

Ver tabela de verdade.

verdade, valor de

O valor de verdade de uma proposição é o facto de essa proposição ser verdadeira ou falsa. Por exemplo, o valor de verdade de “A neve é branca” é “verdadeiro”, e o valor de verdade de “A neve é azul” é “falso”. Alguns filósofos defendem que há outros valores de verdade; outros que nem todas as proposições têm valor de verdade. Do ponto de vista estritamente lógico pode-se ter os valores de verdade que se quiser; a dificuldade é saber se estamos apenas a inventar ficções ou a falar de valores de verdade reais. (Desidério Murcho)

verdade/falsidade

A verdade e a falsidade são propriedades de afirmações ou de proposições, e não de argumentos, conceitos ou coisas extra-linguísticas. Os argumentos não podem ser verdadeiros nem falsos, mas são válidos ou inválidos (ver validade, invalidade); por exemplo: o modus tollens não pode ser verdadeiro nem falso. Os conceitos não podem ser verdadeiros nem falsos, mas têm extensão ou não; por exemplo, o conceito homem imortal não tem extensão porque não há homens imortais. E as coisas extra-linguísticas não podem ser verdadeiras nem falsas (excepto metaforicamente), mas são reais ou não; por exemplo: uma laranja ou uma obra de arte não podem ser verdadeiras nem falsas. Uma afirmação como “A neve é branca” é verdadeira se, e só se, a neve é branca; e é falsa se a neve não for branca. Esta é a noção central de verdade e falsidade, que por vezes se exprime assim: Uma afirmação “P” é verdadeira se, e só se, P. Há várias teorias que tentam desenvolver esta noção central de verdade, nomeadamente teorias da verdade como coerência, correspondência, descitação, etc. (Desidério Murcho)

verificabilidade

Diz-se de uma afirmação que é verificável. Por exemplo, a frase “Há relva verde” é verificável, pois podemos observar a relva para ver se a frase é ou não verdadeira. Já a frase “As ideias incolores verdes dormem furiosamente juntas" não é verificável, pois nada há que possamos observar de modo a podermos ver se é ou não verdadeira. Este princípio só se aplica a frases sintéticas (ver analítico/sintético). Os positivistas lógicos (ver positivismo lógico) defendiam que as frases que não são verificáveis nem analíticas não têm sentido. Ver verificacionismo. (Célia Teixeira)

verificacionismo

Tese central do positivismo lógico segundo a qual o significado de uma frase é o seu método de verificação. Esta tese foi usada pelos positivistas nos seus ataques à metafísica. Para eles, as frases de natureza metafísica não eram verificáveis, e como tal a metafísica devia ser abandonada. Por “verificação" entende-se em geral “verificação empírica”, de modo que este princípio apenas se aplica a frases sintéticas (ver analítico/sintético). Dado que para os positivistas as frases analíticas não tinham conteúdo factual, isto é, não eram acerca do mundo, esta tese não se lhes aplicava. Quine foi um dos maiores opositores do verificacionismo, defendendo que as frases não podem ser verificadas isoladamente; têm de o ser em conjunto (ver holismo). Ver Carnap, Wittgenstein. (Célia Teixeira)

verificável

Ver verificabilidade.

vida, sentido da

Ver sentido da vida.

virtude

Ver ética das virtudes.

vontade

O poder de desejar um certo resultado. Muitos filósofos distinguiram a vontade do simples apetite ou inclinação, reservando para aquela um estatuto mais elevado por depender da capacidade de antecipar resultados, que por sua vez depende do raciocínio. Jean-Jacques Rousseau (1712-78), no seu livro O Contrato Social (1762, trad. 1981, Europa-América) defendeu que a vontade geral é a vontade da sociedade civil concretizada nas instituições políticas. Para Kant, a vontade boa é aquela que, lutando contra os desejos e inclinações egoístas, determina a acção de acordo com o imperativo moral, e a vontade santa é aquela que o faria espontaneamente e sem tal luta. Para Nietzsche, a vontade de poder é a característica fundamental da natureza humana. Ver razão, desejo e intenção. (António Paulo Costa)

vontade boa

Designa, em Kant, a vontade que respeita a lei moral por si mesma, considerando imperativo cumprir o dever incondicionalmente. Qualquer outro sentimento, qualquer cálculo interessado ou outras inclinações sensíveis retiram todo o valor moral às decisões e acções da vontade, tornando-a dependente de algo exterior, ou seja, heterónoma. Obedecendo unicamente às exigências da razão (a lei moral é uma lei puramente racional) a vontade boa é a vontade autónoma. (Luís Rodrigues)