26 de Fevereiro Março de 2004 ⋅ Livros

Uma lenda

Leônidas Hegenberg
Variações 2, de Miguel Reale
Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2003, 91 p.
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Apresentar Miguel Reale ao público brasileiro é quase pecado. Com efeito, Reale já se transformou em lenda, tais e tantos títulos conquistou e tais e tantos trabalhos escreveu. Mantendo, porém, velhos hábitos de preparação de resenhas e pensando nos leitores "de fora" e em leitores jovens que não chegaram a conhecê-lo mais de perto, aqui vão alguns dados a seu respeito.

Formou-se em Direito (1934), pela Universidade de São Paulo (USP). Em 1941 conquistou a cátedra de Filosofia do Direito da USP. Em sua tese, "Os fundamentos do Direito", lançou as bases de uma "teoria tridimensional do Direito" — que lhe deu mundial renome. Além de professor de especiais méritos (reconhecidos pelos alunos que o ouviram ao longo de sua brilhante carreira), Reale foi duas vezes Secretário da Justiça do Estado de São Paulo e duas vezes Reitor da USP. Importante ressaltar que o Instituto Brasileiro de Filosofia deve sua vida a Reale. A Revista Brasileira de Filosofia, órgão oficial do Instituto, é a primeira revista filosófica da América Latina, um periódico de publicação regular (quatro fascículos por ano) que atingiu, há pouco, o n. 210 — uma verdadeira glória, pensando em termos de tempo de vida da maioria das revistas culturais.

Não custa observar que Reale escreveu mais de 60 livros, bem como grande quantidade de monografias e estudos que abrangem muitos ramos do Direito. Escreveu e continua escrevendo "ensaios de atualidade", divulgados pelo jornal O Estado de São Paulo. Como "homem de letras", não deixou de invadir terrenos literários, publicando livros de poesias e de memórias. Este livro intitulado Variações 2 reúne, justamente, 19 ensaios recentes, publicados em O Estado. Reale sublinha que os ensaios não contêm inovações em seus pensamentos (filosóficos, sociológicos, políticos ou artísticos). Destinam-se, a rigor, a trazer suas idéias para os planos coloquiais. Não têm caráter de ensaios acadêmicos ("que planam alto no mundo dos conceitos"), mas se correlacionam ao que Husserl chama Lebenswelt — ou seja, o universo da vida corriqueira, onde a categorização rigorosa deixa de viger. Seja comparando ética e moral, seja discorrendo a respeito das duas "grandes" orações cristãs (o Pai Nosso e a Ave Maria); seja discorrendo a respeito da crise que hoje abala a família, seja comentando os riscos da revolução tecnológica; seja manifestando-se contra as greves (que interrompem transportes públicos, serviços médicos e hospitalares, ou atendimento de necessidades básicas do povo), seja ressaltando que o culturalismo é uma das mais originais correntes do pensamento brasileiro — Reale é sempre uma leitura agradável e proveitosa.

Variações 2 contém, ainda, várias informações a respeito da Academia Brasileira de Letras (ABL). Tem a lista dos nomes dos acadêmicos. Tem uma lista das obras de Reale. Tem a lista dos 69 livros publicados pela ABL (de 1985 a 2003). Tem a lista dos treze livros que compõem a coleção "Austregésilo de Athayde" — de que Variações 2 é, precisamente, o mais recente. E tem, enfim, uma "bibliografia dos patronos", com cinco títulos, formando a "Série da Coleção Afrânio Peixoto", a cargo de Israel Souza Lima.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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