O Significado das Coisas, de A. C. Grayling
9 de Outubro de 2009 ⋅ Opinião

Velhice

A. C. Grayling
Birkbeck College London

Envelhecer é um mau hábito que um homem ocupado não tem tempo para adquirir.

André Maurois

Os romanos da antiguidade clássica valorizavam a velhice, honrando-a com o princípio de seniores priores, no qual o respeito devido à experiência lhe atribuía um lugar na fila da frente dos Conselhos de Estado. Mesmo a ser verdade, como La Rochefoucauld observou, que "os idosos gostem de dar bons conselhos para se consolarem de já não serem capazes de dar maus exemplos", é, ainda assim, útil à sociedade ter à sua disposição, sempre que necessário, os frutos da experiência. Os chineses levam isto ao extremo: na sua gerontocracia, ninguém com menos de setenta e cinco anos é considerado adequado ao exercício do poder. Pensam que o tempo confere perspectiva — conforme exemplificado pelo célebre comentário de Zhou En Lai acerca da Revolução Francesa: quando lhe perguntaram se pensava que tinha sido uma coisa boa, respondeu (após um momento de reflexão): "É demasiado cedo para dizer".

Nos tempos recentes, a moda tem sido os jovens assumirem um papel primordial, como se fossem a única forma importante de ser humano. A principal razão para tal é os publicitários saberem que os jovens têm convicções que estão dispostos a apoiar com dinheiro — entre estas, a importante convicção de que todos os outros se divertem e, se eles pretendem também divertir-se, têm de ir para um sítio enfumarado e barulhento e vestir as mesmas roupas que os outros. Por conseguinte, seguem em bandos para as discotecas ou para Ibiza, em busca da estupefacção obtida através de uma combinação de decibéis, bebida e drogas, troçando dos mais velhos que evitam tais locais. Não vêem que "ninguém ama a vida como um velho", como observou Sófocles, e que os anos acumulados conferem uma sabedoria do tipo da do velho boi da fábula (a fábula reza assim: um boi jovem vê que a cancela de acesso à pastagem vizinha, cheia de vacas, está aberta. Deliciado, diz ao boi velho: "Olha! A cancela está aberta! Vamos até lá depressa, cobrir umas quantas". Ao que o boi velho responde: "Não, vamos até lá devagar, cobri-las todas".)

Já agora, a chamada "meia-idade" não existe. Trata-se do período de vida em que, supostamente, a largueza de espírito e a estreiteza de cintura trocam de lugar, ou em que, como notou Franklin Adams, se é demasiado novo para jogar críquete, e demasiado velho para descer à rede, no ténis. Há pessoas que nascem velhas, e outras que morrem jovens, aos noventa anos: é exclusivamente uma questão de atitude; sendo a atitude, como os estóicos notaram já há muito tempo, algo que depende de nós. O que sucede, à medida que os anos passam, é que a sandice de algum modo diminui e o saldo bancário aumenta: tendo ambos os aspectos em conta, envelhecer é uma actividade desejável.

Há muita propaganda falsa acerca da velhice. "A velhice tem boa cabeça e más pernas", disse Aretino, confundindo a capacidade de correr para o autocarro com boa saúde. A maioria dos adágios e provérbios relativos à velhice, considerando-a uma mistura de membros trémulos e má memória, vem do tempo em que as pessoas eram velhas aos quarenta anos. Agora, uma pessoa tem pelo menos de ter o dobro disso para ter a honra de ser devidamente velha. E é mesmo uma honra: "A vida é um país que os velhos viram, e onde os velhos viveram. Aqueles que têm ainda de viajar através dele devem aprender o caminho com os velhos", afirmou Joseph Joubert.

A. C. Grayling

Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Retirado do livro O Significado das Coisas, de A. C. Grayling (Gradiva, 2003)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte