Por Que Escrevo e Outros Ensaios
19 de Outubro de 2009 ⋅ Opinião

Verdade histórica

George Orwell
Tradução de Desidério Murcho

Quando Sir Walter Raleigh estava preso na Torre de Londres, ocupou o tempo escrevendo uma história universal. Tinha acabado o primeiro volume e trabalhava no segundo quando houve uma rixa entre alguns trabalhadores sob a janela da sua cela, e um dos homens foi morto. Apesar de inquéritos diligentes, e apesar de ter efectivamente visto a coisa acontecer, Sir Walter nunca conseguiu descobrir o objecto da rixa; altura em que, ou pelo menos é o que se diz — e se a história não é verdadeira certamente que devia sê-lo —, queimou o que tinha escrito e abandonou o projecto.

Esta história veio-me à memória não sei quantas vezes durante os últimos dez anos, mas sempre com a reflexão de que Raleigh estava provavelmente enganado. Contando com todas as dificuldades da investigação nessa altura, e com a dificuldade especial de investigar na prisão, poderia provavelmente ter produzido uma história universal que tivesse alguma semelhança com o curso real de acontecimentos. Até bastante recentemente, os grandes acontecimentos registados nos livros de história provavelmente aconteceram. É provavelmente verdade que a batalha de Hastings foi travada em 1066, que Colombo descobriu a América, que Henrique VIII teve seis mulheres, e assim sucessivamente. Um certo grau de veridicidade era possível desde que se admitisse que um facto pode ser verdadeiro ainda que não gostemos dele. Mesmo tão recentemente quanto na guerra anterior, a Enciclopédia Britânica, por exemplo, podia compilar os seus artigos sobre as várias campanhas parcialmente de fontes alemãs. Alguns dos factos — os números de vítimas, por exemplo — eram encarados como neutros e fundamentalmente aceites por toda a gente. Nada disso seria agora possível. Uma versão nazi e uma não nazi da guerra actual não teriam qualquer semelhança entre si, e a questão de saber qual delas acabará por entrar nos livros de história não será decidida por métodos indiciários mas no campo de batalha.

Durante a guerra civil espanhola dei comigo fortemente convencido de que uma história verdadeira desta guerra nunca seria ou poderia ser escrita. Não existiam simplesmente números precisos, relatos objectivos do que estava a acontecer. E se eu sentia isso em 1937, quando o governo espanhol ainda existia, e as mentiras que as diversas facções republicanas contavam umas das outras e sobre o inimigo eram relativamente pequenas, em que pé está agora a situação? Mesmo que Franco seja derrubado, que tipo de registos terá o futuro historiador para se basear? E se Franco ou qualquer pessoa parecida com ele permanecer no poder, a história da guerra consistirá em grande parte em “factos” que milhões de pessoas que agora estão vivas sabem serem mentiras. Um destes “factos”, por exemplo, é que havia um exército russo considerável em Espanha. Há os mais abundantes indícios de que não houve tal exército. Contudo, Franco continua no poder, e se o fascismo em geral sobreviver, esse exército russo entrará nos livros de história e os estudantes do futuro acreditarão nisso. De modo que, em termos práticos, a mentira ter-se-á tornado verdade.

Este tipo de coisa está sempre a acontecer. Dos milhões de casos que devem estar disponíveis, vou escolher um que até é verificável. No decurso de parte de 1941 e 1942, quando a Luftwaffe estava ocupada na Rússia, a rádio alemã regalou a sua audiência doméstica com histórias de ataques aéreos devastadores contra Londres. Ora, nós sabemos que tais ataques não aconteceram. Mas que proveito nos faria o nosso conhecimento se os alemães conquistassem a Grã-Bretanha? Para o que interessa a um historiador do futuro, esses ataques aconteceram ou não? A resposta é: se Hitler sobreviver, aconteceram, se ele cair, não aconteceram. O mesmo se passa relativamente a inúmeros outros acontecimentos dos últimos dez ou vinte anos. Serão os Protocolos dos Anciãos do Sião um documento genuíno? Será que Trotsky conspirou com os nazis? Quantos aviões alemães foram abatidos na Batalha da Grã-Bretanha? A Europa acolhe bem a Nova Ordem? Em nenhum destes casos se pode obter uma resposta que seja universalmente aceitável por ser verdadeira; em cada caso obtém-se várias respostas totalmente incompatíveis, adoptando-se finalmente uma delas em resultado de uma luta física. A história é escrita pelos vencedores.

Em última análise, o nosso único direito à vitória é que se ganharmos a guerra, diremos menos mentiras sobre ela do que os nossos adversários. O que há de realmente assustador no totalitarismo não é o cometer de “atrocidades”, mas o ataque ao conceito de verdade objectiva, ao afirmar que controla o passado como controla o futuro. Apesar de toda a mentira e hipocrisia que a guerra encoraja, não penso realmente que se possa dizer que esse hábito mental está em ascensão na Grã-Bretanha. Tendo em consideração a situação, diria que a imprensa é ligeiramente mais livre do que antes da guerra. Sei por experiência que podemos hoje publicar coisas que não poderíamos publicar há dez anos. Os que resistem à guerra têm sido provavelmente menos maltratados nesta guerra do que na anterior, e a expressão de opiniões impopulares em público é sem dúvida mais segura. Há alguma esperança, portanto, de que o hábito mental liberal, que concebe a verdade como algo fora de nós, algo a descobrir, e não como algo que podemos inventar à medida que precisamos, irá sobreviver. Mas mesmo assim não invejo o trabalho do historiador do futuro. Não é um estranho comentário sobre o nosso tempo que nem mesmo as vítimas da guerra actual possam ser estimadas com um erro inferior a vários milhões?

George Orwell

Publicado originalmente em Tribune (Fevereiro de 1944), sem título. Tradução portuguesa publicada em Por Que Escrevo e Outros Ensaios (Lisboa: Antígona, 2008)
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