A Companion to Metaphysics
5 de Julho de 2010 ⋅ Metafísica

Veridador

Trenton Merricks
Universidade da Virgínia
Tradução de Vítor Guerreiro

Como Aristóteles chama a atenção nas Categorias (14b, 15-22), uma coisa pode, só por existir, fazer uma afirmação ser verdadeira. Por exemplo, que Fiel existe é verdadeira; e Fiel, o cão, só por existir, faz isto ser verdade. Muitos filósofos defendem que toda a afirmação verdadeira é relevantemente semelhante a que Fiel existe. Ou seja, William P. Alston (1996: 52), David Armstrong (1997; 2004), Kit Fine (1982: 69), E. J. Lowe (1998: 245), C. B. Martin (ver Armstrong 1989), e outros afirmaram que, para cada afirmação verdadeira há algo que, simplesmente por existir, faz essa afirmação ser verdadeira.

Chamemos veridação (ou teoria veridativa ou teoria da veridatividade) à tese de que, para cada afirmação verdadeira, há algo que — só por existir — faz essa afirmação ser verdadeira. Os defensores da teoria veridativa não propõem tipicamente uma abordagem completa do que seja “fazer” uma afirmação ser verdadeira. Mas na sua maioria concordam que a necessitação tem de, no mínimo, fazer parte de tal abordagem (Armstrong 2004: 6-7; Fine 1982: 69; Molnar 2000: 84; Fox 1987: 189; Smith 1999: 276). Suponhamos, portanto, que x faz p ser verdadeira se, e só se, necessariamente, se x existe, então p é verdadeira. E se x faz efectivamente p ser verdadeira, então x é o “veridador” de p.

Porquê sancionar a veridação? Uma resposta bastante comum é que a veridação é idêntica à teoria da verdade como correspondência (Armstrong 1997: 128-131; 2004: 16-17; Bigelow 1988: 122; Molnar 2000: 85). Creio que esta resposta está errada (Merricks 2007: 14-16). Além do mais, qualquer versão da teoria da correspondência que pareça equivalente à veridação, mesmo à primeira vista, não será menos controversa do que a própria veridação. Passemos, pois, a outra razão para sancionar a veridação, uma razão que começa com a ideia de que uma teoria filosófica se afasta do caminho correcto quando sanciona verdades “sem fundamento”.

Consideremos, por exemplo, a abordagem de Gilbert Ryle às disposições. Segundo Ryle (1949: 43), a fragilidade do vidro G nada mais é do que a verdade da seguinte condicional disposicional: Se G fosse atingido, estilhaçar-se-ia. Note-se que, segundo Ryle, nada faz essa condicional ser verdadeira; nada a fundamenta; simplesmente é verdadeira. Muitos pensam que a veridação articula satisfatoriamente um problema na abordagem de Ryle: essa abordagem está comprometida a condicionais conjuntivas verdadeiras que não têm veridadores, mas toda a verdade tem de ter um veridador (Armstrong 2004: 2-3; Martin 1994).

Mais geralmente, a veridação articula o que muitos consideram objectável acerca de várias teorias filosóficas. Na realidade, Theodore Sider vai ao ponto de afirmar que “apanhar batoteiros” — isto é, destruir teorias comprometidas com verdades sem fundamento — é o propósito da Veridação (2001: 40). Além da teoria de Ryle sobre disposições, a veridação propôs-se “apanhar” o presentismo na filosofia do tempo (Armstrong 2004, cap. 11; Sider 2001: 35-42; Tooley 1997: 234-240), o molinismo na filosofia da religião (Adams 1977) e as teorias não redutivas da modalidade (Sider 2001: 40-41), entre outras.

Por um lado, a capacidade da veridação para articular o que a vários filósofos parece estar errado nessas teorias dá-lhes uma razão para sancionar a veridação. Por outro lado, se a veridação exclui uma teoria filosófica, os defensores dessa teoria têm, portanto, uma razão para rejeitar a veridação.

Tão-pouco é preciso sancionar uma teoria controversa, como a abordagem de Ryle das disposições, para ter dúvidas acerca da veridação. Basta sancionar predicações contingentes. Por exemplo, que Fiel é castanho é verdadeira. Porque Fiel é contingentemente castanho, Fiel não necessita, pela sua mera existência, aquela verdade. Pelo que Fiel — mesmo sendo castanho — não pode ser o veridador dessa verdade. À primeira vista, parece que nada, pela sua mera existência, necessita aquela verdade; e se nada necessita aquela verdade, então tal verdade é um contra-exemplo à veridação.

Os defensores da teoria veridativa podem responder que há um estado de coisas (ou acontecimento ou facto russelliano) de Fiel exemplificar o ser castanho, que tem os seus constituintes essencialmente (Armstrong 1997: 116-119). Tal estado necessitaria, pela sua mera existência, que Fiel é castanho, e assim podia ser o veridador dessa verdade. Evidentemente, há quem tenha dúvidas acerca de estados de coisas, e acerca de todos os outros géneros de entidade que poderiam desempenhar aqui o papel de veridadores; devem, portanto, ter dúvidas acerca da veridação.

Considere-se também as existenciais negativas. Por exemplo, que os hobbits não existem é verdadeira. Além disso, não parece haver um x tal que x, pela sua mera existência, necessita a verdade de que os hobbits não existem. Assim, contrariamente à veridação, aquela verdade parece não ter um veridador. Evidentemente, os defensores da teoria veridativa podem postular um veridador (controverso). Por exemplo, podem afirmar que é o estado de coisas de o universo exemplificar o não conter quaisquer hobbits que faz ser verdade que os hobbits não existem. Mas duvido que haja realmente tal estado de coisas. Além disso, e contra a veridação, não parece que a verdade de que os hobbits não existem exija que haja um estado de coisas de o universo exemplificar uma propriedade especial. Ao invés, apenas parece exigir que não haja hobbits.

À luz disto, alguns poderiam reformular a veridação, fazendo-a afirmar que todas as verdades excepto as existenciais negativas têm veridadores (cf. Mulligan, Simons, e Smith 1984: 315; Smith 1999: 285). Há uma série de razões por que os defensores da teoria veridativa não deviam restringir deste modo a veridação (ver Merricks 2007, cap. 3). Aqui tomo nota de uma apenas. Assim, a única razão para restringir a veridação é que as existenciais negativas verdadeiras não parecem ter veridadores. Isto estabelece um precedente prejudicial, pelo menos se o propósito da veridação é apanhar batoteiros. Porquanto os alegados batoteiros podem afirmar de igual modo, quando defrontados com as suas próprias verdades aparentemente sem veridadores, que a veridação tem de ser restringida para isentar também essas verdades. A nossa versão final e suficientemente restringida da veridação reflectiria então os nossos vários compromissos filosóficos. Tal versão da veridação não seria, de modo algum, semelhante a um teste filosoficamente neutro que as teorias têm de passar, sob pena de fazerem batota.

Trenton Merricks

Referências

  • Adams, R.M.: “Middle Knowledge and the Problem of Evil,” American Philosophical Quarterly 14 (1977), 109-17.
  • Alston, W.P.: A Realist Conception of Truth (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1996).
  • Armstrong, D.M.: “C.B. Martin, Counterfactuals, Causality, and Conditionals,” in Cause, Mind, and Reality: Essays Honouring C.B. Martin, ed. John Heil (Dordrecht: Kluwer, 1989).
  • Armstrong, D.M.: Truth and Truthmakers (Cambridge: Cambridge University Press, 2004).
  • Armstrong, D.M.: A World of States of Affairs (Cambridge: Cambridge University Press, 1997).
  • Bigelow, J.: The Reality of Numbers: A Physicalist's Philosophy of Mathematics (Oxford: Clarendon Press, 1988).
  • Fine, K.: “First-order Modal Theories III: Facts,” Synthese 53 (1982), 43-122.
  • Fox, J.F.: “Truthmaker,” Australasian Journal of Philosophy 65 (1987), 188-207.
  • Lowe, E.J.: The Possibility of Metaphysics: Substance, Identity, and Time (Oxford: Clarendon Press, 1998).
  • Martin, C.B.: “Dispositions and Conditionals,” Philosophical Quarterly 44 (1994), 1-8.
  • Merricks, T.: Truth and Ontology (Oxford: Clarendon Press, 2007).
  • Molnar, G.: “Truthmakers for Negative Truths,” Australasian Journal of Philosophy 78 (2000), 72-86.
  • Mulligan, K., Simons, P., and Smith, B.: “Truth-makers,” Philosophy and Phenomenological Research 44 (1984), 287-321.
  • Ryle, G.: The Concept of Mind (Chicago: University of Chicago Press, 1949).
  • Sider, T.: Four-Dimensionalism: An Ontology of Persistence and Time (Oxford: Clarendon Press, 2001).
  • Smith, B.: “Truthmaker Realism,” Australasian Journal of Philosophy 77 (1999), 274-91.
  • Tooley, M.: Time, Tense, and Causation (Oxford: Clarendon Press, 1997).
Retirado de A Companion to Metaphysics, org. por Kim, Sosa e Rosenkranz (Oxford: Wiley-Blackwell, 2009)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte