A Vida Que Podemos Salvar
23 de Junho de 2011 ⋅ Filosofia Aberta

A vida que podemos salvar

Peter Singer
Tradução de Vítor Guerreiro
A Vida Que Podemos Salvar, de Peter Singer
Tradução de Vítor Guerreiro
Lisboa: Gradiva, 2011, 252 pp.
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Vendo o homem cair para a linha do metro, Wesley Autry não hesitou. Ao ver as luzes do comboio que se aproximava, Autry, um trabalhador da construção civil, saltou para a linha e empurrou o homem para uma vala de drenagem entre os carris, cobrindo-o com o seu próprio corpo. O comboio passou sobre eles, deixando um rasto de óleo no boné de Autry. Mais tarde convidado para o Discurso Sobre o Estado da Nação e tendo recebido do presidente um elogio pela sua coragem, Autry minimizou o valor das suas acções: “Não sinto que tenha feito algo de espectacular. Apenas vi alguém que precisava de ajuda. Fiz o que me pareceu correcto.”

E se lhe dissesse que também o leitor pode salvar uma vida, ou mesmo muitas vidas? Tem uma garrafa de água ou uma lata de refrigerante a seu lado sobre a mesa enquanto lê este livro? Se paga por uma bebida quando dispõe de água potável a sair da torneira, então tem dinheiro para gastar em coisas de que realmente não necessita. Em todo o mundo, mil milhões de pessoas lutam para viver cada dia com menos do que você pagou por essa bebida. Porque não podem pagar sequer os cuidados de saúde mais elementares às suas famílias, os seus filhos podem morrer devido a doenças simples e facilmente tratáveis como a diarreia. Você pode ajudar estas pessoas e ao fazê-lo não corre o risco de ser atingido por um comboio que se aproxima.

Há mais de trinta anos que penso e escrevo sobre o modo como devemos reagir à fome e à pobreza. Apresentei o argumento deste livro a milhares de estudantes nas minhas aulas universitárias, em palestras em todo o mundo, e a inúmeras outras pessoas através de jornais, revistas, programas televisivos. Consequentemente, tive de responder a uma ampla diversidade de desafios ponderados. Este livro representa o meu esforço para analisar o que aprendi acerca do que damos, ou não damos, e o que devemos fazer quanto a isso.

Vivemos num momento único. A proporção de pessoas incapazes de satisfazer as suas necessidades físicas mais básicas é menor hoje do que o foi em qualquer outro momento na história recente, e talvez em qualquer época desde que os seres humanos começaram a existir. Ao mesmo tempo, quando adoptamos uma perspectiva de longo prazo que vai além das flutuações do ciclo económico, a proporção de pessoas que têm muito mais do que necessitam é também inédita. Sobretudo, os ricos e os pobres estão hoje ligados como nunca estiveram antes. Imagens em movimento, em tempo real, de pessoas no limiar da sobrevivência são transmitidas para as nossas salas de estar. Não só sabemos muito acerca dos que são desesperadamente pobres como também temos muito mais para lhes dar em termos de melhores cuidados de saúde, sementes, técnicas agrícolas aperfeiçoadas, e novas tecnologias para gerar electricidade. Mais surpreendentemente, através das comunicações instantâneas e do acesso aberto a uma riqueza de informação que ultrapassa as maiores bibliotecas da era pré-Internet, podemos dar-lhes os meios de se juntarem à comunidade mundial — desde que consigamos ajudá-los a sair da pobreza o suficiente para agarrar a oportunidade.

O economista Jeffrey Sachs argumentou convincentemente que a pobreza extrema pode ser praticamente eliminada em meados deste século. Estamos já a fazer progressos. Segundo a UNICEF, o Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para as Crianças, em 1960 morreram devido à pobreza 20 milhões de crianças antes do quinto aniversário. Em 2007, a UNICEF anunciou que, pela primeira vez desde que se iniciou os registos, o número de mortes de crianças muito jovens caiu para baixo dos 10 milhões por ano. As campanhas de saúde pública contra a varíola, o sarampo, a malária, bem como o progresso económico em diversos países, contribuíram para o decréscimo da mortalidade infantil. A descida torna-se mesmo mais impressionante porque a população mundial aumentou para mais do dobro desde 1960. Todavia, não podemos cruzar os braços: 9.7 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem ainda anualmente; esta é uma tragédia imensa, para não dizer uma nódoa moral num mundo tão rico como o nosso. A combinação da incerteza económica com os preços inconstantes dos alimentos, que marcou o ano de 2008, podia ainda inverter a tendência decrescente das mortes relacionadas com a pobreza.

Podemos comparar a nossa situação com a tentativa de alcançar o cume de uma enorme montanha. Ao longo de todas as eras em que existiram seres humanos, temos vindo a escalar essa montanha através de uma nuvem densa. Não chegámos a descobrir a distância que falta, nem se é ou não possível chegar ao topo. Agora pelo menos saímos da névoa e conseguimos avistar um caminho para o cume através das restantes encostas íngremes. O pico está ainda a alguma distância à nossa frente. Há partes desse caminho que desafiarão ao máximo as nossas capacidades, mas podemos ver que a subida é possível.

Cada um de nós pode desempenhar o seu papel nesta importante escalada. Nos últimos anos tem havido bastante projecção mediática de alguns entre os muito ricos que aceitaram este desafio corajosa e publicamente. Warren Buffett comprometeu-se a dar 31 mil milhões de dólares, e Bill e Melinda Gates deram 29 mil milhões de dólares e planeiam dar mais. Ainda que estas quantias sejam imensas, veremos no final do livro que são apenas uma pequena fracção do que as pessoas nas nações ricas poderiam facilmente dar, sem reduzir significativamente a sua qualidade de vida. Não atingiremos o nosso objectivo a menos que muitos mais contribuam para o esforço.

Por essa razão este é o melhor momento para perguntar a si próprio: o que devia estar a fazer para ajudar?

Escrevo este livro com dois objectivos ligados mas significativamente diferentes. O primeiro é desafiar o leitor a pensar acerca das nossas obrigações perante as pessoas que não conseguem sair da pobreza extrema. A parte do livro que expõe este desafio apresentará deliberadamente um critério muito exigente — alguns diriam mesmo impossível — de comportamento ético. Farei a sugestão de que pode não ser possível pensar que vivemos uma vida moralmente boa se não dermos muito mais do que, na opinião maioritária, é considerado realista esperar que os seres humanos dêem. Isto pode parecer absurdo e no entanto o argumento que o sustenta é extraordinariamente simples. Remonta àquela garrafa de água, ao dinheiro que gastamos em coisas que não são realmente necessárias. Se é tão fácil ajudar as pessoas que estão realmente necessitadas sem que disso tenham culpa alguma e no entanto não o fazemos, não estaremos a agir erradamente? No mínimo, espero que este livro persuada o leitor de que há algo de profundamente enviesado nas nossas perspectivas mais populares acerca daquilo em que consiste viver uma vida boa.

O segundo objectivo deste livro é convencê-lo a fazer a escolha de dar mais do seu rendimento para ajudar os pobres. Agradar-lhe-á saber que reconheço inteiramente a necessidade de recuarmos perante os critérios exigentes de um argumento filosófico e perguntar o que fará realmente diferença no modo como agimos. Considerarei as razões, algumas relativamente convincentes, outras nem tanto, que apresentamos para não dar, bem como os factores psicológicos que dificultam a nossa acção. Reconheço os limites da natureza humana e contudo dou exemplos de pessoas que parecem ter encontrado um modo de alargar esses limites mais do que a maioria. Termino com um critério razoável que, para 95 por cento dos americanos, pode ser satisfeito doando não mais do que 5 por cento do seu rendimento.

Tenho de declarar abertamente a minha crença de que o leitor devia dar mais do que 5 por cento, e espero que acabe por escolher fazê-lo. Mas isto não é fácil ouvir e tão-pouco é fácil praticar. Reconheço a improbabilidade de as pessoas, na sua maioria, serem motivadas apenas por um argumento filosófico a fazer mudanças drásticas no modo como vivem, e, além disso, reconheço a impossibilidade de realizar essas mudanças drásticas da noite para o dia. O propósito último deste livro é reduzir a pobreza extrema e não fazer o leitor sentir-se culpado. Pelo que defenderei um critério relativamente ao qual estou seguro de que terá muito boas consequências. Isso significa sugerir um nível que o ajudará a começar e o colocará numa via para se desafiar a si próprio e trabalhar no sentido de fazer mais.

Por razões que explorarei ao longo do livro, muitos acham difícil considerar dar dinheiro a pessoas que nunca conhecemos e vivem em países distantes que nunca visitámos. Evidentemente, isto não se torna mais fácil em períodos de incerteza económica, quando muitas pessoas manifestam, com justificação, ansiedade perante o seu próprio futuro económico. Embora não procure diminuir de modo algum os desafios que acompanham os períodos economicamente difíceis, devemos lembrar-nos de que mesmo nos piores momentos, as nossas vidas são ainda infinitamente melhores que as das pessoas que vivem na pobreza extrema. Espero que o leitor pondere a situação geral e pense no que é preciso para viver eticamente num mundo em que 18 milhões de pessoas morrem desnecessariamente todos os anos. Trata-se de uma taxa de mortalidade anual superior à que se verificou durante a segunda grande guerra. Só nos últimos vinte anos equivale a mais mortes do que as causadas por todas as guerras civis e internacionais e repressão governamental em todo o século XX, o século de Hitler e de Estaline. Quanto estaríamos dispostos a dar para impedir esses horrores? Todavia, quão pouco fazemos para impedir que se pague o preço ainda mais pesado dos dias de hoje e toda a miséria que envolve? Creio que se ler este livro até ao fim e olhar honesta e cuidadosamente para a nossa situação, avaliando os factos e os argumentos éticos, concordará que temos obrigação de agir.

Peter Singer

Índice

Prefácio

O Argumento

  1. Salvar uma Criança
  2. Será Errado Não Ajudar?
  3. Objecções Comuns à Doação

Natureza Humana

  1. Por Que Não Damos Mais?
  2. Criar uma Cultura da Dádiva

Factos Acerca da Ajuda

  1. Quanto Custa Salvar uma Vida e Como Saber Que Organizações o Fazem Melhor?
  2. Melhorar a Ajuda

Um Novo Critério para a Doação

  1. O Seu Filho e os Filhos dos Outros
  2. Pedir Demasiado?
  3. Uma Abordagem Realista

Agradecimentos
Notas
Índice Remissivo

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