1 de Novembro de 2016   Dicionário Escolar de Filosofia

W

Weltanschauung

Termo alemão que significa “concepção geral do mundo”.

Wittgenstein, Ludwig (1889-1951)

Filósofo austríaco. Wittgenstein nasceu em Viena e estudou filosofia, em Cambridge, sob a orientação de Russell. Enquanto prisioneiro de guerra terminou, em 1919, o manuscrito do seu Tractatus Logico-Philosophicus, com o qual pensava ter resolvido todos os problemas filosóficos genuínos. Depois de um interregno, em que foi professor primário e jardineiro, regressou à Universidade de Cambridge em 1929. Durante a Segunda Guerra Mundial chegou a trabalhar como porteiro, mas em 1945 voltou a dar aulas em Cambridge. Desagradado com a vida académica, demitiu-se em 1947. Morreu de cancro em 1951. O contributo de Wittgenstein para a filosofia costuma, por facilidade, dividir-se em dois períodos, identificados pelas suas duas mais representativas obras (o Tractatus, publicado em 1921 e as Investigações Filosóficas, publicadas postumamente em 1953; ambos trad. 1995, Gulbenkian). Na primeira expõe a sua teoria pictórica da linguagem, segundo a qual as proposições expressas em frases com significado são como representações pictóricas dos factos a que se referem (na medida em que se deixam analisar em elementos básicos que correspondem aos indivíduos e às relações entre indivíduos que constituem esses factos). Para além de proposições com conteúdo factual determinado e tautologias, nada pode dar origem a frases com sentido (as afirmações éticas, estéticas e a esmagadora maioria das teses defendidas pelos filósofos ao longo da história, em particular metafísicas, são assim desqualificadas como destituídas de sentido — uma concepção adoptada pelos positivistas lógicos). Na segunda fase da sua vida filosófica, Wittgenstein adoptou um ponto de vista diferente acerca da linguagem e do tipo de deficiências que a podem afectar. Preocupou-se, em particular, com a relação entre a linguagem e as intenções com as quais a usamos em contextos particulares, praticando assim alguma acção (por exemplo, pedir, perguntar, ordenar, informar, etc.). A cada tipo de acção (e de intenção associada) corresponde um “jogo de linguagem" com regras próprias, cuja infracção leva à produção de sequências linguísticas sem sentido (de modo que aquilo que Wittgenstein considerava ser a esterilidade da filosofia tradicional é agora visto como o resultado deste tipo de infracção). O ponto comum às duas fases da filosofia de Wittgenstein é a preocupação com os limites da linguagem e com as pseudo-afirmações, pseudo-argumentos e pseudo-teses que o desrespeito desses limites pode gerar. A sua concepção da filosofia como disciplina essencialmente terapêutica, cujo objectivo é apenas curar-nos das “enfermidades" conceptuais resultantes desse desrespeito, manteve-se constante. A visão catastrófica de Wittgenstein acerca dos problemas filosóficos tradicionais deixou de ter aceitação, mas a sua influência (sobretudo na filosofia analítica) no modo como os filósofos se precavêem contra o uso incorrecto, impreciso ou superficial da linguagem perdurou até hoje. Por outro lado, as suas tendências místicas e o seu versátil conceito de “jogo de linguagem" influenciam ainda hoje algumas correntes filosóficas e, em alguma medida, as ciências humanas (o referido conceito inspira frequentemente teorias relativistas — ver relativismo). Wittgenstein produziu ainda contributos importantes em filosofia da matemática e em filosofia da mente, e a sua ênfase na relação entre linguagem e acção foi uma influência decisiva no desenvolvimento da pragmática. Além do Tractatus e das Investigações, outras obras importantes de Wittgenstein são Remarks on the Foundations of Mathematics (1956) e O Livro Azul (1958; trad. 1992, Edições 70) e O Livro Castanho (1958; trad. 1992, Edições 70). Ver também filosofia da linguagem. (Pedro Santos)

Kenny, Anthony, História Concisa da Filosofia Ocidental, cap. 22 (Lisboa: Temas e Debates, 1999).
Magee, Bryan, Os Grandes Filósofos, cap. 15 (Lisboa: Presença, 1989).