A Mensageira, de Valentina Hotz-Entin
Guia das falácias

Falácias da explicação

Stephen Downes
Universidade de Alberta

Uma explicação é uma forma de raciocínio que tenta dar resposta à pergunta "Porquê?" Por exemplo: é com uma explicação que respondemos a uma pergunta como "Por que é que o céu é azul?" Uma boa explicação será baseada numa teoria científica ou empírica. A explicação do azul do céu será dada em termos da composição dos céus e das teorias da reflexão.

Invenção de factos

Uma explicação pretende dizer-nos por que razão acontece certo fenómeno. A explicação é falaciosa se o fenómeno não ocorre ou se não houver prova de que possa ocorrer.

Exemplos:

  1. A razão da timidez da maioria das pessoas solteiras reside no carácter possessivo das suas mães. (É uma tentativa de explicar por que razão a maioria das pessoas solteiras são tímidas. No entanto, não é verdade que a maioria das pessoas solteiras sejam tímidas.)
  2. João entrou na loja porque queria ver a Maria. (Isto é uma falácia porque, de facto, João não entrou na loja.)
  3. A razão pela qual a maioria das pessoas se opõem à greve é o medo de perder o emprego. (Pretende-se explicar a oposição dos trabalhadores à greve. Mas suponha que eles votam a continuação da greve. Então não há, de facto, oposição à greve.)

Prova: Identifique o fenómeno que está a ser explicado. Mostre que não há razão para acreditar que o fenómeno tenha de facto ocorrido.

Referências:

Cedarblom e Paulsen: 158.

Distorcer factos

Uma explicação pretende dizer-nos por que razão acontece certo fenómeno (facto). O fenómeno ou facto está estabelecido, o argumento visa estabelecer a explicação. Neste tipo de falácias, no entanto, apesar de algo semelhante ao fenómeno a explicar ter ocorrido, ele é falsificado, apresentado de forma parcial ou baseado em provas had-doc.

Exemplos:

  1. A timidez da maioria dos solteiros explica-se pelo carácter dominador das mães. (Pretende-se explicar a timidez da maioria dos solteiros. No entanto provou-se que o autor baseou a sua argumentação em dois solteiros que conheceu em tempos, sendo ambos tímidos... Isto está longe de ser artificial: é assim que muitas vezes formamos a nossa opinião sobre diversos grupos humanos)
  2. A razão pela qual obtenho boas classificações é que os meus alunos me apreciam. (Isto é uma falácia quando as avaliações com menos de 70% são eliminadas com a justificação de que os alunos não compreenderam a questão...)

Prova: Identifique o fenómeno que está a ser explicado. Mostre que as provas avançadas para afirmar a existência do fenómeno foram, de algum modo, manipuladas.

Referências:

Cedarblom e Paulsen: 160.

Irrefutabilidade

A teoria que foi concebida para explicar a ocorrência de algum fenómeno não pode ser testada. Testamos uma teoria por meio das suas previsões. Por exemplo, uma teoria pode prever que a luz muda de trajectória em certas condições, ou que um líquido muda de cor com o ácido, ou que um psicótico responda mal a certos estímulos. Se o evento previsto não ocorrer, então a informação obtida contradiz a teoria. Uma teoria não pode ser testada se não faz previsões. Também não pode ser testada se prevê acontecimentos que podem ocorrer independentemente de a teoria ser verdadeira.

Exemplos:

  1. Um avião desapareceu no meio do Atlântico devido ao efeito do Triângulo das Bermudas, uma força tão subtil que não pode ser medida por qualquer instrumento. (À "força" do Triângulo das Bermudas não se atribui mais nenhum efeito além do desaparecimento ocasional de um avião. Por isso, a única previsão que permite é que mais aviões se irão perder. Mas isto é o que pode muito bem acontecer independentemente de a teoria ser verdadeira ou falsa. )
  2. Ganhei a lotaria porque a minha aura psíquica me fez ganhar. (Uma maneira de testar esta teoria é tentar ganhar de novo a lotaria. Mas a pessoa responde que essa aura só o faz ganhar uma vez. Não há, portanto, uma maneira de determinar se ganhou em resultado da aura ou do acaso.)
  3. A razão pela qual tudo existe é que Deus tudo criou. (Isto pode ser verdade, mas como explicação não tem qualquer peso porque não temos meios para testar tal teoria. Nenhuns factos no mundo podem mostrar que esta teoria é falsa porque, de acordo com tal teoria, todos os factos foram criados por Deus.)
  4. Ny Quil fá-lo dormir devido à sua fórmula dormitiva. (Quando pressionado, o fabricante definirá a "fórmula dormitiva" como "qualquer coisa que o faz dormir". Para testar esta teoria, teríamos de descobrir outra coisa que contivesse a fórmula dormitiva e verificar se ela faz dormir. Mas como encontramos alguma coisa que contenha a fórmula dormitiva? Procuramos por coisas que façam dormir! Mas nós podemos prever que as coisas que fazem dormir fazem dormir, não interessando o que a teoria diz. Esta teoria é vazia.)

Prova:

Identifique a teoria. Mostre que ela não faz previsões, ou que as previsões feitas com a teoria são falsas ou que as previsões que ela faz podem ser verdadeiras mesmo que a teoria seja falsa.

Referências:

Cedarblom e Paulsen: 161.

Âmbito Limitado (ad-hoc)

A teoria só explica um fenómeno e nada mais.

Exemplos:

  1. Havia hostilidade em relação aos hippies dos anos 60 por causa do ressentimento dos seus pais em relação às crianças. (Esta explicação é deficiente porque explica a hostilidade em relação aos hippies e nada mais. Uma teoria melhor seria dizer que havia hostilidade em relação aos hippies porque os hippies são diferentes, e as pessoas temem coisas diferentes. Esta teoria explicaria não só a hostilidade em relação aos hippies, mas também outras formas de hostilidade.)
  2. As pessoas tornam-se esquizofrénicas porque as diferentes partes dos eu cérebro funcionam separadas. (Esta teoria explica a esquizofrenia e nada mais.)

Prova:

Identifique a teoria e o fenómeno que ela explica. Mostre que a teoria não explica nada mais. Argumente que as teorias que só explicam um fenómeno são, na melhor das hipóteses, incompletas.

Referências:

Cedarblom e Paulsen: 163.

Pouca profundidade (superficialidade)

As teorias explicam os factos apelando a causas ou fenómenos subjacentes. As teorias que não apelam a causas subjacentes e apenas apelam à pertença a uma categoria (apenas incluem o fenómeno em uma classe de fenómenos) são superficiais.

Exemplos:

  1. A minha gata gosta de atum porque é uma gata. (Esta teoria apenas afirma que os gatos gostam de atum, sem explicar este facto.)
  2. Ronald Reagan era militarista porque era americano. (Certo, ele era americano. Mas, em que é que o facto de ser americano o torna militarista? O que o levou a agir dessa maneira? A teoria não nos diz isso e, portanto, não nos dá uma boa explicação.)
  3. Estás a dizer isso só porque pertences ao sindicato. (Esta tentativa de rejeição do argumento pretende explicar o comportamento do opositor como manifestação de frivolidade. Falha, no entanto, porque não é uma explicação. Suponhamos que toda a gente do sindicato dizia o mesmo. E daí? Tínhamos de ir mais fundo — tínhamos de perguntar por que razão toda a gente do sindicado dizia isso, antes de podermos concluir que as afirmações do opositor são frívolas.)

Prova: As teorias desta espécie tentam explicar um fenómeno, mostrando que ele é parte de uma classe ou categoria de fenómenos semelhantes. Aceitando esse facto, exija uma explicação mais vasta para os fenómenos dessa categoria. Argumente que uma teoria explicativa deve referir causas e não apenas classificações.

Referências:

Cedarblom e Paulsen: 164.

Stephen Downes

Tradução e adaptação de Júlio Sameiro