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27 de Março de 2016   Ética

Altruísmo eficaz

Peter Singer
Tradução de José Oliveira

Está a surgir um movimento novo e emocionante: o altruísmo eficaz. Em seu torno estão a formar-se organizações estudantis e há discussões acaloradas nas páginas das redes sociais e dos sítios da Internet, bem como nas páginas do New York Times e do Washington Post.

O altruísmo eficaz baseia-se numa ideia muito simples: temos o dever de fazer o maior bem que pudermos. Obedecer às regras habituais de não roubar, enganar, ferir e matar não é o suficiente, ou pelo menos não é o suficiente para quem tem a enorme sorte de viver com conforto material, pode alimentar-se, ter habitação, vestir-se a si próprio e à sua família e ainda ter dinheiro ou tempo de sobra. Viver uma vida ética minimamente aceitável envolve o uso de uma parte substancial dos nossos recursos adicionais para tornar o mundo um lugar melhor. Viver uma vida plenamente ética envolve fazer o maior bem que pudermos.

Embora as pessoas mais activas no movimento do altruísmo eficaz tendam a ser da geração do milénio — isto é, a primeira geração a ter a maioridade no novo milénio — os filósofos mais velhos, como eu, já discutiam o altruísmo eficaz antes de ter nome ou de ser um movimento. O ramo da filosofia conhecido como ética prática tem desempenhado um papel importante no desenvolvimento do altruísmo eficaz e este reivindica, por sua vez, a importância da filosofia, mostrando que ela muda, às vezes até dramaticamente, as vidas daqueles que tiram esses cursos.

A Cigarra Filosófica
Tradução de Vítor Guerreiro
Já à venda

A maioria dos altruístas eficazes não são santos, mas sim pessoas comuns como o leitor e eu; poucos altruístas eficazes afirmam viver uma vida totalmente ética. A maioria está algures no contínuo entre uma vida ética minimamente aceitável e uma vida totalmente ética. Isso não significa que se sintam constantemente culpados por não serem moralmente perfeitos. Os altruístas eficazes não vêem muito sentido em se sentirem culpados. Preferem concentrar-se no bem que estão a fazer. Alguns ficam satisfeitos em saber que estão a fazer algo significativo para tornar o mundo um lugar melhor. Muitos gostam de desafiar-se a si mesmos, para fazer um pouco melhor este ano do que no ano passado.

O altruísmo eficaz é notável sob várias perspectivas; nas páginas seguintes irei explorar cada uma delas. Primeiro, e mais importante, está a fazer uma diferença no mundo. A filantropia é uma indústria muito grande. Só nos Estados Unidos há quase um milhão de instituições de caridade, que recebem um total de, aproximadamente, 200 mil milhões de dólares por ano, com um adicional de 100 mil milhões de dólares doados a congregações religiosas. Um pequeno número de instituições de caridade são claramente fraudes, mas um problema muito maior é que poucas são suficientemente transparentes para permitirem que os doadores possam julgar se realmente estão a fazer o bem. A maior parte desses 300 mil milhões de dólares é doada com base em respostas emocionais a imagens das pessoas, animais, ou florestas que a caridade está a ajudar. O altruísmo eficaz procura mudar isso proporcionando incentivos às instituições de caridade para que demonstrem a sua eficácia. O movimento já está a direccionar milhões de dólares para instituições de caridade que estão efectivamente a reduzir o sofrimento e a morte causada pela pobreza extrema.

Em segundo lugar, o altruísmo eficaz é uma maneira de dar sentido às nossas próprias vidas e de encontrar a realização pessoal naquilo que fazemos. Muitos altruístas eficazes dizem que, ao fazer o bem, se sentem bem. Os altruístas eficazes beneficiam directamente os outros mas, indirectamente, muitas vezes, beneficiam-se a si mesmos.

Em terceiro lugar, o altruísmo eficaz lança uma nova luz sobre uma velha questão filosófica e psicológica: seremos fundamentalmente impulsionados pelas nossas necessidades inatas e respostas emocionais, com as nossas capacidades racionais a fazer pouco mais do que colocar um verniz de justificação sobre as acções que já foram determinadas antes mesmo de começarmos a raciocinar sobre o que fazer? Ou poderá a razão desempenhar um papel crucial na determinação de como vivemos? O que leva algumas pessoas a olhar além dos seus próprios interesses, e dos seus amados, para incluir os interesses de estranhos, das gerações futuras e dos animais?

Por fim, o aparecimento do altruísmo eficaz e o entusiasmo evidente e inteligência com que o movimento é abraçado por muitas pessoas da geração do milénio no início das suas carreiras oferecem motivos para ficar optimista quanto ao nosso futuro. Há muito que existe cepticismo sobre se as pessoas podem realmente ser motivadas por uma preocupação altruísta para com os outros. Há quem pense que as nossas capacidades morais se limitam a ajudar os nossos familiares, aqueles com quem estamos, ou poderíamos estar, em relacionamentos mutuamente benéficos e os membros do nosso próprio grupo tribal ou sociedade de pequena escala. O altruísmo eficaz mostra que isso é falso. Mostra que podemos expandir os nossos horizontes morais, tomar decisões com base numa forma abrangente de altruísmo e empregar a nossa razão para avaliar os indícios sobre as consequências prováveis das nossas acções. Desta forma, permite-nos ter esperança que a próxima geração e as seguintes sejam capazes de cumprir as responsabilidades éticas de uma nova era em que os nossos problemas serão tanto globais como locais.

Peter Singer

Texto originalmente publicado no blogue The Life You Can Save (1 de Abril de 2015).