Terça-feira, 13 de Maio de 2008
"George Orwell" é o nome literário de Eric Arthur Blair, que nasceu a 25 de Junho de 1903 no estado de Bengala, na Índia, e morreu de tuberculose em Londres no dia 21 de Janeiro de 1950, sem chegar a completar 47 anos. Hoje em dia é conhecido sobretudo como autor de A Quinta dos Animais (1945), publicado com o título O Triunfo dos Porcos, em Portugal, e A Revolução dos Bichos, no Brasil, e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949), ambas denúncias vívidas e subtis de estados totalitaristas.
A questão da objectividade da ética é tão velha quanto a própria filosofia. Na antiguidade, os cépticos sentiram-se atraídos pela ideia de que a moralidade não é mais do que um conjunto de convenções sociais. Heródoto, depois de passar em revista as crenças morais de várias culturas, declarou que "O costume predomina sobre todas as coisas," e que alguém que pense o contrário é simplesmente ingénuo: "Qualquer pessoa sem excepção acredita que os seus costumes de origem, e a religião em que foi educado, é a melhor." Na República de Platão Sócrates encontra Trasímaco, que deu à ideia um aspecto sinistro. O bem e o mal, disse Trasímaco, são invenções dos mais fortes que os ajudam a dominar os mais fracos.
Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
Trata-se de tradução do texto grego do famoso Encheirídion de Epicteto, filosófo estóico grego nascido no ano 55 em Hierápolis na Frígia, Ásia Menor (hoje Turquia). Epicteto, como Sócrates, nada escreveu. Seu pensamento nos chegou através de seu aluno Flávio Arriano (cidadão romano de origem grega), que compilou (possivelmente com auxílio da taquigrafia) suas aulas em oito livros (As Diatribes de Epicteto, das quais quatro livros sobrevivem) e constituiu o Encheirídion, termo que em grego significa "punhal, arma portátil ou livro portátil, manual".
Se o subjectivismo ético não é verdadeiro, por que razão se sentem algumas pessoas atraídas por ele? Uma das razões tem a ver com o facto de a ciência fornecer o nosso paradigma de objectividade, e quando comparamos a ética à ciência, à ética parecem faltar as características que tornam a ciência tão irresistível. Por exemplo, a inexistência de provas em ética parece uma grande deficiência. Podemos provar que o mundo é redondo, que não existe o maior número primo, e que os dinossauros viveram antes dos seres humanos. Mas poderemos provar que o aborto é certo ou errado?
Bertrand Russell
As mentes não criam a verdade ou a falsidade. Criam crenças, mas uma vez criadas as crenças a mente não pode torná-las verdadeiras ou falsas, excepto no caso especial em que dizem respeito a coisas futuras que estão sob o domínio da pessoa que acredita, como apanhar comboios. O que faz uma crença ser verdadeira é um facto, e este facto (excepto em casos excepcionais) não envolve de modo algum a mente da pessoa que tem a crença.
Domingo, 11 de Maio de 2008
"Por que há algo e não nada?" é a formulação básica — desde Leibniz — de um problema da metafísica: a questão, se é que tem sentido, consiste em descobrir uma razão de ser para a própria existência de um mundo repleto de coisas que o compõem, em vez de um puro vazio, a ausência de universo, o nada. "Por que há algo e não nada?" é também o título do mais recente livro de Leszek Kolakowski.
Nesta nota, sem discutir obras individuais, irei limitar-me a indicar as linhas gerais do desenvolvimento filosófico ocorrido em décadas recentes. Por volta de 1960, poderíamos traçar o mapa do mundo da filosofia ocidental, sem um grau muito elevado de simplificação excessiva, por meio de um diagrama.
Podemos representar a situação tomando um quadrado e dividindo-o em quatro quadrantes. No canto superior esquerdo colocamos o existencialismo, nessa altura muito em voga na parte ocidental da Europa continental; no canto superior direito, colocamos a tradição analítica, que dominava os países de língua inglesa em ambos os lados do Atlântico.
Sábado, 10 de Maio de 2008
Esta pequena narrativa foi para mim uma agradável surpresa. Com uma sinceridade desconcertante, José Cardoso Pires conduz-nos pela tragédia que sofreu aquando da súbita perda de memória motivada por um coágulo de sangue que se alojou no seu cérebro. A narrativa é depurada e comovente, escapando à pieguice com uma elegância extraordinária. O domínio da língua torna estas páginas de leitura deliciosa, do ponto de vista formal, ao mesmo tempo que do ponto de vista do conteúdo a leitura é compulsiva.
Sexta-feira, 9 de Maio de 2008
Ludwig Wittgenstein (1889-1951) declara nas secções 6.44 e 6.45 do Tratactus Logico-Philosophicus (trad. de M. S. Lourenço, Gulbenkian) que "O que é místico é que o mundo exista, não como o mundo é. A contemplação do mundo sub specie aeterni é a sua contemplação como um todo limitado. Místico é sentir o mundo como um todo limitado." A tradução desta passagem é problemática, e provavelmente não haverá duas iguais. E isso é parte do problema.
Quinta-feira, 8 de Maio de 2008
Entre as muitas contribuições importantes de Duhem para a filosofia da ciência, talvez a mais importante seja a sua formulação daquilo a que chamarei tese de Duhem. Com a sua clareza e agudeza habituais, Duhem formula a sua tese numa secção com o seguinte título:
"Uma Experiência na Física Nunca Pode Condenar uma Hipótese Isolada, mas Apenas um Grupo Teórico no seu Todo". Nessa secção, Duhem expõe depois a tese da seguinte maneira: "Resumindo, o físico nunca pode sujeitar uma hipótese isolada a um teste experimental, mas apenas todo um grupo de hipóteses."
Quarta-feira, 7 de Maio de 2008
Exactamente oitenta anos após o processo de Dayton, Tennessee, que ficou conhecido como o John Scopes "monkey trial", a história está prestes a repetir-se. Numa sala de audiências em Harrisburg, Pennsylvania, desde fins de Setembro cientistas e criacionistas travam uma luta para saber se e como os estudantes do liceu, em Dover, irão aprender a respeito da evolução biológica. Poder-se-ia presumir que estas batalhas tinham acabado mas isso seria subestimar o furor (e a ingenuidade) dos criacionistas escarnecidos.
Terça-feira, 6 de Maio de 2008
"A porca que procria deve ser considerada, e tratada, como uma valiosa peça de maquinaria cuja função é bombear leitões como uma máquina de salsichas". Esta afirmação de um gestor capta de uma maneira expressiva uma atitude ainda frequente em relação aos animais, que nos leva a vê-los como simples instrumentos e a excluí-los da esfera da ética. O filósofo moral Peter Singer cita-a em Libertação Animal, o seu livro recentemente publicado pela Via Óptima. Nele Singer mostra que se raciocinarmos correctamente verificaremos que uma tal atitude é indefensável. Depois, apresentando os factos relevantes, defende que temos que mudar radicalmente o modo como tratamos os animais.
O objectivo destas páginas é duplo. Por um lado, mostrar a plausibilidade da seguinte hipótese: quando o sentido da vida é encarado como um problema pessoal, é mal compreendido. Não disponho de estudos científicos empíricos que possam sustentar esta hipótese. Por isso defendo apenas que é uma hipótese plausível; talvez as coisas se passem como esta hipótese diz que são, ou talvez não.
Por outro lado, quero mostrar que, porque o problema pessoal do sentido da vida é mal compreendido, nenhuma resposta razoável que possamos dar é satisfatória. Mas isto acontece não porque as respostas são más, mas porque o problema pessoal do sentido da vida é um falso problema.
Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
Kurt Baier
Se a vida pode realmente valer a pena, então pode valer a pena mesmo que seja curta. E se não vale de modo algum a pena, então uma eternidade disso é pura e simplesmente um pesadelo. Pode ser triste que tenhamos de deixar este belo mundo, mas só o é se for belo e porque é belo. E não é menos belo por chegar ao fim. Suspeito pelo contrário que uma eternidade dele poderia fazer-nos apreciá-lo menos, e no fim seria um tédio.
Domingo, 4 de Maio de 2008
No dia 10 de março de 1993 foi emitido no canal britânico Channel 4, um documentário intitulado "Brasil: Muito Além do Cidadão Kane". O diretor do documentário, Simon Hartog, apresenta o empresário Roberto Marinho (1904-2003) como um exemplo alarmante da concentração de poder da imprensa do Brasil — daí a referência do título à personagem de Orson Welles no filme Cidadão Kane, que por sua vez faz alusão direta ao magnata das comunicações dos Estados Unidos, William Randolph Hearst.
Sábado, 3 de Maio de 2008
Decorre de 8 a 10 de Dezembro de 2008 este colóquio dedicado ao contexto e atenção, que conta com Almit Almor (Universidade da Carolina do Sul) e François Recanati (Instituto Jean Nicod) como conferencistas convidados. A submissão de comunicações decorre até dia 30 de Junho de 2008. O colóquio é organizado pela UFMG e pela UNICAMP.
Quando se lê cuidadosamente os documentos e artigos dos defensores da unificação ortográfica fica-se com uma sensação kafkiana. Algo está profundamente errado. Os verdadeiros motivos que levam algumas pessoas a lutar há anos pela unificação ortográfica por via legislativa não podem ser os motivos que são explicitamente formulados. Vejamos porquê.
Sexta-feira, 2 de Maio de 2008
O historiador e medievalista francês, Sylvain Gouguenheim, professor da Escola Normal Superior de Lyon, publicou recentemente um livro polémico, que já lhe valeu a hostilidade de vários colegas de profissão. Nesse livro, o autor analisou em detalhe a tese, muito vulgarizada actualmente, de que a Europa tem um importante débito face ao Islão, na transmissão do saber da Antiguidade Clássica grega, sobretudo através do Al-Andalus (a Península Ibérica muçulmana medieval) e da Sicília.
Terça-feira, 29 de Abril de 2008
Publicado em 2003 pela Plátano Editora, e entretanto esgotado, este dicionário está agora integralmente disponível na Internet: www.defnarede.com. Sendo de acesso gratuito, este site permanecerá gratuito e disponível mesmo depois de ser publicada em papel a nova edição revista e aumentada do dicionário, prevista para Setembro de 2008.
Segunda-feira, 28 de Abril de 2008
Alan Sokal
Quer os meus alvos sejam os pós-modernistas da esquerda, os fundamentalistas da direita ou os trapalhões de todos as sensibilidades políticas e apolíticas, o fundamental é que o pensamento claro, combinado com o respeito pelos indícios, é da maior importância para a sobrevivência do género humano no século XXI.
Sábado, 26 de Abril de 2008
Existirão, de facto, posições claramente religiosas sobre as grandes questões morais, que os crentes sejam obrigados a aceitar? A ser assim, serão essas posições diferentes das perspectivas que outras pessoas podem alcançar através da simples tentativa de raciocinar para descobrir o melhor caminho a seguir? A retórica do púlpito sugere que a resposta a ambas as questões é "sim". Mas há várias razões para pensar de outra forma.
Sexta-feira, 25 de Abril de 2008
Nessa altura eu estava a dar uma série de aulas de Iniciação de Física e, depois de uma delas, Tom Harvey, que me ajudava a preparar as demonstrações, disse: "Devia ver o que se passa com a Matemática nos livros escolares! A minha filha chega a casa com uma data de disparates!"
Não prestei muita atenção ao que ele disse.
Mas no dia seguinte recebi um telefonema de um advogado bastante famoso de Pasadena, o Sr. Norris, que nessa altura pertencia à Junta Estadual de Educação. Pediu-me que fizesse parte da Comissão Curricular Estadual, que devia escolher os novos manuais para o estado da Califórnia.
Quinta-feira, 24 de Abril de 2008
Estamos perante 25 capítulos sobre a pseudociência, o misticismo, os OVNIS — e, tangencialmente, sobre o pós-modernismo, essa doença da cultura actual. É um estudo das origens, causas e consequências das mais diversas manifestações de irracionalismo no nosso tempo. Em muitos casos, Sagan compara as crenças actuais com crenças medievais. O caso dos que afirmam terem sido reptados por alienígenas, por exemplo, é comparado com as crenças medievais nas bruxas. O leitor fica espantado com a imensa diversidade da crendice humana e confirma — se for um céptico empedernido, como eu — a ideia de que a estupidez humana não conhece limites.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2008
Nada no mundo, nenhum objecto ou acontecimento, seria verdadeiro ou falso se não existissem criaturas com pensamento. John Dewey, em cuja honra e memória foram proferidas as conferências que constituíram este ensaio, retirou duas conclusões: que o acesso à verdade não podia ser uma prerrogativa especial da filosofia, e que a verdade tem de ter conexões essenciais com os interesses humanos.
Terça-feira, 22 de Abril de 2008
Neste livro, o conhecido astrónomo e divulgador Carl Sagan (1934-1996) apresenta algumas reflexões importantes sobre a religião. O título da obra faz referência ao clássico As Variedades da Experiência Religiosa (1902), de William James, e, como este, baseia-se nas prestigiadas Palestras Gifford, da Universidade de Edimburgo.
Se é que alguns livros mudam o mundo, a República pode bem reivindicar o primeiro lugar. É habitualmente considerada a realização suprema de Platão como filósofo e escritor, brilhantemente suspensa entre os primeiros diálogos zetéticos e inconclusivos e as especulações cosmológicas e dúvidas menos impositivas dos mais tardios. No decurso dos séculos foi provavelmente objecto de mais comentários e sujeito a críticas mais radicais e apaixonadas do que a grande maioria dos outros grandes textos fundadores do mundo moderno.
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