A Crítica despede-se
Desidério MurchoNascido em 1997 como um mero site pessoal chamado desidério@net (numa altura em que não havia ainda blogs, que tornaram fácil a qualquer pessoa publicar textos na Internet), o que hoje é a Crítica chega agora ao fim, quinze anos depois da sua fundação. A Crítica passou por várias mutações, mas o seu objectivo manteve-se sempre idêntico: a divulgação de textos e livros de filosofia, importantes para professores, estudantes e o grande público.
Em defesa do realismo científico
Stathis PsillosAté agora tenho oferecido argumentos contra o empirismo redutivo, contra várias versões de instrumentalismo, tanto do tipo eliminativo quanto do tipo duheniano (não-eliminativo). Vimos que a chamada “via de Ramsey” não oferece um compromisso estável e satisfatório entre o realismo e o instrumentalismo. Por isso, a única alternativa é adotar uma atitude realista frente às entidades inobserváveis postuladas por nossas melhores teorias. Se o realismo semântico for adotado, então teremos uma resposta simples à pergunta: como é o mundo de acordo com uma determinada teoria científica? (Ou similarmente, como é o mundo se certa teoria científica for verdadeira?). A resposta não é outra senão a de que o mundo é do modo como a teoria científica — literalmente entendida — descreve como sendo.
Sobre a regressão infinita de Russell contra o nominalismo de semelhança
Lucas Miotto LopesMeu objetivo neste ensaio é criticar duas respostas ao argumento de Russel contra o nominalismo de semelhança e indicar quais são os requisitos que uma resposta satisfatória deve conter. Para isso procedo da seguinte forma: apresento o argumento de Russell; mostro qual das premissas o opositor deverá atacar; apresento duas tentativas de resposta e contra-argumento a elas; e, finalmente...
O quasi-realismo de Blackburn
Alexander MillerNo capítulo anterior observei os problemas do emotivismo e o discuti em termos da metáfora da projeção. O emotivismo é uma versão do projetivismo. O quasi-realismo de Blackburn também é uma versão do projetivismo explicitamente produzida para fazer face aos problemas levantados contra o emotivismo. Mas qual a diferença entre um mero projetivista e um quasi-realista? O quê o quasi-realismo acrescenta ao projetivismo? Blackburn explica a distinção como se segue...
Censura brasileira contemporânea
Aluízio CoutoO Brasil, durante 20 anos, foi uma ditadura militar. Como em toda ditadura, uma das primeiras liberdades cassadas no país foi a de imprensa. O procedimento era simples: os militares enviavam censores às redações dos principais jornais. Ao fim do expediente, o censor passava os olhos no jornal já pronto e cortava o que não era de interesse do regime. É difícil imaginar forma mais explícita de censura.
Ceticismo, naturalismo e argumentos transcendentais
P. F. StrawsonO termo “naturalismo” tem um uso elástico. O fato de ter sido aplicado à obra de filósofos com tão pouco em comum quanto Hume e Spinoza é suficiente para sugerir a necessidade de se distinguir entre variedades de naturalismo. Nos próximos capítulos, estabelecerei uma distinção entre duas principais variedades, dentro das quais existem subvariedades. Dessas duas principais variedades, uma poderia ser denominada naturalismo estrito ou reducionista (ou, talvez, naturalismo extremo); a outra, naturalismo católico ou liberal (ou, talvez, naturalismo moderado).
Argumentos acerca do empirismo construtivo
Paul DickenDeveriam os cientistas acreditar em tudo aquilo que dizem? Deveriam eles acreditar nas afirmações de suas teorias científicas bem desenvolvidas e na existência das coisas microscópicas exóticas que dizem agora popular os alcances inobserváveis da realidade? Ou uma atitude mais modesta perante a investigação científica seria preferível? Numa primeira reflexão, há certamente uma forte intuição de que as nossas teorias científicas atuais são (pelo menos aproximadamente) verdadeiras: afinal, a prática científica contemporânea é enormemente bem sucedida tanto em termos de previsão quanto de manipulação dos fenômenos empíricos, e — assim se pensa — esse fato seria simplesmente miraculoso...
O Encheirídion de Epicteto, de Flávio Arriano
Aldo DinucciAcabamos de lançar, pelo editorial Prometeus, a edição bilíngue do Encheirídion de Epicteto, obra do aluno de Epicteto (55-135) e cidadão romano de origem grega Lúcio Flávio Arriano de Nicomédia (86-160). Tal tradução, produzida por Aldo Dinucci (doutor em filosofia pela PUC-RJ e professor associado do Departamento de Filosofia da UFS) e Alfredo Julien (doutor em história pela USP e professor adjunto do Departamento de História da UFS), foi parcialmente financiada pelo CNPq (edital MCT/CNPq 02/2009 - Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas).
An Essay on Free Will, de Peter van Inwagen
Pedro MerlussiHá certa tensão entre duas de nossas crenças mais razoáveis: a crença de que temos livre-arbítrio e a crença de que o determinismo é verdadeiro. O determinismo é a tese de que o passado mais as leis da natureza determinam um futuro único. Por exemplo, se o determinismo é verdadeiro, a caneta que acabei de soltar está determinada a cair, dado o passado mais as leis da natureza. Quanto ao livre-arbítrio, é difícil dizer algo consensual, mas comumente se aceita que uma condição necessária para ter livre-arbítrio é poder se decidir de outro modo. Por exemplo, se o leitor tem livre-arbítrio, parece que poderia ter decidido não ler esta resenha. E diríamos que intuitivamente o leitor tem livre-arbítrio. Por outro lado, parece que também temos razões para pensar que o determinismo é verdadeiro.
Eutanásia voluntária e o argumento do declive escorregadio
Aluízio CoutoEste trabalho trata de um aspecto relativo ao debate sobre a legalização da eutanásia voluntária: o uso de argumentos do tipo declive escorregadio com o objetivo se de opor à legalização da prática. Minha intenção principal é a de defender que um argumento desse tipo usado contra a legalização, argumento este presente na obra do filósofo David S. Oderberg (2009), não é persuasivo. Não se trata, no entanto, do único argumento dele contra a legalização; pode ser que ele esteja certo quando afirma que não devemos legalizar a prática. Apenas não acho que o filósofo é bem sucedido em favor disso com o argumento aqui tratado.
O Salto do Novo, de Luís Raposo Pena
Como acontece o novo? Não o novo da combinatória de elementos pré-existentes ou da inovação técnica, mas o absoluto da novidade, o “aqui e agora”, sem nome e sem forma, que se manifesta na apresentação de mundo. Este é o propósito desta dissertação: tentar pensar o novo. A aproximação que efectuamos parte da valorização do texto de juventude de Walter Benjamin, datado de 1917, “Sobre a Pintura ou Sinal e Mancha”. Com base nos conceitos radicais aí apresentados de mancha e sinal, que consideraremos como marcas do “aparecimento”, defenderemos que o novo é manifestado através de uma mancha; caberá ao pintor a sua justa nomeação segundo o processo de composição. Depois, veremos qual a relação da mancha com a linguagem...
A Superação do Dualismo Cartesiano, de Barbosa de Sousa
A presente dissertação divide-se em duas partes. Na primeira parte, é exposta a crítica de António Damásio ao dualismo cartesiano no que se refere à influência deste dualismo nas concepções e práticas médicas ocidentais bem como as consequências para a compreensão da doença e da prática da medicina. Na segunda parte, são abordadas outras concepções de autores não dualistas que afirmam a incorporação da mente: Francisco Varela, George Lakoff e Edith Stein.
O Progresso e seus Problemas, de Larry Laudan
Tamires Dal MagroOriginalmente publicado em 1977, temos agora à disposição em português O Progresso e seus Problemas, de Larry Laudan. Escrito no contexto das discussões acerca da racionalidade e objetividade da ciência geradas pela publicação de A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), de Thomas Kuhn, o livro de Laudan contribuiu para avançar o debate em filosofia da ciência sobre critérios de escolhas entre teorias rivais e sobre a noção de progresso científico. A obra é composta por duas partes, com sete capítulos ao todo. A primeira parte é constituída pelos quatro capítulos iniciais e nela Laudan desenvolve a sua própria teoria da ciência...
Esfera Pública em Habermas, de Jorge Adriano Lubenow
A presente tese tem o objetivo de fazer uma leitura reconstrutiva de um tema fundamental explorado por Jürgen Habermas: a categoria de “esfera pública”. Este tema da esfera pública é examinado no contexto da passagem entre o universo teórico de Strukturwandel der Öffentlichkeit (1962) e Theorie des kommunikativen Handelns (1981) em relação àquele de Faktizität und Geltung (1992). Nesta transição, Habermas reformula uma série de questões introduzidas nas suas investigações anteriores sobre o tema da esfera pública e configura uma perspectiva teórica modificada. O momento-chave desta transição é o prefácio à nova edição de Strukturwandel der Öffentlichkeit, publicada em 1990.
Real Conditionals, de William G. Lycan
Matheus SilvaO filósofo tradicional faz teorias sobre as frases condicionais do seguinte modo: primeiro, considera alguns exemplos de frases condicionais; em seguida, tem um insight sobre algum princípio geral capaz de revelar algo sistemático subjacente a esses exemplos; por fim, procura reformular ou defender esse princípio diante das frases que parecem escapar ou contradizer a sua explicação. Essa é a posição adotada por autores como Frank Jackson, Ernest Adams e Robert Stalnaker. Uma metodologia menos ortodoxa consiste em partir de indícios sintáticos fornecidos pela lingüística e formular uma explicação semântica que seja capaz de fazer justiça às relações sintáticas entre as condicionais e outros termos da linguagem natural.
A inimportância do avant-garde
Nick ZangwillSerá que a arte avant-garde tem uma importância especial para a filosofia da arte?1 Evidentemente, alguma arte avant-garde pode ser intrinsecamente interessante. Talvez os filósofos possam reflectir sobre o significado e valor dessas obras. Algumas podem mesmo levantar questões filosóficas. Contudo, muitos filósofos foram na peugada de Arthur Danto, pensando que há lições bastante gerais a retirar destas obras.2
Homossexualidade e lei
Luís VeríssimoO texto que se segue mostra o contributo da filosofia para o esclarecimento e solução de problemas reais — como, neste caso, os problemas associados à legislação sobre o casamento e a adopção por parte de casais de pessoas do mesmo sexo. Estes dois problemas podem ser formulados do seguinte modo: 1) Deve a lei permitir o casamento entre homossexuais? 2) Deve a lei permitir a adopção de crianças por parte de casais homossexuais que obedeçam às outras condições estabelecidas na lei da adopção?
A divisão analítico-continental
Gary GuttingMuitos filósofos de departamentos americanos de marcada importância são especialistas em metafísica: o estudo dos aspectos mais gerais da realidade, como o ser e o tempo. A obra principal de um dos mais proeminentes filósofos do séc. XX, Martin Heidegger, é Ser e Tempo, um estudo profundo destes dois tópicos. Contudo, quase nenhuns dos metafísicos americanos deu atenção ao livro de Heidegger.
Má filosofia analítica
Pascal EngelOs filósofos analíticos, na sua maior parte, concordam que a filosofia deve satisfazer certos requisitos mínimos: deve ser clara, precisa, bem argumentada, apresentando uma tese explícita e exemplificando o princípio de que a verdade emerge mais prontamente do erro do que da confusão. Todos concordam que deve também ser interessante, relevante, razoavelmente original, rigorosa, e que deve avançar propostas teóricas ou críticas sobre os problemas e enigmas que têm dado forma à tradição analítica ou que são objecto das nossas preocupações actuais. Muitos filósofos acreditam que quando estes desideratos básicos são cumpridos, a filosofia analítica não pode ser má.
Evolution, de Stephen Baxter
Desidério MurchoApesar de se tratar de um livro de ficção científica, podemos e devemos ler Evolution como um maravilhoso livro de divulgação científica — claramente na linha, aliás, do magnífico Os Dragões do Éden, do malogrado Carl Sagan. A ambição é imensa: apresentar toda a história da vida na Terra, com especial ênfase nos seres humanos. Mas Baxter acaba por ir mais longe ainda, e apresenta a história do próprio planeta Terra — da sua origem à sua extinção. A compreensão profunda que Baxter tem das ciências relevantes — biologia evolucionista, geotectónica, climatologia, astronomia — tornam este livro uma leitura extraordinariamente informativa, ao mesmo tempo que constitui uma ficção emocionante. Aliás, os recursos a que Baxter deitou mão, como ficcionista, para resolver o imenso quebra-cabeças de desenvolver a narrativa das origens mais remotas dos seres humanos aos seus futuros mais distantes...
Terá Rawls refutado o utilitarismo?
Sagid SallesEm 1971 era publicada uma obra que se tornaria muito importante nas discussões de filosofia política. O nome dessa obra é Uma Teoria da Justiça e seu autor John Rawls. Ao longo das aproximadas seiscentas páginas do livro, Rawls apresenta e defende a perspectiva que chamou de “Justiça como Equidade”. Rawls considera, e menciona-o logo no prefácio (tanto da edição original como da revista), que a sua teoria pretende ser uma alternativa à teoria utilitarista. Assim, uma parte do seu projeto é refutar, de uma vez por todas, essa teoria.
Conditionals, de Michael Woods
Matheus SilvaEsta é uma obra póstuma: é um fragmento do que seria um dos capítulos de um livro sobre lógica filosófica em que Michael Woods trabalhava por ocasião de sua morte em Abril de 1993. O material foi transcrito por John Foster e editado por David Wiggins. O livro contém oito capítulos, seguidos de comentários de Dorothy Edgington, além de um obituário, um curriculum vitae e a bibliografia de Woods. O capítulo 1 faz uma breve taxonomia de condicionais. Há diferentes tipos de frases condicionais. Uma condicional assertiva como “Se chover, Max não irá ao jogo” parece muito diferente de uma ordem condicional como “Se o paciente melhorar, troque as ataduras” ou uma pergunta condicional como “Se a Fernanda sair, irá ela ao supermercado?”.
A teoria de tudo
David DeutschLembro-me de me ser dito, quando era criança, que em tempos idos era ainda possível a uma pessoa de muita instrução saber tudo o que se sabia. Foi-me igualmente dito que hoje em dia sabe-se tanto que não era concebível que alguém soubesse mais do que uma diminuta fracção disso, ainda que numa vida longa. A última proposição surpreendeu-me e fez-me ficar desapontado. Na verdade, recusei-me a acreditar nisso. Não sabia como justificar a minha descrença. Mas sabia que não queria que as coisas fossem dessa maneira, e invejei os estudiosos de outros tempos.
John Stuart Mill
Alan RyanJohn Stuart Mill nasceu em Londres em 1806, filho de James Mill, e foi filósofo, economista e alto funcionário da Companhia das Índias Orientais. Em Autobiography (1873) (Autobiografia 2007), que escreveu nos seus últimos anos, Mill apresentou uma descrição vívida e comovente da sua vida, em especial da sua extraordinária educação. Teve uma carreira activa como administrador da Companhia das Índias Ocidentais, da qual se aposentou apenas quando as funções administrativas da Companhia foram assumidas pelo governo britânico, na sequência do Motim de 1857. Além disso, foi deputado liberal por Westminster entre 1865 e 1868, e em jovem, na década de 1830, dirigiu a London and Westminster Review, uma revista trimestral radical. Morreu em Aix-en-Provence em 1873.
“Esse gênero de imagem quotidiana do positivismo lógico”
Alan RichardsonNo século XXI ninguém é empirista lógico.1 É certo que há não poucos filósofos cujo trabalho se assemelha em aspectos relevantes ao trabalho dos empiristas lógicos e que, de fato, se tivesse sido feito na década de 1950, seria um trabalho empirista lógico. Mas ninguém apresenta tal trabalho sob a rubrica “empirismo lógico”. Na verdade, ninguém poderia tentar fazer tal coisa de maneira plausível — ser um empirista lógico não é realmente uma opção viva para um filósofo do século XXI.2
Evolução e Grandes Temas, de Stamos
José Costa JuniorNo final do primeiro capítulo do seu livro Fundamentos da Filosofia (Zahar, 1977), Bertrand Russell expõe uma das suas expectativas em relação ao futuro dos problemas filosóficos: “Talvez a ciência moderna nos permita ver os problemas filosóficos a uma nova luz. Com essa esperança, vamos examinar a relação do homem com o seu meio”. Tal expectativa é compartilhada por David Stamos neste livro, lançado originalmente em 2008 na Blackwell. Stamos visa esclarecer as conseqüências, e o impacto, que a teoria evolucionista de Charles Darwin tem com respeito a alguns dos problemas filosóficos mais tradicionais...
O inefável
Desidério MurchoHá várias ilusões cognitivas persistentes que têm uma característica comum: exprimem-se de modo a haver duas interpretações cruciais. Numa, a ideia em causa é verdadeira, mas não é surpreendente nem merece a nossa atenção porque é banal. Na outra, a ideia é surpreendente e chama-nos apropriadamente a atenção, mas é patentemente falsa. A ilusão cognitiva resulta precisamente de se assentar arraiais no muro da ambiguidade, de modo que quando discordamos dela, o seu defensor bate-nos na cabeça com a interpretação verdadeira, que realmente não queremos rejeitar; quando afirmamos então que essa ideia é verdadeira mas banal...
Nota sobre arte e conceitos históricos
Gregory CurrieNum certo sentido, os nossos conceitos são, na sua maioria, históricos. Qualquer conceito que tenha aplicação contingentemente é histórico no sentido de que, se a história do mundo tivesse sido diferente, aplicar-se-ia a coisas diferentes. O conceito de arte é histórico nesse sentido: se Rembrandt tivesse pintado mais um auto-retrato, o conceito de arte teria mais uma coisa na sua extensão. Alguns conceitos são históricos noutro sentido...
Sobre o puzzle de Kripke
D. E. OverEm “A Puzzle about Belief” (Meaning and Use, ed. by A. Margalit, Reidel, Dordrecht, 1979, pp. 239-283), Kripke enuncia dois princípios que descreve como auto-evidentes. O primeiro é o princípio da descitação:
Se um falante normal de inglês, sob reflexão, assente sinceramente a “P”, então acredita que P (p. 249).
A ciência empírica segundo Berkeley
J. O. Urmson“Memorandum. Há muito que recomendar e aplaudir na filosofia experimental”, afirmou Berkeley nos seus cadernos de anotações pessoais (C 498). Esta recomendação não era só de fachada. O interesse de Berkeley pela ciência experimental, ou filosofia experimental como a denominava, segundo o uso normal nos séculos XVII e XVII, foi intenso e genuíno. A sua grande admiração por Newton é manifestada inúmeras vezes nos seus escritos, e não somente os destinados a publicação. Berkeley havia estudado os Principia de Newton — uma obra muito difícil, que poucos poderiam pretender compreender com alguma facilidade — e provavelmente a Óptica.
Comunidade?
Desidério MurchoUma das palavras mágicas que me escapou, e que cada vez é mais usada de modo deplorável é “comunidade”. Há uns anos, havia, por exemplo, filósofos, poetas e taxistas. Hoje, há a comunidade dos filósofos, a comunidade dos poetas e a comunidade dos taxistas. A palavra “comunidade” entrou no vocabulário contemporâneo sem que as pessoas se tenham apercebido de tal, violando o seu significado original a tal ponto...
2081 e a falácia da desigualdade social
Luís Estevinha RodriguesSó recentemente tivemos oportunidade de ver 2081, uma curta-metragem realizada por Chandler Tuttle (2009), baseada no também curto conto Harrison Bergeron, de Kurt Vonnegut (1961). Tirando algumas diferenças de menor importância, o filme de Tuttle é fiel ao conto de Vonnegut, o que nos permite dizer que ambos expõem a mesma história. Crucialmente, essa história é a de uma sociedade distópica na qual os governantes promovem a eliminação das diferenças físicas e mentais impondo handicaps, limitações artificiais, aos elementos mais dotados. Os mais belos têm de usar máscaras, os mais fortes têm de carregar pesos, os mais inteligentes têm de usar mecanismos auriculares que os desconcentram...
Ações, razões e causas
Donald DavidsonQual é a relação entre uma razão e uma ação quando a razão explica a ação, dando a razão do agente para fazer o que fez? Podemos chamar tais explicações de racionalizações, e dizer que a razão racionaliza a ação. Neste artigo quero defender a posição antiga — e de senso comum — de que a racionalização é uma espécie de explicação causalii. A defesa sem dúvida exige alguma reelaboração, mas não parece necessário abandonar a posição, como muitos autores recentes insistem.1
Sexto Empírico
Charlotte StoughSexto Empírico foi um cético grego da escola pirrônica e um médico clínico que viveu provavelmente durante o final do século II d.C. As datas exatas são controversas e os detalhes de sua vida praticamente desconhecidos; contudo, é a fonte mais importante de nosso conhecimento das filosofias céticas gregas antigas. As obras que nos chegaram são as Hipotiposes Pirrônicas, em três livros, que nos fornecem o relato positivo do próprio Sexto sobre o ceticismo pirrônico, e uma extensa obra em onze livros, geralmente referida coletivamente como Contra os Matemáticos. Esta contém muito material semelhante ao encontrado nas Hipotiposes, mas também fornece argumentos céticos adicionais contra os filósofos...
Conhecimento esquivo
David LewisSabemos muito. Sei qual é a comida que os pingüins comem. Sei que os telefones costumavam tocar a campainha, mas hoje em dia soltam sons estridentes quando alguém liga. Sei que Essendon ganhou a Grande Final de 1993. Sei que aqui está uma mão, e aqui está outra. Temos todo o tipo de conhecimento comum, e temo-lo em abundância. Duvidar disso seria absurdo. Ou pelo menos duvidar disso de modo sério e permanente seria absurdo; e mesmo duvidar filosófica e temporariamente, sob a influência de argumentos, é mais do que um pouco de excentricidade. É um fato mooriano que sabemos muito.
O que é uma lei da natureza?
A. J. AyerNum certo sentido, sabemos suficientemente bem o que comumente se quer dizer com “lei da natureza”. Podemos dar exemplos. São ou acredita-se que sejam leis da natureza: que a órbita de um planeta em torno do Sol seja elíptica; que o arsênico seja venenoso; que a intensidade de uma sensação seja proporcional ao logaritmo do estímulo; que haja 303 000 000 000 000 000 000 000 moléculas em um grama de hidrogênio. E não são leis da natureza: que a soma dos ângulos de um triângulo euclidiano seja 180°, embora isso seja necessariamente verdadeiro; que todos os presidentes da terceira República Francesa tenham sido homens, embora esse seja à sua maneira um fato legal...
Deliberação e decisão racional
Faustino VazPodemos ter razões de tipos diferentes para agir desta ou daquela maneira. São essas razões que influenciam a escolha das acções. Mas nem sempre é fácil escolher a acção apropriada. De facto, por vezes as razões são complexas, de tipos diferentes e pesam a favor de acções contrárias. Não há um método para determinar qual delas tem mais peso nos diversos casos. E também não é possível saber com segurança em que casos as razões morais podem ser suplantadas por outros tipos de razões. Na falta de um método, temos então de pensar arduamente antes de agir. Ao pensamento que considera e avalia razões práticas chamamos “deliberação.”
Bom ensino com maus programas?
Aires AlmeidaAo contrário do que muitas pessoas pensam, as questões centrais da educação não têm merecido grande atenção da comunicação social. A verdade é que nem a avaliação dos professores nem a violência nas escolas são as questões centrais. Estas são, certamente, matérias importantes e merecem alguma atenção. Só que nem a regulação das carreiras profissionais nem a resolução das disfunções sociais deveriam constituir as principais atribuições do ministro da educação. Mesmo que não se possam nem se devam evitar, o ministério da educação não existe primariamente para tratar de questões profissionais dos seus trabalhadores nem para tratar de problemas sociais emergentes.