24 de Novembro de 2003 ⋅ Filosofia da mente

Corpo-mente: nova fase

Leônidas Hegenberg
Instituto Brasileiro de Filosofia

Preâmbulo (A caminho)

1. Há vinte anos, preparei comentário destinado a examinar várias correntes que, naquela época, focalizavam, por diversos prismas, o problema corpo-mente. O comentário foi tema de palestra realizada em Atibaia (SP), em reunião da Sociedade Brasileira de Psicobiologia (SBP).

A SBP não preparou Anais do conclave. Meu comentário foi divulgado pela Revista Brasileira de Filosofia (n. 131, julho 1983, p. 271-293). Usei, ali, para as seções do trabalho, títulos "musicais" — andante, molto agitato, etc.

2. De 1982 até há pouco, não tive maiores contatos com as investigações que inundaram as revistas especializadas, atestando que a questão continuava (e continua) a empolgar estudiosos e leigos, em muitos centros de pesquisas em várias partes do mundo.

3. Abriu-se, agora, oportunidade para voltar à "mansão corpo-mente". Importa acentuar que ali não ingressarei na condição de conhecedor, mas apenas como leitor (mais ou menos) assíduo que tenta reunir idéias para uso próprio — esperando que também sirvam a outros. As anotações gravitam em torno de autores cujas obras têm sido freqüentemente comentadas.

4. Tem-se dito que real compreensão do tema depende de conhecimentos relativos ao "maquinário biológico" que permite à mente o "desempenho de suas funções". É possível. Acredito que conhecer o sistema nervoso central seja necessário (e de grande utilidade) — sem ser suficiente para conhecer a mente. Mal comparando, quem não sabe para que serve uma câmara fotográfica não fica em situação melhor se lhe fornecermos informes a respeito de distâncias focais, lentes, velocidades dos filmes e quejandos. O que importa, na verdade, é dizer algo acerca do que a câmara faz. Esse pensamento me permite invadir a área em foco — mesmo permanecendo em terrenos filosóficos e sem conhecer biologia. Aos que não concordarem, posso apenas solicitar que perdoem minha ousadia.

Recapitulação (Recordando visita anterior)

1. Excetuando um ou outro pensador, era praticamente unânime, até o início do século XX, a opinião (claramente exposta por Descartes) de que a mente difere da matéria e de que conhecemos melhor nossa mente do que nosso corpo. Subjacente, ficava o problema teórico de saber de que maneira o ser humano poderia conhecer os corpos físicos "exteriores" à mente.

2. Por volta de 1930, com o positivismo lógico, certas mudanças ocorreram. O critério de probidade científica passou a assentar-se na verificabilidade intersubjetiva. Se o estudo da mente almejava merecer o respeito de cientistas, precisava submeter-se a condições de verificabilidade, publicamente e fisicamente testáveis. Essas condições, naturalmente, deveriam ser comportamentais. A não ser pelos gestos, grunhidos e manifestações "públicas", de que outro modo seria possível saber da dor de dentes das pessoas? A não ser ouvindo suas palavras, de que outro modo poderei eu saber de sua crença de que melancia com leite faz mal? O Behaviorismo tomou conta do cenário.

3. Não foram poucos os estudiosos que tentaram apontar defeitos no Behaviorismo, lembrando que há um "resíduo", isto é, há certos estados mentais conscientes que não mantêm claras relações com os comportamentos. A par disso, tornou-se patente que duas pessoas podem diferir psicologicamente, embora seus comportamentos se revelem similares. [Entre os estudos recentes que discutem o "resíduo", ver, p. ex., U. T. Place, ("Is consciousness a brain process?", British Journal of Psychology, 1956). Entre os que apontam diferenças psicológicas, ver, p. ex., K. K. Campbell (Body and mind, 1984). Campbell aventou a hipótese de que uma criatura poderia exibir todas as comuns relações estímulo-resposta e, mesmo assim, não ter vida mental.]

4. Em resumo, na metade do século XX, idéias a respeito da questão corpo-mente eram discutidas por Dualistas, Behavioristas e Descrentes. J. J. C. Smart ("Sensations and brain processes", Philosophical Review, 1959) formulou proposta inovadora, contrariando behavioristas e dualistas. Contra behavioristas, afirmou que alguns estados e eventos mentais são genuinamente "interiores" e genuinamente episódicos e não podem ser equiparados a comportamentos observáveis. Contra dualistas, asseverou que os itens mentais não são "fantasmas" (não-físicos) — são fenômenos neurofisiológicos. Ao transformar eventos mentais em eventos físicos, formulando, pois, uma teoria da Identidade, Smart evitou objeções de Dualistas e, ainda, "acolheu" o interno e episódico de um modo que o behaviorismo não conseguia acomodar.

H. Putnam ("Minds and machines", in Dimensions of mind, ed. por S. Hook, 1960) e J. Fodor (Psychological explanation,1968) ressaltaram que a teoria da Identidade podia ser acolhida para explicar cada "token" (ocorrência específica) de evento mental, mas necessitava de corretivos a fim de abranger os "tipos" (generalidade dos "tokens") desses eventos. Em outras palavras, uma específica dor de dentes pode ser vista como especial estado do cérebro, mas a dor de dentes (genericamente contemplada) deve ser comparada a "papéis funcionais" descritos por algumas relações causais. Nasceu, assim, o Funcionalismo. De acordo com Putnam, estados mentais se comparam a estados funcionais de um computador. Assim como um programa de computador se realiza em variadas configurações de "hardware", também um "programa" psicológico se realiza em variados organismos. Por conseguinte, diferentes estados fisiológicos de organismos de diferentes espécies podem realizar um mesmo estado mental (como "tipo").

Escorço histórico (No hall)

1. Cogitações em torno da mente nasceram com a filosofia. Aristóteles e Platão formularam teorias a respeito da natureza e dos tipos de psique. Descartes, Hume e Kant também formularam teorias a respeito da mente. A hodierna filosofia da mente não tem data certa de nascimento. Surgiu no fim do século XIX e começo do século XX. Seu desenvolvimento pode ser atribuído a três acontecimentos notáveis. (1) A publicação (1874) de Psychologie vom empirischen Standpunkt, de Franz Brentano; (2) a psicologia científica, inaugurada por Wilhelm Wundt (1879); (3) a divulgação (1890) dos Principles of psychology, de William James.

1.1 Vale a pena registrar que Brentano retoma, de Aristóteles e S. Tomás de Aquino, a noção de intencionalidade — do latim intendo, significando algo como "aponta para, ou se orienta para". Brentano acentuou que crenças, desejos, expectativas (estados mentais típicos) "apontam ou se orientam" para um objeto (intencional). Depois disso, ficou mais ou menos estabelecido que esse algo seria o objeto da crença (do desejo, da expectativa). [Posteriormente, ficaria mais claro, também, o que entender por conteúdo da crença (do desejo, da expectativa). Ver adiante.]

2. Novo momento da história do problema corpo-mente ocorre na primeira metade do século XX. Várias teorias são formuladas, adotando mui diversos enfoques. Talvez caiba dizer que Rudolph Carnap e John Dewey se colocaram como dois importantes marcos no estudo da mente. Carnap se preocupa com a metafísica da mente. Dewey, com os relatos psicológicos em primeira ou terceira pessoa. Os dois enfoques (metafísica e asserções a respeito da mente) se reúnem nos trabalhos de Gilbert Ryle (The concept of mind, 1949). Para Ryle, em perspectiva lógico-behaviorista, nada há de misterioso nas afirmações relativas a desejos, crenças, expectativas. Na medida em que tenham significado, essas afirmações dizem respeito a "disposições do organismo, orientando as ações de certos modos" — exatamente como o termo 'solubilidade' diz respeito à "disposição que uma substância manifesta ao ser colocada em um líquido".

3. Em seguida, visando refutar idéias de Descartes, os estudiosos propuseram várias alternativas que dariam origem a três correntes principais: (1) materialismo reducionista (ou teoria da identidade); (2) eliminismo; (3) funcionalismo.

3.1. Defensores da "teoria da identidade" afirmaram que termos como 'crer', 'amar', 'desejar', etc., se mostrariam sinônimos de termos relativos a estados neurais. Em outras palavras, asseveraram que as propriedades mentais seriam "reduzíveis" a propriedades físicas.

3.2. Advogados do eliminismo admitiram que a neurociência afastaria os termos mentais de nosso discurso — tal qual a ciência havia afastado termos como 'flogisto' ou 'efluvios magnéticos'.

3.3. Funcionalistas, por sua vez, imaginaram que entidades mentais não seriam físicas, mas "funcionais" — definidas em termos de papéis causais com respeito a "estímulos" sensórios e "respostas" comportamentais. Entretanto, esses papéis causais nunca se puseram claros.

3.4. A decadência do behaviorismo redundou em rejuvenescimento das noções filosóficas e psicológicas da "consciência". Alguns autores acreditam que a consciência poderá ser cientificamente explicada. Outros, ao contrário, imaginam que a subjetividade da consciência impede seu exame científico. O fato, porém, é que não se sabe exatamente o que significaria um "entendimento científico da consciência" — e os debates prosseguem.

4. Eliminismo, identidade e funcionalismo entraram em choque e, em seguida, entre 1960 e 1990, tiveram de enfrentar a nova tendência manifestada pela ciência cognitiva — um curioso amálgama interdisciplinar, envolvendo lógica, psicologia, neurologia, computação, lingüística, inteligência artificial, filosofia...

Aspectos do debate atual (Na sala de jantar)

1. Cognitivismo
No âmbito da psicologia, o Behaviorismo foi substituído pelo Cognitivismo. Em termos gerais, o Cognitivismo sustenta que (1) para explicar o comportamento, psicólogos devem dar atenção a estados e episódios "interiores", contanto que tais estados e episódios sejam concebidos como fenômenos físicos; (2) os seres humanos devem ser encarados como sistemas que processam informações. A psicologia cognitiva concentra-se em torno de uma questão fundamental: De que modo este organismo recolhe informações, via órgãos dos sentidos, processa e armazena essas informações e as utiliza para produzir comportamento inteligente?

Durante algum tempo, permaneceu vaga a noção de "processamento de informações" (trazida, por empréstimo, dos estudos de comunicação, com instrumentos físicos — telefone, rádio). Nos anos 1960-1970, a noção ganhou contornos mais definidos. Passou a indicar a idéia de que os organismos utilizam representações internas e realizam operações (de cunho computacional) sobre essas representações Desse modo, a cognição transformou-se em uma questão de manipulação (governada por algumas regras) de representações.

O Cognitivismo está "afinado" com o Funcionalismo, pois, nos dois casos, os seres humanos são vistos como sistemas de componentes funcionais interligados, capazes de interação eficiente e produtiva. Entre os cognitivistas atuantes cabe mencionar N. A. Stillings (Cognitive science, 1987) e D. N. Osherson (An invitation to cognitive science, 1995).

2. IA (Inteligência artificial).
Estudiosos de computação focalizaram a idéia de comportamento inteligente visto como resultado de prévia e hábil "introjetação" de processamento de informações.

A chamada IA pode ser (sumariamente) descrita como projeto de fazer com que as máquinas realizem tarefas usualmente encaradas como tarefas que exigem inteligência e julgamento (humanos).

Os computadores alcançaram êxitos notáveis — por exemplo, demonstração de teoremas; orientação de mísseis; separação de correspondência; diagnóstico médico; robótica. O computador é, na verdade, máquina que recebe, interpreta, processa, armazena, manipula e utiliza informações. Os avanços na IA podem ser atribuídos, pois, à adoção desse paradigma do processamento de informações. Isso, por seu turno, reforça a idéia de que a inteligência e a cognição se enquadram na moldura do processamento de informações.

A IA abrange, pois, dois temas básicos: (1) até que ponto os computadores se aproximam das mentes e (2) até que ponto as mentes se aproximam dos computadores?

Autores que se destacaram nos campos da IA seriam, entre outros, Z. W. Pylyshyn (Computaion and cogbition, 1984); J. Haughland (Artificial intelligence: the very Idea, 1985 e Mind design II, philosophy, psychology, artificial intelligence, 1997); P. Johnson-Laird, The computer and the mind, 1988).

3. Instrumentalismo.
3.1. Lembremos que um instrumentalista (relativamente a itens X) é o estudioso que (1) admite verdadeiras certas sentenças a respeito dos itens X (2) não admite que tais sentenças descrevam entidades de algum tipo especial (3) admite que tais sentenças se prestam para sistematizar fenômenos familiares.

[Usando exemplo fictício, somos instrumentalistas acerca do professor universitário brasileiro "médio" — branco, do sexo masculino, meia idade, pai de 1,9 filhos, autor de 0,3 livros e de 2,6 comunicações para congressos.]

3.2. Lembremos, ainda, o que são as "atitudes proposicionais". Adotemos, como ponto de partida, certas idéias de G. Frege (comentadas em seu célebre artigo de 1892, "Über Sinn und Bedeutung"). Sumariando, o pensamento é o sentido de uma sentença completa. As sentenças admitem um de dois valores-verdade (verdade e falsidade).

Alguns filósofos acreditam indispensável (para explicar crença, expectativa, desejo, etc.) criar uma "entidade intermediária" — a proposição, — colocada entre a sentença e a realidade que a torna verdadeira ou falsa.

Isso posto, considere-se a sentença "Nicolau acredita que as várias errôneas interpretações dos escritos de Frege devem ser substituídas por nova interpretação." Esta sentença é vista de modo que a cláusula "que as várias errôneas interpretações dos escritos de Frege devem ser substituídas por nova interpretação" seja uma proposição — diante da qual Nicolau se mantém em certa atitude mental (no caso, a atitude de crer).

3.3. Daniel Dennett vem advogando o instrumentalismo com respeito às "atitudes proposicionais" [desejos, crenças, intenções, recordações, dúvidas, pensamentos, cogitações (wonderings)]. Para ele, atribuir (a uma pessoa) um "desejo", uma "crença", ou uma "dúvida", não equivale a descrever alguma realidade física, mas se equipara a um movimentar de peças, em um ábaco. Acerca dessas idéias, ver as críticas formuladas por S. Stich (From folk psychology to cognitive science, 1983) a réplica de Dennett (The intentional stance, 1987) e novo posicionamento "moderado" de Dennett ("Real patterns", na antologia Mind and cognition, organizada por W. G. Lycan, 1999). Lycan também descreve de modo apropriado o instrumentalismo dennettiano ("Dennett's instrumentalism", Behavioral and Brain Sciences, 1988.)

4. Eliminismo
4.1 Dennett nega que as atitudes proposicionais (crer, desejar, etc.) sejam estados causais internos reais (das pessoas). Admite, no entanto, que atribuições de crenças, desejos, etc. são objetivamente verdadeiras. Alguns filósofos, porém, levando a extremos as críticas de Dennett, advogaram a idéia de que atribuições mentais são simplesmente falsas. Esses filósofos defendem, em suma, o que se poderia chamar de Eliminismo.

4.2 Paul Feyerabend ("Mental events and the brain", Journal of Philosophy, 1963) foi o primeiro a declarar, abertamente, que a "psicologia folclórica" nada capta da realidade física e que atribuições mentais são falsas. Seu modo "agressivo" de exprimir-se, porém, não lhe trouxe adeptos.

4.3 O Eliminismo voltou a ser advogado, com muita ênfase, por Paul Churchland ("Eliminative materialism and the propositional attitudes", in Mind and cognition, org. por W. Lycan, 1999). Lembra ele que a "folk psychology" deve ser abandonada, tal qual, no passado, se abandonou a alquimia. Patricia Churchland também descarta a "folk psychology" e se concentra em estudos neurofisiológicos. Advoga, em suma, uma linha de pesquisa que foi batizada com o nome de "Conectionism". (Ver, p. ex., Neurophilosophy, 1986; e, ainda, o vol. 28 da revista Cognition, 1988, dedicada ao "conectionism").

5.Língua do pensamento (Language of thought)
5.1 Brentano desenvolveu suas idéias a respeito de fenômenos mentais (postos em uma "consciência interior") usando a noção de intencionalidade. Recordemos que o termo 'intencionalidade' significaria, em resumo, "dirigir-se (referir-se) a um objeto". Subjacente parece estar a idéia de que, ao pensar, pensa-se acerca de algo (mesmo que esse algo seja imaginário). Em outras palavras, o pensamento se volta para um dado objeto. Para certos estudiosos (p. ex. W. Seager, Theories of consciousness, 1999), os "estados intencionais seriam comparáveis a "estados de representação". De fato, o sentido em que minha crença em que o papagaio tem penas verdes se refere a papagaio está próximo do sentido em que minha crença representa o papagaio.

5.2 Cabe notar que traços representativos, ou intencionais, são traços semânticos. É difícil, naturalmente, encarar expectativas e desejos como verdadeiros ou falsos. As crenças, porém, podem ser (subsidiariamente) vistas como verdadeiras ou falsas e, a par disso, acarretam outras crenças. Aparentemente, as crenças se compõem de conceitos e dependem, quanto à verdade, de um "acordo" entre suas estruturas internas e a realidade. O "acerca de", no caso das crenças, pode ser entendido, portanto, em termos de referência. Em suma, cabe notar que pensamentos e crenças são verdadeiros ou falsos exatamente como as sentenças são verdadeiras ou falsas. Tudo isso gerou a hipótese de que existe uma "língua do pensamento" ("language of thought"), idéia defendida, digamos, por J. Fodor (em várias obras), K. Sterelny (The representational theory of mind, 1990) e W. Lycan ("A deductive aregument for the representational theory of thinking", in Mind and language, 1993).

5.3 Contra essa lingagem do pensamento se manifestaram, há tempos, D. Dennett, Patrícia e Paul Churchland e, mais recentemente, R. Stalnaker ("Mental content and linguistic form", in Philosophical studies, 1990).

6. A Psicologia popular (Folk psychology)
6.1 De acordo com o Eliminismo, os termos e as entidades mentais seriam itens descartáveis do discurso corpo-mente. Nos anos 60 do século XX, autores como W. Sellars, P. Feyerabend e W, van O. Quine começaram a defender a idéia de que os termos mentais nada mais seriam do que termos teóricos destinados a sistematizar conhecimentos oriundos de pesquisas na esfera da psicologia. A. Morton (Frames of mind, 1980) colocou essa idéia no que denominou The "theory" theory — a "teoria" da teoria. O enfoque proposto por Sellars, Feyerabend e Quine, depois de um período de "espanto", passou a ser amplamente aceito.

6.2 Para efeitos de discussão, imaginemos atribuir conteúdo representacional aos estados internos dos computadores — como fazemos, na vida real, dizendo que nosso computador "fez isso ou pensou aquilo" ou, no mínimo, "computou isso ou computou aquilo" (por exemplo, a nota mínima de aprovação em um exame vestibular, ou as chances de vitória de um dado candidato a certo cargo eletivo). De acordo com J. Fodor ("Methodological solipsism considered as a researh strategy in cognitive psychology", Brain and behavioral sciences, 1980), é perfeitamente viável que dois computadores, programados por diferentes usuários, visando a propósitos diversos, caminhem em paralelo. Isso quer dizer que a computação efetuada não se determina apenas mediante operações físicas ou funcionais realizadas "dentro" da máquina. Aquilo que a máquina calcula depende, pelo menos em parte, de algo "exterior" à máquina — como intenções de usuários, interpretações de observadores ou simplesmente conveniência de manipuladores.

6.3 Hoje, essas noções não parecem surpreendentes. Por analogia, não surpreende supor que aquilo que acontece com os computadores, também acontece com os seres humanos. Dois seres humanos poderiam ser "iguais", molécula-por-molécula, mas diferir quanto a crenças e desejos, em função de seus "ambientes" espaciais e temporais. (Notar que J. Searle faz restrições a essa idéia em Intentionality: an essay in the philosophy of mind, 1983).

6.4 Meditando a respeito do que se tem escrito, relativamente às relações e interações corpo-mente, talvez caiba dizer que ainda giramos em torno do externalismo e internalismo. Os dois termos estiveram em voga nos vinte anos finais do século XX, na área da epistemologia, ingressando, em seguida, nos terrenos da filosofia da mente.

Segundo L. Bonjour, da Washington University (Companion to epistemology, Blackwell, 1982), os estudiosos de epistemologia usavam os termos 'externalismo' e 'internalismo' não lhes dando significação clara. Mesmo com as caracterizações meio vagas, os termos ingressaram, em seguida, no contexto dos conteúdos de crenças e pensamentos. Vamos a um par de pormenores.

6.4.1 No contexto da teoria do conhecimento: De acordo com o internalismo, as crenças básicas de uma pessoa (usadas para justificar seus conhecimentos) fazem parte de estados mentais imediatamente percebidos pela pessoa. Externalistas não aceitam essa idéia, notando que são muito complicadas as inferências que (talvez) conduzam das crenças básicas ao conhecimento. Como os internalistas não conseguiram afastar as objeções levantadas pelo ceticismo (em matéria de conhecimento) e como tais objeções têm sido afastadas pelos externalistas, é natural que o externalismo ganhasse preferência.

6.4.2. No contexto do pensamento: Na área do pensamento, os termos 'internalismo' e 'externalismo' estão associados à maneira pela qual ficam determinados os conteúdos de pensamentos e crenças. De acordo com a perspectiva internalista, o conteúdo desses estados intencionais depende apenas de propriedades internas da mente ou do cérebro do indivíduo — não depende de propriedades do ambiente físico e do ambiente social em que o indivíduo se encontre. De acordo com a perspectiva externalista, porém, o conteúdo é indiscutivelmente afetado por esses ambientes. [Note-se que ao defender uma simultânea influência de fatores internos e externos, adota-se, ainda, a perspectiva externalista.]

6.4.3. Achega terminológica: Acompanhando J. Fodor (The elm and the expert, MIT, 1995), lembremos certas distinções que encantam os puristas.

(1) Atomismo e holismo: Atomistas dizem que uma pessoa pode pensar, digamos, em peixes, sem pensar em outra coisa qualquer. Cada pensamento é (ou pode ser) atômico. Holistas (= estruturalistas, na lingüística), ao contrário, dizem que o conteúdo de um pensamento só poderia ser caracterizado por meio de sua posição em um "sistema de crenças".

(2) Teorias estreitas e teorias amplas. Cabe observar que a semântica (na esfera da informação) se associa, no seio da literatura filosófica, não apenas à idéia de que as propriedades semânticas sejam externalistas, mas, ainda, à idéia de que sejam — como se usa dizer — amplas (broad). Adversários diriam que as propriedades semânticas são estreitas (narrow). Resumidamente, os adeptos da corrente ampla afirmam que as propriedades semânticas fundamentais são verdade e denotação. Adeptos da corrente estreita não se puseram em acordo quanto às propriedades semânticas fundamentais.

É certo que as dicotomias atomismo-holismo, externalismo-internalismo e broad-narrow são de interesse para os especialistas. Aqui, no entanto, as diferenças serão ignoradas e os termos poderão ser utilizados como se fossem "sinônimos".

6.4.4. Como de esperar, concepções tradicionais da mente, sob a influência de Descartes e seus continuadores, tenderam a mostrar-se fortemente internalistas. Os avanços da teoria da linguagem provocaram certo desvio, no sentido das concepções externalistas. Nas discussões atuais, é comum admitir propriedades "estreitas", determinadas pela composição física intrínseca do ser em tela, assim como propriedades "amplas", independentes, em parte, dessa composição. Fixar e caracterizar as condições ambientais é, precisamente, um dos principais problemas para o qual se tem voltado a psicosemântica. (Ver, p. ex., J. Fodor, Psychosemantics, 1987, bem como B. Loewer & G. Rey, editores, Meaning and mind: Fodor and his critics, 1991.)

Principais pesquisadores (Na cozinha)

1. Do exposto, percebe-se que o problema corpo-mente continua em aberto, com alguns aspectos aprofundados e numerosíssimas facetas inexploradas. O leitor que pretende ingressar nesse terreno poderá valer-se, via internet, dos sítios de alguns autores muito atuantes. Apresento, a seguir, para orientação de interessados, os nomes dos autores mais freqüentemente citados em livros e artigos que abordam a questão corpo-mente. [Cumpre sublinhar que meus contatos com o assunto se mantiveram no âmbito da produção em língua inglesa, com pequena incursão em textos franceses. Pela tendenciosidade, peço desculpas antecipadas.]

2. Tomando como "ponto de partida" o que dizem pesquisadores norte-americanos (nos EUA o tema está em efervescência), cabe examinar, por exemplo, as obras de William G. Lycan (North Carolina), as de Güven Gülzedere e Owen Flanagan (ambos da Duke University) e, talvez, as de John Heil (também de North Carolina).

2.1 Lycan cita 17 autores "preferenciais", ou mais comentados. Ei-los, em ordem alfabética: D. M. Armstrong, N. J. Block, T. Burge, P. M. Churchland, P. S. Churchland, D. Davidson, D. C. Dennett, F. I. Dretske, J. A. Fodor, J. Kim, W. G. Lycan, R. E. Nisbett, H. Putnam, Z. Pylyshyn, W. V. O. Quine, D. E. Rumelhart, e S. P. Stich.

2.2 Gülzedere e Flanagan também citam três ou quatro desses nomes. Entretanto, suas preferências recaem em vários outros autores, de que 14 recebem especial destaque: B. Baars, F. Crick, M. Farah, M. S. Gazzaniga, P. N. Johnson-Laird, M. Kinsbourne, M. Koch, B. Libet, A. J. Marcel, T. Nagel, G. Rey, D. Schacter, J. Searle e A. W. Young.

2.3 Heil, por sua vez, cita alguns desses autores (os Churchland, Davidson, Fodor, e Quine) mas dá maior ênfase a D. Chalmers, G. Haugeland, D. Lewis, C. B. Martin, G. Ryle, S. Shoemaker — destacando, de modo especial, os escritos de J. Searle.

3. Na Inglaterra, Susan Haack não deixa de mencionar os Churchland, Davidson, Fodor, Putnam e Quine, mas focaliza outros estudiosos — L. Bonjour, A. I. Goldman, R. H. Maturana, R. Rorty (alvo de muitas críticas) e J. W. N. Watkins. Note-se que Haack dá certo destaque a W. P. Alston, defensor da "percepção mística" vista como fonte de crenças aceitáveis.

4. Partindo das referências de M. Bunge, que trabalha há muitos anos na McGill University (no Canadá), nota-se que suas preferências são diversas. Ele também cita Fodor, Gazzaniga, Johnson-Laird e Schacter. Dá especial realce, porém, a muitos autores que não são apontados pelos demais pesquisadores preocupados com o problema corpo-mente. Entre eles, D. O. Hebb, D. H. Hubel, K. S. Lashley, A. R. Luria, M. Mishkin, V. B. Mountcastle, J. Piaget, B. F. Skinner, E. C. Tolman, E. Tulving, L. S. Vygotsky, e L. Weiskrantz.

5. A Stanford Encyclopedia of Philosophy, em preparo (examinada via internet) tem vários artigos que abordam a questão corpo-mente (e questões conexas). Os autores mais citados, em diversos locais, são N. Block, P. M. Churchland e P. S. Chuchland, A. Clark, D. Davidson, D. Dennett, J. Fodor, S. M. Kosslyn, W. Lycan, Ruth G. Milikan, G. Rey, P. Smolenski.

5.1 Aparecem, ainda, com certa freqüência, os nomes de D. Chalmers, R. Cummins, M. Davies, B. P. McLaughlin, J. Perry, H. Pylyshyn, D. E. Rumelhart, J. Searle, R. N. Shepard, K. Sterelny, S. Stich, N. J. T. Thomas, M. Tye, T. Van Gelden.

6. David Chalmers começou seu estudos na Austrália e se radicou, depois, nos EUA. Examina o assunto há vários anos. Escreveu diversos livros e organizou excelente bibliografia com milhares de referências. [Ver www.u.arizona.edu./~chalmers/people.html].

7. Autores franceses não estiveram sob meus olhos, de modo regular. Examinando, porém, algumas obras recentes de Filosofia da Ciência [(1) Philosophie et psychologie, de Paul Engel; (2) Lês philosophes et la science, organizada por Pierre Wagner; e (3) os dois volumes de Philosophie des sciences, escrito por Daniel Andler (matemático), Anne Fagot-Largeault (filosofia da biologia) e Bertrand Saint-Germain (teoria do conhecimento)], nota-se que o problema corpo-mente também está na ordem do dia nos centros de estudo da França. Ali, como de esperar, os "clássicos" são freqüentemente mencionados, sobretudo os dois Churchland, Davidson, Dennett, Fodor, Gülzedere, Haugelend, Hebb, Johnson-Laird, Putnam, Quine, Searle, Stich, Rey, e Wittgenstein. As "novidades", nessas obras, seriam M. Berthelot, J. V. Boussignesq, J. Bouveresse, Anne Fagot-Largeault, A. Goldman, C. McGinn.

8. No Brasil também há vários estudiosos que se interessam pelo problema corpo-mente. Tomando como referência as Atas do IX Encontro Nacional de Filosofia, preparadas em 2000, pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF), nota-se que o Grupo de Trabalho em Filosofia da Mente reuniu 18 contribuições. Dois centros de estudos se destacam: a UNESP de Marília (nove trabalhos) e a UFPB (quatro). A título de curiosidade, notar que os estudos foram realizados, equilibradamente, por mulheres (oito) e homens (dez).

8.1 Vejamos as preocupações de nossos estudiosos. Em Marília, Carmen B. Milidoni; Maria Eunice Q. Gonzáles; Mariana C. Broens; e Sônia R. Morais, falam de externalismo-internalismo. [Sônia fala de J. J. Gibson, autor preocupado com percepção, poucas vezes mencionado pelos especialistas, mais lembrado por Jerry Fodor.] Ainda em Marília, Márcia A. N. Pereira considera Searle; Patrícia C. Sita retoma temas de Brentano; Elias H. Alves comenta aspectos lógico-lingüísticos do problema corpo-mente; Antonio T. M. Arruda examina o externalismo; Max R. Vicentini focaliza consciência em animais (irracionais).

8.2 Na Paraíba, André Leclerc discute aspectos do externalismo; Carlos A. de Souza volta-se para questões de causalidade; as idéias de Searle aparecem como objeto de atenção de José A. P. da Silveira e de Samir C. de Souza.

8.3 Completando o quadro, notar que Vera Vidal (FIOCRUZ) focaliza Quine; Paula M. Martins (Estadual Norte Fluminense) concentra-se em Davidson; Renato Schaeffer (Juiz de Fora) estuda percepção e causação; Alfredo Pereira Jr (UNESP, Botucatu) discute externalismo-internalismo; e Michael B. Wrigley (UNICAMP) se dedica a Wittgenstein.

À guisa de encerramento (De volta ao portão)

1. Está clara a multiplicidade de interesses e fica explícita a existência de muitas divergências entre estudiosos do problema corpo-mente. Soluções, ao que parece, ainda tardarão a manifestar-se. Endossando as palavras de T. Nagel (cf. o artigo "The mind wins", New York Review of Books, 4 de março de 1993), dir-se-ia que "... a solution to the mind-body problem is nowhere in sight."

Adotando atitude menos pessimista, também vale comentar o que diz R. Audy (Epistemology, Routledge, 1998, cap. 8). Imaginemos o conhecimento como um registro da verdade, tal como o termômetro registra a temperatura. O conhecimento, nessa perspectiva, resulta de exitoso funcionamento de nosso "equipamento epistêmico", ou seja, de aparelhos muito bem "calibrados" — perceptuais, memorizadores, introspectivos e racionais. Esse modo de ver coaduna-se muito bem com a idéia de que somos criaturas biológicas dotadas de receptores (que captam informações) e de capacidades mentais (que manipulam essas informações). Quer dizer, "naturalizamos o conhecimento", ou seja, analisamo-lo usando os conceitos que as ciências da natureza (física, química, biologia, psicologia.) empregam para entender as coisas.

2. Chegou o momento de colocar um ponto final nestes comentários. Parece-me que o conhecimento pode ser convenientemente caracterizado como "crença verdadeira, não contestada e adequadamente justificada".

Dando o retoque final ao quadro, imagino que uma crença está justificada se colocada em adequados alicerces. Que alicerces seriam estes? Tal qual no caso do conhecimento, penso que uma crença é aceitável (admissível) se tem alicerces em dados perceptuais, dados da memória, dados introspectivos e dados racionais. Entretanto, creio que também é preciso levar em conta os dados testemunhais e, de maneira decisiva, os dados resultantes de inferências.

Em suma, estudos visando a um melhor entendimento das questões ligadas ao problema corpo-mente podem partir de visão internalista da justificação e externalista do conhecimento. Complementando as idéias ligadas a conhecimento e justificação, será preciso ver de que modo uma crença (constitutiva de conhecimento) pode ser vista como "verdadeira" (ou "falsa"). E será preciso manter certa dose de holismo, assegurando a coerência do conjunto das crenças — para mantê-las sobre bases experimentais e racionais.

Leônidas Hegenberg
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