O Que é a Arte?
6 de Março de 2004 ⋅ Estética

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Desidério Murcho
O Que é a Arte?, de Nigel Warburton
Tradução de Célia Teixeira
Revisão científica de Desidério Murcho
Bizâncio, Outubro de 2007, 186 pp.
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O desenvolvimento da arte no séc. XX tornou grave um problema filosófico antigo que se enuncia com cinco palavras: O que é a arte? A diversificação das manifestações artísticas deitou por terra as teorias clássicas de Platão e Aristóteles. Entretanto, depois de um longo interregno, a filosofia da arte floresceu como nunca, nos últimos vinte ou trinta anos, saindo do esquecimento em que esteve mergulhada. Apesar de estarem já publicados entre nós duas boas obras de introdução à filosofia da arte (Introdução à Estética, de Dabney Townsend e Filosofia das Artes, de Gordon Graham, ambos nas Edições 70, e o segundo com tradução de Carlos Leone), esta continua a ser uma área quase desconhecida quer do grande público quer de professores e estudantes de filosofia. E, no entanto, pode ser uma das áreas da filosofia mais estimulantes para o público leito que tem uma imagem falsa da filosofia.

Nigel Warburton é já conhecido do público português, estando publicados entre nós dois dos seus livros: Elementos Básicos de Filosofia, na Gradiva, e Grandes Livros de Filosofia, nas Edições 70. Quem conhece o autor, professor de filosofia na Open University, Milton Keynes (Reino Unido), sabe que é de esperar uma grande simplicidade de redacção e uma boa organização conceptual. O Que é a Arte? não desilude. Os cinco capítulos apresentam os principais problemas, teorias e argumentos da filosofia da arte, depois de uma breve introdução. O primeiro capítulo é dedicado à teoria da arte como forma significante; o segundo, à teoria da arte como expressão; o terceiro, à teoria das parecenças de família; o quarto, à teoria institucionalista; e o último capítulo faz um balanço geral da discussão. Sempre com simplicidade e rigor, com paixão e imparcialidade, o autor guia-nos pelos meandros das teorias, objecções, respostas às objecções e refinamento de teorias que constituem o núcleo da vida intelectual em qualquer área.

Há três aspectos que marcam a diferença entre este livro e as restantes obras introdutórias à filosofia da arte. Por um lado, o texto do autor é extraordinariamente elementar e acessível; é o grau zero, por assim dizer, da simplificação sem cair na caricatura. Por outro, o autor apresenta com muito cuidado as ideias dos filósofos estudados, citando por vezes as passagens centrais desses autores. Por fim — e este é o aspecto que torna este livrinho mais apetecível — o autor apresenta 12 reproduções coloridas e 7 a preto-e-branco de obras de arte que ilustram os aspectos discutidos. A filosofia da arte torna-se assim real e não uma mera elucubração obscura que não tem a ver com nada. Afinal, como afirma o autor,

"A filosofia é o envolvimento crítico com ideias usando palavras. Requer o uso de argumento e contra-argumento, exemplo e contra-exemplo. Os filósofos não se limitam a exprimir o que pensam; justificam o que pensam com dados e argumentos. Raciocinam, definem e clarificam. Sobretudo, interessa-lhes a verdade, procurando sempre ir além das aparências. Procuram apresentar as suas posições com uma clareza e rigor que permita que sejam colocados em causa e talvez criticados. A filosofia não é, pois, uma questão de proclamações e gestos, mas de ideias fundamentadas e defendidas por meio de argumentos até à conclusão. Apesar disso, pode ser apaixonada e viva. Não tem de ser um mero logicismo vazio" (p. 3-4).

Na área da filosofia da arte, este livro dá uma imagem acessível mas fidedigna do que é o debate filosófico de ideias.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (6 de Setembro de 2003)
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