Philosophy of Science
26 de Fevereiro de 2005 ⋅ Filosofia da ciência

Saber pensar sobre a ciência

Desidério Murcho
Philosophy of Science: A Very Short Introduction,de Samir Okasha
Oxford: Oxford University Press, 2002, 154 pp., £6.99
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No que respeita a livros introdutórios e de divulgação, há uma profusão de livros bons que valia a pena traduzir. Mas dos muitos livros introdutórios bons destacam-se de vez em quando alguns, pela força da sua lucidez e inteligência, organização e profundidade sem ademanes pseudo-académicos. É o caso deste pequeno livro. Com apenas 150 páginas, é seguramente o melhor ponto de partida para quem estiver interessado na filosofia da ciência. O que se destaca neste livro é a força crítica do autor, que nenhuma pedra deixa por virar. Muitos livros introdutórios são pouco críticos, limitando-se a apresentar os problemas, teorias e argumentos centrais da área, como se fossem elementos dogmáticos para repetir sem pensar. O leitor mais exigente fica muitas vezes insatisfeito, e com razão, por conceber imediatamente objecções e contra-exemplos que não encontram eco no texto do autor, mais interessado em repetir apenas as ideias canónicas. Nada disto acontece num bom livro, como é o caso deste: cada objecção que o leitor inteligente levanta intuitivamente ao ler um parágrafo é discutida no parágrafo seguinte. Os problemas, teorias e argumentos analisados apresentam assim uma vivacidade, lucidez e inteligência verdadeiramente impressionantes.

Com sete capítulos, o livro abrange alguns dos temas centrais da filosofia da ciência: o problema da demarcação, o problema da indução, a noção de explicação científica, o debate sobre o realismo e anti-realismo científicos e o problema do progresso científico, entre outros. O livro termina com um breve capítulo sobre a chamada "guerra das ciências", apresentando-se no penúltimo um pequeno conjunto de problemas específicos das áreas mais especializadas da filosofia da ciência (a filosofia da física, da biologia e da linguística). O leitor fica assim com uma excelente visão abrangente de diferentes áreas centrais da filosofia da ciência.

As ideias dos principais filósofos da área surgem como hipóteses interessantes que vale a pena discutir criticamente, mas que não podem ser admitidas como verdades dogmáticas — como tantas vezes se faz com as ideias de Kuhn, por exemplo, como se este filósofo tivesse "demonstrado" que há realmente paradigmas ou que a incomensurabilidade entre teorias é um facto. Entre os filósofos cujas ideias são estudadas, contam-se Kuhn e Popper, Lakatos, Hume e van Fraassen, Leibniz e muitos outros. Contudo, a organização do livro é inteiramente conceptual. Isto é, não se tem aquela sensação pavloviana que tantas vezes desagrada em livros menos bons: agora vem o problema da demarcação e portanto Popper; agora vem o problema do progresso científico e portanto Kuhn; agora vem o problema da indução e portanto Hume... e assim sucessivamente, numa espécie de desfile de filósofos digno de um sketch dos Monthy Python. Neste livro, pelo contrário, Okasha (doutorado pela Universidade de Oxford e professor na Universidade de Bristol) dá vida aos problemas, e as respostas dos diferentes filósofos surgem não como arbitrariedades históricas que urge estudar só porque sim, mas antes como respostas que ocorreriam naturalmente a qualquer pessoa reflectida que se confrontasse seriamente com os problemas em causa.

Dadas as necessidades do ensino nesta área, tanto universitário como do secundário, esta é uma obra obrigatória, cuja tradução é verdadeiramente urgente.

Desidério Murcho

Nota: A Crítica tem publicada uma útil Bibliografia seleccionada de filosofia da ciência, da autoria de Samir Okasha e Ward E. Jones.

Publicado no jornal Público (16 de Outubro de 2004)
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