A Philosophical Guide to Conditionals
13 de Julho de 2010 ⋅ Filosofia da linguagem

Filosofia e condicionais

Matheus Silva
A Philosophical Guide to Conditionals, de Jonathan Bennett
Nova Iorque: Oxford University Press, 2003, 408 pp.
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As frases condicionais são objeto de pesquisa não só em filosofia, mas também em psicologia e linguística. A bibliografia sobre o tema é densa, por vezes muito técnica e contém hipóteses contra-intuitivas, como a negação de que o modus ponens seja uma forma argumentativa válida. Atualmente, este é o único livro que abrange e analisa toda a discussão filosófica recente sobre as condicionais e pode ser considerado um guia de referência para o especialista e um manual para os que pretendem começar a participar da discussão atual. É um livro exigente e trará algumas dificuldades para alunos de graduação, mas não conheço outro ponto de partida melhor para quem se interessar pelo tema: para estudar as condicionais é preciso dominar conceitos que abrangem da metafísica dos mundos possíveis e das proposições à pragmática da conversação e à lógica probabilística. É por isso que as teorias das condicionais são classificadas em filosofia como uma subárea não apenas da filosofia da linguagem, como também da filosofia da lógica e da lógica filosófica.

Jonathan Bennett tem feito contribuições interessantes para as teorias das condicionais há vários anos e possui uma escrita clara, quase casual. Os inúmeros problemas são abordados da maneira lúcida, com exemplos claros e sem tecnicismos indevidos. Bennett toma partido em todos os problemas, mas sem deixar de apontar de maneira imparcial as soluções alternativas existentes.

O livro começa (capítulo 1) com uma discussão sobre como caracterizar as condicionais: uma tentativa seria considerá-las frases com a forma proposicional “Se P, então Q”, sendo P a antecedente (ou prótese) e Q a consequente (ou apódose). Essa caracterização não é inteiramente adequada, pois há condicionais que contêm “Se”, mas não “então”: “Se ele ligar, diga-lhe que saí”, “Se chover, o jogo será cancelado”, “Se te encostares a mim, grito”. Há também condicionais que não apresentam na sua estrutura nem mesmo o “Se” nem o “então”: “Um passo em falso e eu atiro”, “Sem Hitler, sem bomba atômica”, “A menos que você fale com o reitor, terá problemas” e “Consigo aqui, não me sentiria sozinho”. E por fim há frases com “Se”, mas que não parecem condicionais no sentido lógico do termo: “Quem me dera se ela me deixasse beijá-la!”, “Se me permite, você é linda”, “Há biscoitos sobre a mesa, se estiver com fome”. Bennett oferece uma caracterização semelhante e embora tenha os mesmos problemas é o melhor que podemos esperar como ponto de partida para abordar o problema.

Outro ponto importante do primeiro capítulo é a divisão que Bennett faz das condicionais em indicativas e subjuntivas: nas condicionais subjuntivas a frase que expressa a consequente tem a palavra inglesa would como auxiliar do verbo principal. Como em português, neste contexto, não usamos auxiliares para conjugar os verbos, conjugando-os directamente, podemos interpretar este critério da seguinte forma: nas condicionais subjuntivas, a frase que expressa a consequente tem o verbo principal no futuro do pretérito (verbo + -ia: estaria, faria, etc.) Um exemplo de condicional subjuntiva é “Se Oswald não tivesse matado Kennedy, alguém o teria feito”. Estas condicionais também são comumente denominadas contrafactuais: o nome se deve ao fato de as aceitarmos quando a antecedente é falsa (contrária ao fato). As condicionais restantes são as indicativas, frases como “Se a Ágata não preparou o jantar, preparou-o a Fernanda”.

Esta classificação tem vários problemas, pois podemos encontrar em português casos de condicionais indicativas que estão no futuro do subjuntivo como “Se o Gilberto estiver vigiando os vizinhos, eles ficarão irritados”. A mesma discrepância parece surgir também noutras línguas que, tal como o português, ao invés de usar auxiliares verbais, conjugam os verbos. Isso é uma dificuldade adicional, pois ao estudar o tema temos de tomar o cuidado de fazer adaptações que captam o uso correto da língua. Mas como todas as outras terminologias adotadas na bibliografia também enfrentam dificuldades, Bennett não pode ser criticado por sua escolha.

Do capítulo 2 ao 9 o tema é a condicional indicativa. Bennett apresenta as teorias da equivalência de Grice e Jackson, a hipótese de Adams acerca da assertividade das condicionais, o teste de Ramsey, a hipótese de que a probabilidade das condicionais é medida por sua probabilidade condicional, os impasses de Gibbard, os atos de fala condicionais, as condicionais do biscoito, a validade das formas argumentativas envolvendo condicionais, os encaixes de condicionais e a noção de validade probabilística desenvolvida por Adams. A posição de Bennett é que as condicionais indicativas não exprimem proposições e apenas em algumas circunstâncias possuem valores de verdade: quando a antecedente é verdadeira e a consequente falsa, a condicional é falsa, e quando a antecedente acarreta logicamente, causalmente ou moralmente a consequente, a condicional é verdadeira.

Porque estudo as teorias da equivalência, dei mais atenção aos capítulos 2 e 3, que tratam desse tema. Os teóricos da equivalência defendem que as condições de verdade das condicionais indicativas são equivalentes às da condicional material da lógica clássica. A defesa pragmática dessa teoria é que as aparentes discrepâncias entre as condições de verdade da condicional material e das condicionais indicativas se devem a elementos pragmáticos presentes na conversação. As duas referências na bibliografia são a defesa de Grice, que explica essas discrepâncias por meio das implicaturas conversacionais, e a solução de Jackson, que explica essas discrepâncias por meio das implicaturas convencionais e da robustez.

Bennett apresenta e recusa essas defesas da equivalência de uma maneira apressada e superficial: apresenta algumas boas objeções, mas ignora de maneira indesculpável inúmeras respostas interessantes. De um modo geral, revela um desprezo pela discussão de teorias que tenho visto com freqüência, sobretudo quando se trata de filósofos que não trabalham com condicionais e consideram uma obviedade que a condicional material não tenha as mesmas condições de verdade das indicativas. Isso seria apenas mais uma idéia preconcebida que carece de argumentação, se esses mesmos filósofos não fizessem vista grossa ou torcessem o nariz toda vez que se fala na inadequação da lógica clássica em decorrência da inadequação da própria condicional material. Deveria ser óbvio que não é possível defender de maneira coerente que a condicional material é inadequada e que a lógica clássica é adequada: isto é como querer comer o bolo e ficar com ele.

Do capítulo 10 ao 21, Bennett examina as condicionais subjuntivas. Há dois grandes grupos de teorias que pretendem explicar as condicionais subjuntivas: as teorias de suporte (ou metalingüísticas) e as teorias de mundos possíveis. As teorias de suporte geralmente possuem a seguinte forma: a condicional subjuntiva é verdadeira se, e só se, há uma proposição verdadeira de suporte satisfazendo certas restrições tais que a consequente é acarretada pela conjunção da antecedente com as proposições de suporte e as leis causais do mundo atual. Entre os defensores desse primeiro grupo se destacam Goodman, Chisholm, Pollock e Parry. As teorias de mundos possíveis possuem a seguinte forma comum: a condicional é verdadeira se, e só se, nos mundos mais semelhantes ao mundo atual em que a antecedente é verdadeira são também mundos em que a consequente é verdadeira. Entre os defensores mais importantes desse segundo grupo estão Lewis, Stalnaker, Davis e o próprio Bennett.

Estes capítulos são os mais difíceis do livro, mas também os mais informativos. Bennett apresenta a metafísica dos mundos possíveis (realismo, ficcionalismo e representacionalismo), critérios para determinar a similaridade entre mundos possíveis, mundos possíveis que violam as leis causais do mundo atual (milagres), avaliação das bifurcações e rampas das antecedentes para comparar os mundos possíveis, correntes causais, condicionais retrocedentes, condicionais prospectivas, condicionais poderia, assimetria do tempo, falsidades contra-entrópicas, direção explanatória causal, a assimetria do tempo, condicionais causalmente necessárias, o princípio do terceiro condicional excluído, o problema causal contrapositivo e o problema da limpeza lógica.

No capítulo 20, Bennett apresenta uma teoria sobre as diferentes bases utilizadas para explicar as condicionais e por meio dessa teoria ataca a proposta de reclassificação das condicionais, apresentada por Vic Dudman. No capítulo 21, o último do livro, Bennett examina as teorias em forma de Y: teorias que propõem uma explicação unificada das condicionais indicativas e subjuntivas numa única base. Apresenta e recusa as teorias unificadoras de Davis, Stalnaker, Ellis e Edgington.

Apesar de o livro ter um índice adequado, não tem glossário, o que facilitaria a vida dos alunos de graduação. Outra falha é a total ausência das inúmeras pesquisas psicológicas e linguísticas acerca das condicionais. Esta última, contudo, é compreensível: Bennett teria de fazer no mínimo mais dois volumes para incluir tanta informação. De qualquer modo, essas pequenas falhas não devem desencorajar o leitor: uma leitura atenta deste livro e das suas constantes indicações bibliográficas é garantia de uma formação sólida para a compreensão das condicionais.

Matheus Silva
mateusmasi@gmail.com

Universidade Federal de Minas Gerais
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