26 de Setembro de 2010   Filosofia

Com o estudante em mente

Desidério Murcho
Dicionário de Filosofia
dir. de Thomas Mautner
Direcção da edição portuguesa de Desidério Murcho
Tradução de Vítor Guerreiro, Sérgio Miranda e Desidério Murcho
Lisboa e S. Paulo: Edições 70, 2010, 784 pp.

Escrever boas obras de consulta é uma arte difícil. Há uma tensão natural entre a precisão e concisão das definições, caracterizações e explicações, por um lado, e a quantidade de informação fidedigna que o artigo consegue transmitir ao leitor. A primeira má solução é a extrema precisão conseguida à custa da inteligibilidade para o leitor a quem a obra, ironicamente, se dirige. É assim que em alguns casos vemos definir, por exemplo, a noção lógica de par ordenado do seguinte modo: “é um n-tuplo ordenado no qual n = 2”. Como é evidente, quem não sabe o que é um par ordenado ainda menos sabe o que é um n-tuplo ordenado, e o autor de uma definição destas só pode ser alguém que com toda a probabilidade nem sequer compreende bem as palavras que se limitou a copiar de um lado qualquer. A segunda má solução, oposta à primeira, é esgotar o espaço disponível com informação acessível mas lateral e irrelevante relativamente ao que constitui os aspectos centrais do que se está a definir, caracterizar ou explicar. Deste modo, o leitor fica com uma ideia distorcida das coisas.

Viver para quê?

Esta obra dirigida por Mautner é um modelo de um bom dicionário de filosofia. Ao longo de anos de repetidas consultas (a primeira edição inglesa é de 1996) tem-se revelado uma excelente obra de referência rápida, pela precisão e grau de informação dos seus artigos. De dimensão média, não é tão pequeno como o dicionário de filosofia de Lacey (Routledge), por exemplo, nem tão grande e pouco manejável como o dicionário de filosofia da Cambridge. Além disso, os autores têm o seu público-alvo (estudantes e o grande público) sempre em mente. Com uma linguagem directa e acessível, cada artigo oferece informação precisa e preciosa, incluindo até informação sobre a pronúncia dos nomes menos familiares que constituem o património da filosofia.

Este dicionário abrange apenas o chamado pensamento ocidental (que inclui o pensamento islâmico medieval), excluindo por isso, ao contrário do Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn (Gradiva), o pensamento chinês, indiano, etc. Redigido por vários autores, contempla pequenas definições de apenas algumas linhas, artigos de dimensão média (uma coluna) e artigos mais longos (algumas páginas). Uma das características que o tornam único é o facto de alguns dos artigos que descrevem as ideias de filósofos contemporâneos terem sido escritos pelos próprios filósofos — “auto-retratos”, como lhe chama o organizador. Por vezes, estes auto-retratos são surpreendentes, como é o caso do de Rorty, que não atribui a si próprio o tipo de ideias extravagantes que o tornaram famoso.

O dicionário é particularmente esclarecedor em áreas que costumam ser muitíssimo maltratadas por autores obscuros e explicações pretensiosas que nada explicam. Os artigos dedicados à hermenêutica e a Jean-Paul Sartre, por exemplo, são muitíssimo directos, claros e informativos. Igualmente de destacar é o artigo sobre Locke, que revela com imensa precisão um autor muito mais sofisticado do que por vezes se pensa.

Este é um dos mais completos dicionários de filosofia em língua portuguesa, e certamente um dos mais úteis para estudantes, professores e outras pessoas interessadas em filosofia. De enorme abrangência e com artigos de fundo bastante completos, além dos artigos curtos sobre temas ou autores não tão centrais, é sempre informativo e preciso. Mas o que o distingue de outros dicionários aproximadamente da mesma dimensão é ter em conta as dificuldades de quem é novo na filosofia, ao mesmo tempo que oferece informações interessantes mesmo para quem já conhece bem a área.

Além da mencionada ajuda fonética, para quem não sabe como se pronunciam alguns nomes estrangeiros mais exóticos, inclui o alfabeto grego, os símbolos da lógica e uma bibliografia actualizada. A presente edição foi adaptada e por vezes ligeiramente corrigida, com a anuência de Thomas Mautner, para os leitores de língua portuguesa.

Desidério Murcho