Kant's Theory of Knowledge
28 de Dezembro de 2011 ⋅ Epistemologia

Analisando Kant

Pedro Merlussi
Universidade Federal de Ouro Preto
Kant's Theory of Knowledge: An Analytical Introduction, de Georges Dicker
Nova York: Oxford University Press, 2004, 262 pp.
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A filosofia analítica tem contribuído substancialmente para as discussões filosóficas atuais. E os avanços alcançados pelos filósofos analíticos não se encontram apenas nos problemas filosóficos discutidos contemporaneamente, mas também na história da filosofia. Este livro é um claro exemplo disso; como o próprio nome indica, é uma introdução realmente analítica à epistemologia de Kant, que dá primazia aos problemas com os quais o filósofo alemão lidou, seus principais argumentos e, evidentemente, suas principais objeções. O nível de sofisticação do livro de Dicker é incomparavelmente superior aos livros de introdução a Kant que não levam em consideração os avanços alcançados pelos filósofos analíticos nos últimos anos. Este livro é mais um indício a favor da tese de que conhecer a filosofia analítica é fundamental para se fazer boa história da filosofia.

Para se ter uma idéia do que estou falando, façamos uma comparação de duas definições do termo “a priori”, uma do livro de Dicker, e outra do Dicionário Kant de Howard Caygill. Começarei pela definição de Caygill:

“A distinção entre a priori e a posteriori no século anterior a Kant era usada para distinguir entre modos de demonstração lógica [...]. De um modo geral, ainda era usada nesse sentido por Wolff e Baumgarten em meados do século XVIII, e foi esse o uso criticado por Hume no Tratado da natureza humana (1739). Kant ampliou consideravelmente a discussão em CRP, onde a noção de a priori desempenha um papel fundamental. Ao que os dois termos se referiam tradicionalmente a formas de demonstração e, de maneira adicional, na escola wolffiana, às espécies de conhecimento adquirido nessas demonstrações, Kant ampliou-lhes o âmbito para além das espécies de conhecimento, quando passaram a incluir também, primeiro, os juízos e depois, de um modo mais significativo, os próprios elementos do conhecimento (intuições e conceitos)” (Howard Caygill, Dicionário Kant, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000, p. 35).

Como se vê, Caygill bombardeia o leitor com informações históricas, mas é incapaz de definir com rigor e precisão o termo “a priori”; ao invés, diz que Kant “ampliou o âmbito” do termo para incluir juízos, intuições e conceitos. Contudo, o próprio Kant não utilizou os termos “intuição” e “conceito” para definir “a priori” na introdução da Crítica da Razão Pura (cf. CRP B 2). Além disso, seria desejável, após definir um termo, que o autor apresentasse alguns exemplos, mas Caygill não apresenta um exemplo sequer, o que pode levar a pensar que tem apenas uma idéia vaga do que procura definir. Considere, em contrapartida, a definição de Dicker:

“A distinção a priori/a posteriori é uma essencialmente epistêmica; pertence a dois tipos diferentes de conhecimento. De acordo com o uso mais comum desses termos, “a priori” significa “conhecido anteriormente à experiência”, ou melhor (visto que a aprioricidade em questão não significa antecedência temporal), “conhecido independentemente da experiência” [...].

Aceitando que p representa qualquer juízo ou proposição, podemos definir o termo “a priori” como se segue:

D1: p é a priori =def p pode ser conhecido independentemente da experiência.

Por exemplo, as afirmações “1 + 1 = 2” e “Ninguém pode ser pai de si mesmo” são classificadas como a priori porque a verdade delas pode ser conhecida independentemente da experiência; ninguém precisa fazer quaisquer observações ou realizar quaisquer experimentos para saber que essas afirmações são verdadeiras.” (p. 7)

O autor cumpre o dever de casa ao afirmar explicitamente que a distinção em causa é epistêmica, sendo acerca de tipos de conhecimento, o que em Caygill está dito apenas de maneira implícita. Além disso, define “a priori” por meio de condições necessárias e suficientes e oferece exemplos de conhecimento a priori, o que, como afirmei, o autor de Dicionário Kant também não fez. Este é apenas um exemplo da notável diferença de qualidade do livro de Dicker, quando comparado com os outros livros de introdução à filosofia de Kant.

O livro inclui nove capítulos nos quais se apresenta com muita clareza as principais teses em teoria do conhecimento defendidas por Kant. O primeiro capítulo é uma introdução tanto ao contexto filosófico em que Kant se encontrava quanto aos conceitos principais apresentados na introdução da Crítica da Razão Pura. Dicker apresenta primeiramente as relações de Kant com o racionalismo e o empirismo, e depois prossegue o capítulo explicando as distinções introduzidas por Kant na introdução da Crítica entre os pares conceituais a priori/a posteriori e analítico/sintético. No que se segue, destacarei apenas alguns aspectos das explicações oferecidas por Dicker desses conceitos.

Como elogiei acima a definição de Dicker do termo “a priori”, não poderia deixar de mencionar alguns pontos em que faltou rigor e precisão. Por exemplo, para que sejamos mais rigorosos, acrescentaríamos no definiendum a priori” a cláusula “p é conhecível”, pois uma proposição, por si mesma, não é a priori; o que é a priori é o modo como conhecemos (ou justificamos nossa crença) numa proposição. Dicker também afirma que as afirmações “1 + 1 = 2” e “Ninguém pode ser pai de si mesmo” podem ser conhecidas a priori. Mas, a rigor, é defensável que apenas as proposições expressas por essas afirmações são conhecíveis a priori, porque o conhecimento proposicional é acerca de proposições e não de afirmações. Os mesmos problemas que apresentei ao “a priori” levantam-se igualmente à definição de Dicker do termo “a posteriori”. Apesar desses pequenos deslizes, o autor prossegue com boas explicações dos termos “a priori” e “a posteriori”, que demonstram que o autor domina as discussões em filosofia contemporânea.

O capítulo prossegue com uma explicação do par conceitual analítico/sintético. Trata-se aqui de uma distinção traçada por Kant entre tipos de afirmações ou proposições. Kant utiliza em sua definição o termo “juízo” e, segundo o filósofo, um juízo é analítico quando o predicado está contido no sujeito (cf. CRP B 10). Um juízo é uma afirmação da forma “S é P”, contendo um sujeito, um predicado e uma cópula. Kant oferece como exemplo de juízo analítico “Todos os corpos são extensos”, pois o predicado “extenso”, segundo o filósofo, está já incluído no sujeito “corpo”. Dicker está ciente da deficiência da definição apresentada por Kant. Em primeiro lugar, nem todas as afirmações são da forma “S é P”; por exemplo, as afirmações “Chove” e “Neva” não têm a estrutura sujeito-predicado. Além disso, a noção de “estar contido em” da definição de Kant, como notou Quine, é metafórica. Assim, Dicker oferece a definição corrente do conceito de proposição analítica (embora controversa): uma proposição é analítica se, e só se, é verdadeira em virtude do significado de seus termos constituintes (p. 10). Um exemplo canônico de uma proposição analítica é a expressa pela frase “Nenhum solteiro é casado”. Já as proposições sintéticas são proposições não analíticas; por exemplo, as proposições expressas pelas frases “A neve é branca” e “O céu é azul” são sintéticas.

Após explicar os pares conceituais a priori/a posteriori e analítico/sintético, Dicker termina o capítulo com uma apresentação da estrutura geral da Crítica da Razão Pura.

No segundo capítulo o autor apresenta os argumentos da Estética Transcendental. Ele nota que o objetivo principal da Estética Transcendental consiste em mostrar como são possíveis juízos sintéticos a priori na matemática. A expressão “mostrar como são possíveis” é aqui muito importante, pois Kant já havia afirmado, na Introdução da Crítica, que os juízos da matemática são sintéticos a priori. Considere, para dar o exemplo de Kant, a frase “a distância mais curta entre dois pontos é uma linha reta”. Segundo Kant, conhecemos a proposição expressa por essa frase a priori, pois ela é conhecida independentemente da experiência. Além do mais, a proposição expressa pela frase “a distância mais curta entre dois pontos é uma linha reta”, segundo Kant, não é analítica, pois o predicado “linha reta” não está contido no sujeito “a distância mais curta entre dois pontos”. Portanto, temos, de acordo com Kant, um caso paradigmático de uma proposição da geometria que é conhecida a priori e ao mesmo tempo é sintética. Porém, o que explica isso? Por outras palavras, temos algo a ser explicado, designadamente o explanandum de que os juízos da matemática são sintéticos a priori. Mas qual será o seu explanans? A resposta de Kant, afirma Dicker, consistirá em mostrar que o que explica o caráter sintético a priori da geometria é o espaço. Assim, Dicker prossegue o capítulo formulando e discutindo os quatro argumentos de Kant a favor da tese de que o espaço é uma intuição a priori; todos os argumentos, vale a notar, são formulados por Dicker na forma canônica. Porém, um ponto negativo neste capítulo é que o autor não apresenta os argumentos a favor da tese de que o tempo é uma intuição a priori, pois será o tempo que explicará o caráter sintético a priori da aritmética.

O capítulo 3 contém uma excelente explicação da tábua dos juízos, da tábua das categorias e expõe os argumentos de Kant a favor da validade objetiva das categorias de quantidade e qualidade, bem como a dedução de Kant das categorias de modalidade. (Com a infeliz expressão “validade objetiva” Kant não se refere literalmente à validade no sentido filosófico do termo mas antes ao que seria mais adequado chamar “aplicabilidade”.) Dicker mostra que uma condição suficiente para se argumentar a favor da validade objetiva das categorias é mostrar que o princípio a elas associado é sintético a priori. Desse modo, o capítulo 3 já discute a seção intitulada “Axiomas da intuição”, onde Kant pretende provar a validade objetiva das categorias de quantidade, a seção intitulada “Antecipações da percepção”, onde o filósofo alemão procura provar a validade objetiva das categorias de qualidade, e finalmente, a seção intitulada “Postulados do pensamento empírico”. O autor não apresenta neste capítulo os argumentos na seção intitulada “Analogias da Experiência” porque dedicará um capítulo para cada argumento desta seção.

Para se ter uma idéia clara do importante trabalho analítico feito por Dicker, consideremos o argumento de Kant que procura provar a validade objetiva das categorias de quantidade. Como se disse, uma condição suficiente para provar a validade objetiva das categorias é mostrar que o princípio a elas associado é sintético a priori. Kant pensa que o princípio associado às categorias de quantidade é que “Todos os fenômenos são, em sua intuição, grandezas extensivas” (CRP A 162). E a definição de Kant do conceito de grandeza extensiva é esta: “entendo por grandeza extensiva quando a representação das partes tornam possível, e portanto necessariamente precedem, a representação do todo” (CRP A 162/ B 203). Os extensos parágrafos de Kant que procuram provar esse princípio são formulados por Dicker num simples argumento (p. 62):

  1. O espaço e o tempo são grandezas extensivas.
  2. Todos os fenômenos intuídos o são no espaço e no tempo.
  3. Logo, todos os fenômenos intuídos são grandezas extensivas.

Dicker explica cuidadosamente as duas premissas do argumento, confronta-as com objeções, e conclui que não seria muito irrazoável pensar que Kant provou a validade objetiva das categorias de quantidade.

Nos capítulos 4 e 5 o autor oferece sua própria interpretação da dedução transcendental das categorias de Kant. A dedução transcendental das categorias, como alguns autores costumam enfatizar, é uma das passagens mais difíceis da Crítica da Razão Pura. No entanto, ao estudar os capítulos 4 e 5 do livro de Dicker, o leitor provavelmente não considerará a dedução transcendental de Kant tão difícil assim. Dicker oferece uma reconstrução dessa difícil parte da Crítica que começa na seção intitulada “A dedução dos conceitos puros do entendimento” e continua nas duas primeiras analogias da experiência (em que Kant procurará provar a validade objetiva das categorias de substância e causalidade). Nos capítulos 4 e 5, Dicker oferece uma reconstrução de um argumento de Kant que pretende nos persuadir a aceitar a seguinte tese condicional: se a experiência é possível, então as categorias têm validade objetiva.

Nos capítulos 6, 7 8, o autor apresenta os argumentos a favor da validade objetiva das categorias de relação, apresentados por Kant na seção intitulada “Analogias da experiência”. Como afirmei, Dicker dedica um capítulo para cada argumento apresentado nas Analogias da Experiência. Portanto, dedica um capítulo ao argumento a favor da validade objetiva da categoria de substância (capítulo 6), outro a favor da validade objetiva da categoria de causalidade (capítulo 7) e, finalmente, um capítulo a favor da validade objetiva da categoria de comunidade (capítulo 8). O autor não só apresenta os argumentos de Kant, como também avalia a cogência de cada um deles.

O último capítulo do livro é sobre o argumento de Kant apresentado na Refutação do Idealismo Empírico. Nesta seção da Crítica, Kant procura refutar o que chamou de “idealismo problemático”, cujo principal proponente seria Descartes. Dicker formula o argumento de Kant contra Descartes e conclui que, pelo menos tal como exposto na Crítica, o argumento é falacioso. Contudo, o autor prossegue com sua interpretação demasiadamente caridosa e oferece uma formulação mais sofisticada do argumento de Kant pautada em seus escritos tardios. Após este último capítulo, o livro ainda apresenta um apêndice muito informativo sobre o capítulo do esquematismo da Crítica da Razão Pura.

O livro de Dicker é a melhor introdução que conheço à epistemologia de Kant. Os principais argumentos são formulados pelo autor explicitamente, e os principais conceitos usados por Kant são apresentados de maneira muito clara. Além disso, Dicker é notavelmente caridoso com as formulações das teses e argumentos de Kant; algumas formulações de argumentos são tão sofisticadas que podem levar o leitor a imaginar que o próprio Kant não tinha pensado naquilo. Este livro é leitura mais que recomendada para os interessados em história da filosofia da melhor qualidade.

Pedro Merlussi
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