Lápis, de Mark Aplet
28 de Março de 2011 ⋅ Opinião

Conviver com as diferenças

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

No séc. XX, a filosofia conheceu uma divisão lamentável, que dá infelizmente origem a um ambiente doentio em algumas universidades: a divisão entre a chamada “filosofia analítica” e a chamada “filosofia continental.” As próprias designações são polémicas e encaradas como ofensivas, sobretudo a última, em algumas universidades — mas não em todas, pois em muitos casos aceita-se que se trata de designações convencionais, algo vagas, mas suficientemente informativas para valer a pena usá-las: daí que existam livros das melhores editoras académicas com a expressão “filosofia continental” ou “filosofia analítica” no título, que estão longe de pretender ofender ou denegrir qualquer destas formas de fazer filosofia. E em muitos departamentos de filosofia de países com sólidas tradições académicas nesta área publicita-se as competências mais relevantes do seu corpo docente referindo a filosofia continental.

Parece-me uma boa ideia considerar ofensivo seja o que for que alguém encare como ofensivo, e por esta razão evito usar a expressão “filosofia continental”: se alguém faz o que objectivamente é filosofia continental mas se sente ofendido com a designação, tem o direito de não lhe ser aplicado tal rótulo. Do mesmo modo, eu tenho o direito de não aceitar o rótulo de “lógico,” dado que a minha área da especialidade é a metafísica, e não a lógica. (Aliás, a lógica é hoje uma disciplina especializada que só faz sentido ser feita por quem tem formação matemática; é preciso não confundir a lógica usada instrumentalmente para fazer filosofia, com a lógica enquanto objecto de desenvolvimento e investigação; e também não se deve confundir a filosofia da lógica, que é uma área da filosofia insusceptível de ser adequadamente feita por quem não tiver uma sólida formação filosófica, com qualquer das duas coisas anteriores.)

Em qualquer caso, ainda que a expressão “filosofia continental” seja vista, com toda a legitimidade, como ofensiva, a expressão em si não foi introduzida para ofender nem é usada tipicamente para ofender. Suspeito que o sentimento de ofensa perante a expressão “filosofia continental” se relaciona com a dificuldade em conviver com as diferenças, que é o tema destas linhas. Não sei se a minha especulação tem razão de ser, mas pela minha experiência parece-me que durante décadas se fingiu que a única filosofia existente era a que se conhecia, sendo a única que se conhecia a que pertencia a um conjunto muitíssimo reduzido de referências bibliográficas. Daí o desconhecimento da tradição britânica da história da filosofia, por exemplo, que é poderosíssima desde há séculos — e que nada tem a ver com a filosofia analítica — ignorando-se assim os historiadores e comentadores dos mais importantes clássicos. F. M. Cornford (1874-1943), classicista e poeta, David Ross (1877-1971), tradutor e especialista de Aristóteles, e W. K. C. Guthrie (1906-1981), autor da monumental história da filosofia grega em seis volumes, são apenas três casos de importantes historiadores da filosofia que são sistematicamente ignorados em muitas universidades de língua portuguesa, apesar de não se encontrar neles um pingo de filosofia analítica — ao contrário do que acontece com historiadores anglófonos da filosofia mais recentes, como Anthony Kenny, Christopher Shields ou Terence Irwin, que têm geralmente formação analítica. A rejeição da filosofia analítica poderia levar a rejeitar estes últimos, mas a rejeição dos primeiros explica-se melhor com a minha especulação: uma dieta bibliográfica muitíssimo restrita, que faz questão de ignorar as diferenças. Parece-me compreensível que, numa circunstância destas, seja ofensivo aparecer alguém que declara que tal universo bibliográfico é apenas uma pequena parte da bibliografia académica relevante efectivamente existente, chamando-lhe, além disso, “continental,” um termo cuja origem muitas pessoas desconhecem.

A expressão “continental” faz parte da gíria usada nas ilhas britânicas para referir, de modo rigorosamente não ofensivo e puramente descritivo, o continente europeu. É comum nas ilhas britânicas falar de “pequeno-almoço continental,” por exemplo, que é diferente do tradicional (e pouco saudável!) pequeno-almoço inglês. Também nas ilhas portuguesas da Madeira e dos Açores se fala do continente, querendo com isso falar, descritiva e não ofensivamente, de Portugal continental. Assim, a expressão “filosofia continental” começa por ser uma forma não ofensiva de os britânicos referirem formas de filosofia maioritariamente praticadas no continente europeu.

Na verdade, historicamente, a filosofia continental antecede o aparecimento da filosofia analítica. Mesmo no auge do idealismo britânico — cujos filósofos mais influentes, T. H. Green (1836-1882), F. H. Bradley (1846-1924), J. M. E. McTaggart (1866-1925) e R. G. Collingwood (1889-1943), precisamente por serem britânicos, são desconhecidos em muitas universidades de língua portuguesa — já a filosofia que se fazia no continente europeu era muitíssimo diferente do que se fazia nas ilhas britânicas e nos EUA. Todos os filósofos que referi eram hegelianos, mas Bradley e McTaggart escreviam, argumentavam e teorizavam de um modo muitíssimo diferente dos seus contemporâneos do continente europeu, como Søren Kierkegaard (1813-1855) ou Friedrich Nietzsche (1844-1900). Também a filosofia norte-americana não analítica era bastante diferente da filosofia continental, sendo igualmente desconhecida nas universidades de língua portuguesa: Charles S. Peirce (1839-1914), William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952) são inexistentes famosos em muitos currículos de filosofia de universidades de língua portuguesa.

Uma dieta bibliográfica pouco saudável, porque muitíssimo restrita, está também na origem de muitas caracterizações factualmente incorrectas da filosofia analítica e da filosofia continental. Quando se tem em mente apenas Martin Heidegger ou Jacques Derrida, fala-se da obscuridade da filosofia continental por oposição à clareza da filosofia analítica; mas Friedrich Nietzsche e Henri Bergson são filósofos continentais que escrevem geralmente com clareza, ao passo que muitos filósofos analíticos são muitíssimo obscuros, como Christopher Peacocke ou John McDowell. Quando se tem em mente Gottlob Frege ou Ludwig Wittgenstein, afirma-se que a filosofia analítica se caracteriza por pôr a linguagem no centro da reflexão, mas essa centralidade não existe nos analíticos Bertrand Russell, G. E. Moore ou Thomas Nagel, ao passo que existe claramente nos continentais Jacques Derrida, Gilles Deleuze ou Julia Kristeva. Quando se tem em mente apenas o Círculo de Viena e o positivismo lógico, que é apenas uma das muitas correntes, entretanto desaparecida, da filosofia analítica, declara-se que esta é antimetafísica, apesar dos muitos trabalhos de metafísica publicados desde o tempo de Bertrand Russell — e apesar das invectivas de muitos filósofos continentais contra a metafísica, como Nietzsche, e do abandono continental dos problemas metafísicos tradicionais, como o problema dos universais, a identidade dos objectos ao longo do tempo, o livre-arbítrio ou a natureza do tempo, temas amplamente tratados na bibliografia analítica dos últimos quarenta anos. Outra caricatura comum é declarar que a filosofia analítica é de direita, apesar de Bertrand Russell ser socialista, de Peter Singer ser um igualitarista radical que se doutorou em Marx e Hegel, de John Stuart Mill ter sido um dos primeiros reformadores sociais europeus a defender explicitamente o ensino universal e a igualdade das mulheres, ideais tradicionais da esquerda, e de a filosofia política mais influente na filosofia analítica, a de John Rawls, ser fortemente igualitarista, implicando, para ser aplicada, uma reforma brutal da economia norte-americana — ao passo que o aristocrático pensamento político inexplícito de Martin Heidegger e Friedrich Nietzsche, se não é claramente da direita mais radical, pelo menos não é explicitamente de esquerda. Quem declara que a filosofia analítica é tecnicista, sugerindo que a continental “tem a ver com a vida,” mostra ignorar a bibliografia analítica sobre o sentido da vida, por exemplo, em que se destacam Thomas Nagel, Susan Wolf, Kurt Baier e David Wiggins, entre muitos outros, assim como a imensa bibliografia sobre ética aplicada, em que se inclui os trabalhos de Peter Singer ou Jonathan Glover — ao passo que uma parte substancial do trabalho de Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Edmund Husserl nada “tem a ver com a vida,” exibindo um tecnicismo incompreensível para quem não os estudou aturadamente durante anos. Finalmente, ao mesmo tempo que se critica o alegado desprezo dos filósofos analíticos pela história da filosofia (talvez por não mencionarem constantemente nomes da história da filosofia, o que nos leva a pensar que René Descartes, Immanuel Kant ou Søren Kierkegaard, neste aspecto, eram analíticos) encara-se como normal a prática de filósofos como Heidegger, Deleuze, Nietzsche ou Michel Foucault, que fazem afirmações gerais muitíssimo depreciativas de toda a filosofia ou metafísica “ocidental,” ou de toda a cultura da “modernidade,” rejeitando-a em bloco para a substituírem por outra coisa que julgam mais adequada — ao passo que o trabalho filosófico historicamente informado, e a insistência na centralidade da história da filosofia, de Martha Nussbaum, Terence Irvin, Bernard Williams, Galen Strawson, Sir Anthony Kenny e tantos outros é desconhecido.

Estes exemplos mostram o papel desempenhado pelo desconhecimento bibliográfico nas representações incorrectas que se faz por vezes da filosofia, seja analítica ou não. A própria história da filosofia anterior à infeliz cisão é vítima do mesmo desinteresse bibliográfico que faz as pessoas ignorar a bibliografia que os seus pares também ignoram: quando se fala de filosofia da antiguidade grega ignora-se quase sempre a filosofia helenística (os estóicos, epicuristas e cépticos), e a caricatura que se faz dos pré-socráticos, de Platão e de Aristóteles é de fazer corar qualquer aluno de graduação que tenha sido adequadamente formado, ou que tenha tido a curiosidade de estudar meia dúzia de bons livros e artigos sobre história da filosofia. No que respeita à filosofia medieval as coisas são ainda piores, havendo quem pura e simplesmente finja que não existiu filosofia interessante no período de mais de mil e oitocentos anos que medeia entre a morte de Aristóteles e o nascimento de Montaigne. Quanto aos pitagóricos, são ainda vistos à luz do mito, apesar de ter sido o classicista alemão Walter Burkert que, em 1962, na obra Weisheit und Wissenschaft: Studien zu Pythagoras, Philolaus und Platon, introduziu seriedade histórica na investigação sobre Pitágoras e os pitagóricos, acabando de vez (pensava ele!) com as mentiras históricas.

Estes factos não mostram a inexistência de outras motivações para a rejeição da filosofia analítica; certamente que as há e já falaremos delas. Mas importa sublinhar que nem toda a bibliografia rejeitada o é por ser analítica: muitas pessoas interessadas em estética, por exemplo, e que poderão com toda a legitimidade desejar rejeitar a estética analítica, tal como é feita hoje por Noël Carroll, Peter Lamarque, Stephen Davies, Peter Kivy, Robert Stecker ou Jerrold Levinson, entre tantos outros, desconhecem ou não mencionam autores que não são analíticos, como Edmund Burke, R. G. Collingwood, Clive Bell ou Eduard Hanslick — e nem se pode dizer que é por serem britânicos, pois o último era alemão.

Saber o que faz realmente as pessoas desprezar a filosofia analítica é, pois, uma questão complexa, para lá de quaisquer especulações que alguém possa fazer. Mas o que é explicitamente afirmado por quem a despreza não deve ser ignorado: que é uma filosofia tecnicista, colonialista, de direita, capitalista, redutora, cega, que presta vassalagem à ciência, que ignora as ansiedades humanas, que despreza as artes e a dimensão espiritual do ser humano, que não é inspiradora, que é superficial, que é historicamente desinformada e que é pura e simplesmente tola e ingénua. Certamente me escaparam alguns dos mimos reservados à filosofia analítica, mas isso é irrelevante: o que quero explicar é que há constantemente uma confusão no que respeita às opiniões desagradáveis que algumas pessoas têm da filosofia analítica e que outras têm da filosofia continental.

Confunde-se quase sistematicamente duas coisas muito diferentes:

  1. Muitos professores com trabalhos importantes publicados nos meios académicos mais sólidos não mencionam sequer (para não falar em discutir demoradamente) autores que outros professores consideram centrais; é assim que se pode ler milhares de páginas de ética sem ver uma referência a Emmanuel Levinas, se forem analíticas, ao mesmo tempo que se pode ler milhares de páginas de estética, se forem continentais, sem ver uma referência a Nelson Goodman (para não falar de uma discussão demorada).
  2. Eu considero irrelevantes os autores tal e tal.

1 é um conjunto de afirmações factuais. 2 não é primariamente uma afirmação factual, mas antes a manifestação de uma convicção. Mesmo que se considere profundamente errado e inaceitável que alguém considere irrelevante o que nós consideramos relevante, o que implica rejeitar 2, rejeitar 1 é pura e simplesmente uma mentira histórica e factual. A verdade, por mais desagradável que seja, é que a divisão entre a filosofia analítica e a continental existe, e ocultá-la é mentir. Pode ser que tal divisão seja infeliz, e poderá ser uma boa ideia transpor o abismo que separa estas duas formas de fazer filosofia, mas a divisão só pode ser infeliz se existir e só se existir podemos tentar transpô-la.

Esta diferença é importante porque se pode defender que um professor ou um autor não deve manifestar a sua convicção do tipo 2, pois isso contraria, digamos, o dever de imparcialidade da sua profissão como intelectual e professor. Não me parece que esta posição seja particularmente desejável, por razões que passarei a explicar depois. Mas mesmo que a aceitemos, esta posição não implica fingir que os factos históricos 1 não existem: na verdade, implica precisamente o contrário, pois se é o dever de imparcialidade que implica a rejeição de 2, é esse mesmo dever que implica rejeitar a mentira de rejeitar 1. Em suma, podemos defender que um professor ou autor deve, por razões de imparcialidade, inibir-se de manifestar as suas convicções quanto à relevância ou importância deste ou daquele filósofo, independentemente de este ser continental ou analítico. Mas as mesmas razões que nos poderão levar a defender a inibição destas opiniões politicamente incorrectas tem de nos levar a defender que é pelo menos igualmente inaceitável fingir que os factos históricos expressos por 1 não existem.

Contudo, não me parece saudável que a vida académica inclua o dever de não manifestar as nossas convicções académicas, o que é muito diferente de não manifestar as nossas convicções não académicas. Por exemplo, é perfeitamente razoável que se encare como inaceitável um professor de matemática que faz campanha política nas aulas, a favor de um dado partido. Mas seria despropositado impedi-lo de manifestar as suas convicções académicas quanto à qualidade ou falta dela do trabalho feito em matemática no séc. XV, por exemplo.

Muitas pessoas gostariam que não existisse filosofia analítica; pensam que o mundo seria melhor sem essa gente que passa a vida a falar de argumentos e proposições, refutações e valores de verdade, lógica e falácias, raciocínios e teorias e contra-exemplos e objecções. Penso que este desejo deve ser respeitado, e que se deve reconhecer às pessoas que o têm o direito de o publicar, defender e ensinar. Acontece que a maneira mais comum de o fazer é pura e simplesmente fingir que não existe filosofia analítica: era assim que faziam os meus professores, quando eu era aluno de graduação. Daí que quando se começou a falar de filosofia continental se entornou o caldo: era precisamente isso que não se desejava.

Mas reconhecer o direito de qualquer pessoa a desprezar a filosofia analítica, por a considerar redutora e tudo o mais, é todavia muito diferente de lhe reconhecer o direito de fingir que não existem pessoas como ele mesmo, mas no campo oposto: que reservam alguns mimos não menos desagradáveis à filosofia continental, e que não a incluem nas suas publicações. Fingir que factos desagradáveis não existem não os faz desaparecer e tem a desvantagem não negligenciável de fazer de nós mentirosos. Que há pessoas que consideram Hegel um filósofo importantíssimo é um facto que só os mentirosos poderão querer negar; mas que há igualmente pessoas que o consideram pura e simplesmente irrelevante é outro facto que também seria uma mentira negar. E esta divisão, curiosamente, não coincide com a diferença entre a filosofia analítica e a continental: tanto há pessoas com formação analítica que o consideram relevante e importante, como há filósofos continentais que o consideram irrelevante ou pior, como é o caso de Kierkegaard.

Reconhecer a existência de opiniões não muito agradáveis sobre vários filósofos é saudável, e ajuda-nos a conviver com a diferença. Parece-me doentio um ambiente académico em que não posso dizer o que penso de Heidegger porque isso é politicamente incorrecto, ao passo que posso dizer o que penso de McDowell, Wittgenstein ou Quine. Simetricamente, reconheço a quem pensa que Kripke, Russell ou Frege são filósofos irrelevantes ou pior o direito saudável de o pensar e dizer. Mas ajuda a lavar a atmosfera se não fingirmos, nem de um lado nem do outro, que só o nosso lado existe — não só porque isso é uma mentira, mas também porque sugere uma unanimidade de carneirada que felizmente não existe: os meus colegas continentais desprezam muitos filósofos e trabalhos continentais, e eu faço o mesmo com muitos filósofos e trabalhos analíticos.

Conviver tranquilamente com a diferença é reconhecer que se pegarmos numa história da filosofia de um professor de Oxford, ou num filósofo da Universidade de Nova Iorque, teremos temas e referências bibliográficas muitíssimo diferentes das que teremos se pegarmos num historiador da filosofia ou num filósofo de Paris ou Munique. Os temas e filósofos que estarão em proeminência nos livros de uns, não serão sequer mencionados nos dos outros. A explicação para isto pode ser parcialmente um desconhecimento bibliográfico de fazer corar as pedras, como sugeri, mas é sem dúvida também uma crença sincera de que o que se está a ignorar é academicamente irrelevante — um pouco como um matemático não se sente na obrigação de levar a sério a numerologia. Isto poderá ser lamentável, e poderemos desejar que as coisas não fossem assim. Mas são, e fingir o contrário, gritando “Blasfémia!” quando os nossos filósofos preferidos são ignorados numa dada publicação é contribuir para a mentira — e a verdade é que nas publicações preferidas de quem assim grita, ignora-se o que outros consideram impensável ignorar.

Saber conviver com as diferenças não pode ser apenas o que hoje é — felizmente — a conversa fiada de conviver com diferentes cores de pele. Saber conviver com as diferenças no que respeita às ideias é incompatível com a mentira transmitida aos alunos de que as bibliografias e filósofos de que não gostamos não existem, assim como é incompatível com a mentira de que afinal somos todos da mesma cor. Não somos. Mesmo quando os filósofos analíticos e os continentais defendem metodologias e ideias semelhantes — Quine e Derrida pensavam certamente que a linguagem está no centro da reflexão filosófica, por exemplo, e ambos pensavam que o significado está amplamente subdeterminado — são estudados em meios académicos com atitudes inconciliáveis: de um lado, é normal procurar explicitamente refutar e objectar e apresentar contra-exemplos, do outro, mesmo quando não se concorda, tece-se elogios e depois “supera-se” ou “vai-se mais além,” mas não se considera sequer importante a explicitação cuidadosa dos argumentos e teorias, a consideração de alternativas ou a precisão argumentativa, contando mais a performance textual, o efeito literário, as imagens sugeridas, o rendilhado das frases, a surpresa das imagens e das associações livres. Fingir que afinal somos todos iguais revela uma incapacidade para conviver com as diferenças abissais que nos unem, se me é permitido o trocadilho.

Um convívio saudável com as diferenças permitir-nos-á rir-nos de nós mesmos, reconhecer com sentido de humor que há quem julgue uma tolice o que fazemos e irrelevantes os filósofos que consideramos relevantes. Na verdade, a dificuldade de nos rirmos de nós mesmos parece-me inversamente proporcional à seriedade e entrega que pomos no nosso trabalho, como se tivéssemos medo que subitamente se descubra que, na verdade, o nosso trabalho nada é realmente para nós senão um meio de ganhar a vida, ter prestígio e sair cedo. Não me parece crível que quem se dedica genuinamente durante anos ao estudo de algo se sinta posto em causa porque alguém despreza o que ele valoriza. Se se sente posto em causa, é porque no fundo não o valoriza assim tanto. Como escreveu Kierkegaard, noutro contexto, uma pessoa dessas é como a mocinha que tem dúvidas sobre as qualidades do seu namorado, e que para manter o seu auto-engano se ofende profundamente quando alguém afirma que ele não é um bom partido.

Desidério Murcho
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