Constructive Empiricism
17 de Maio de 2012 ⋅ Filosofia da ciência

Argumentos acerca do empirismo construtivo

Paul Dicken
Tradução de Luiz Helvécio Marques Segundo

1.1 O objetivo da ciência

Deveriam os cientistas acreditar em tudo aquilo que dizem? Deveriam eles acreditar nas afirmações de suas teorias científicas bem desenvolvidas e na existência das coisas microscópicas exóticas que dizem agora popular os alcances inobserváveis da realidade? Ou uma atitude mais modesta perante a investigação científica seria preferível? Numa primeira reflexão, há certamente uma forte intuição de que as nossas teorias científicas atuais são (pelo menos aproximadamente) verdadeiras: afinal, a prática científica contemporânea é enormemente bem sucedida tanto em termos de previsão quanto de manipulação dos fenômenos empíricos, e — assim se pensa — esse fato seria simplesmente miraculoso se não fosse o caso de nossas teorias científicas atuais nos fornecerem descrições mais ou menos exatas do modo como o mundo é. Seja o que for que se possa pensar sobre isso, a ciência funciona; portanto, deveríamos acreditar que é verdadeira.

Mas a inferência do sucesso científico à verdade científica é uma inferência problemática. Certamente que não há conexão lógica entre os dois, uma vez que é claramente possível que uma teoria científica preditivamente bem sucedida seja falsa. Tome-se um exemplo da história da ciência, a mecânica newtoniana, digamos. Desde o início, foi uma teoria científica indubitavelmente bem sucedida que corretamente previu uma gama de novos fenômenos interessantes — de fato, a teoria é tão bem sucedida que confiamos nela ainda hoje quando tentamos destruir vários destroços em órbita. Mas para os nossos padrões contemporâneos a teoria é também claramente falsa, uma vez que lida com uma gama de conceitos desacreditados tais como os de espaço, tempo e velocidade absolutos que agora viemos a rejeitar. De fato, a história da ciência parece estar repleta de exemplos de teorias preditivamente bem sucedidas que agora consideramos terem se revelado falsas. E isso suscita uma segunda intuição, mais problemática, sobre a verdade da ciência: se todas essas teorias bem sucedidas do passado se mostraram erradas, por que deveríamos supor que estamos numa situação um tanto melhor? Os filósofos da ciência na época de Newton presumivelmente se impressionaram tanto com o sucesso preditivo de suas teorias científicas quanto nós, hoje, com as nossas; mas se a inferência que fizeram do sucesso à verdade os conduziu ao erro, que razões temos para estarmos mais confiantes?

Essas duas intuições conflitantes — do sucesso da prática científica atual e da falha da prática científica do passado, respectivamente — colocam o debate filosófico contemporâneo em saber se deveríamos ou não acreditar nas declarações de nossas teóricas científicas contemporâneas. O realismo científico é a perspectiva de que deveríamos acreditar nelas: que as nossas intuições acerca do sucesso das nossas teorias científicas contemporâneas nos dá boas razões para pensar que são verdadeiras; e que o registro histórico da nossa teorização científica é mal interpretado se tomado como colocando em causa a nossa posição epistemológica atual (nossas teorias científicas passadas podem ter sido falsas, argumentam, mas uma vez que também fizeram aperfeiçoamentos em suas predecessoras, a nossa situação atual é efetivamente muito melhor). O empirismo construtivo — uma posição primeiramente formulada, e continuamente associada, ao filósofo da ciência iconoclasta Bas van Fraassen — oferece uma avaliação mais cuidadosa, pois o empirista construtivo acredita em algumas das afirmações feitas por nossas teorias científicas, enquanto simplesmente suspende o juízo sobre o restante. Mais especificamente, o empirismo construtivo é a perspectiva de que “a ciência visa nos dar teorias que são empiricamente adequadas; e a aceitação de uma teoria envolve apenas a crença de que ela é empiricamente adequada” (van Fraassen, 1980: 12). Uma teoria é empiricamente adequada desde que esteja correta sobre os fenômenos observáveis: o empirista construtivo, portanto, só considera as teorias científicas contemporâneas como tendo o objetivo de fornecer a verdade sobre as coisas de tamanho médio com as quais todos estamos familiarizados; e embora essas teorias científicas possam lidar indispensavelmente bem com as coisas microscópicas exóticas que despertaram nosso receio inicial, não é parte da compreensão filosófica da prática científica que tenhamos de acreditar que tais entidades e processos realmente existam.

Esse contraste pode ser tornado mais explícito pela tentação natural de entender o realismo científico — e por extensão, as várias posições que perpassam a filosofia da ciência que procuram oferecem perspectivas alternativas no que diz respeito ao objetivo da ciência — em termos de três teses filosóficas distintas: uma reivindicação metafísica sobre a natureza do mundo investigado por nossas práticas científicas; uma reivindicação semântica sobre a linguagem das teorias científicas que produzimos no processo dessa investigação; e uma reivindicação epistemológica sobre com que grau se pode dizer que essa última nos dá conhecimentos sobre o primeiro.1 A componente metafísica do realismo científico diz que há um mundo físico independente da mente que a investigação científica procura descrever; isso seria contrastado, digamos, com um construtivismo social radical que defende que a natureza do mundo físico é de algum modo determinado por nossas práticas científicas ao invés de meramente descoberto por elas.2 A componente semântica do realismo científico diz que a linguagem das nossas teorias científicas tem de ser tomada mais ou menos literalmente, e que os termos teóricos de nossas teorias que pretendem referir várias entidades e processos inobserváveis de fato têm de ser entendidos como termos referenciais. O contraste aqui seria com a breve perspectiva do positivista lógico de que uma vez que os termos teóricos adquirem o seu significado através de sua relação com termos “observacionais” mais facilmente testáveis, a suposta referência às entidades inobserváveis é na verdade redutível a condicionais complexas envolvendo apenas estados de coisas observáveis;3 ou com a perspectiva de que os enunciados envolvendo termos teóricos não são afinal assertóricas, e que, portanto, questões de referência simplesmente não surgem.4

A componente epistemológica do realismo científico diz que as nossas teorias científicas são (pelo menos aproximadamente) verdadeiras, e que, portanto, as afirmações de nossas teorias científicas aceitas são (em conjunto) uma fonte de conhecimento sobre o mundo inobservável; essa perspectiva é geralmente apoiada pela força do tipo de considerações explicativas com as quais começamos. Uma vez que o empirista construtivo concorda com o realista científico em termos tanto da perspectiva metafísica de que há um mundo físico independente da mente cujo propósito de nossas práticas científicas é investigá-lo, quanto da perspectiva semântica de que nossas teorias científicas pelo menos pretendem referir entidades e processos inobserváveis, é natural entender o empirismo construtivo simplesmente em termos da rejeição da componente epistemológica do realismo científico — o empirista construtivo, mais confiante na possibilidade de uma teoria científica bem sucedida embora falsa, é apenas cético (ou talvez, apenas pessimista) sobre os resultados de nossas práticas científicas, embora concorde com o realista científico sobre os detalhes das práticas sobre as quais diferem em entusiasmo.

Embora a taxonomia acima não esteja exatamente errada, ela ameaça obscurecer aquilo que é mais importante e mais interessante acerca da posição do empirismo construtivo. Pois, embora o empirista construtivo difira do realista científico apenas por acreditar que as nossas teorias científicas contemporâneas são empiricamente adequadas ao invés de verdadeiras, caracterizar o empirismo construtivo com um tipo de realismo científico cético não faz justiça ao enquadramento epistemológico mais amplo do qual essa perspectiva da prática científica faz parte. O empirismo construtivo — como articulado e defendido por van Fraassen — não está tanto no centro de uma perspectiva sobre o sucesso científico enquanto uma perspectiva acerca da racionalidade científica: é uma perspectiva sobre o que é fazer um juízo epistêmico (i.e., não se deveríamos ou não acreditar que nossas teorias científicas são verdadeiras, mas o que significa sustentar uma crença particular sobre a natureza de uma teoria científica em primeiro lugar); é uma perspectiva sobre as obrigações de ser um agente científico racional (i.e., não se a verdade científica é a melhor explicação ou não do sucesso científico, mas se as nossas melhores explicações são racionalmente atrativas ou não); e é uma perspectiva sobre como melhor entender o próprio debate filosófico acerca do objetivo da ciência com o qual estamos interessados (mais especificamente, se o desacordo entre realistas científicos e empiristas construtivos é uma questão filosófica substancial ou não, ou se é apenas uma expressão de gosto). Como resultado, grande parte do debate comum sobre o empirismo construtivo — e em particular, a oposição entre a avaliação otimista do realista da prática científica e a atitude aparentemente mais sovina do empirista — simplesmente passa ao largo do ponto principal. Um realista científico cético nos deve satisfação de como ele pode vir a sustentar crenças diferentes sobre o pedigree de nossas teorias científicas, a resistir a linhas de argumentações convincentes sobre o sucesso de nossa prática científica, e a acomodar as nossas convicções intuitivas acerca da natureza do empreendimento científico de acordo com sua perspectiva mais parcimoniosa; em contraste, o empirista construtivo precisa defender seus pontos de vistas sobre o que é sustentar uma crença acerca de uma teoria científica, motivar sua explicação do que torna um método de inferência atrativo, e defender a sua compreensão alternativa do que uma perspectiva filosófica sobre o objetivo da ciência procura fornecer. Embora isso possa estar bem longe de ser uma tarefa fácil, é pelo menos uma tarefa diferente importante.

Defender o empirismo construtivo é, então, defender uma reconceitualização do enquadramento epistêmico no qual deveríamos abordar a nossa questão inicial sobre a crença científica. É dessa questão epistemológica mais ampla que este livro trata: não com a questão se saber se o realista científico ou o empirista construtivo estão corretos ou não, ou com a questão de se devemos ou não acreditar em nossas teorias científicas como verdadeiras, mas antes com a questão de qual enquadramento epistêmico esse debate poderia ser conduzido em primeiro lugar. Pois, embora eu concorde com van Fraassen que uma concepção empirista do objetivo da ciência tem de ser parte e parcela e uma concepção empirista da epistemologia de fundo da filosofia da ciência, discordo que o enquadramento proposto por ele — o “voluntarismo epistêmico”, uma concepção permissiva de nossas práticas inferenciais que exige para a racionalidade de um conjunto de crenças pouco mais que sua consistência lógica — forneça o ambiente mais propício para o empirismo construtivo. De fato, argumento que a combinação do empirismo construtivo e do voluntarismo epistêmico é, tal como se encontra, insustentável pela razão de que existe uma dificuldade sistemática em estabelecer a coerência interna do empirismo construtivo que os recursos epistemológicos mínimos do voluntarismo epistêmico são particularmente incapazes de resolver. Há, no entanto, um enquadramento epistêmico alternativo embrionário na discussão de van Fraassen que promete uma abordagem muito mais satisfatória às questões dessa natureza — um enquadramento epistêmico que se concentra não tanto nos diferentes padrões de racionalidade que podem estar em jogo na filosofia da ciência, mas nos diferentes tipos de atitude que se pode ter frente uma proposição ou teoria. Argumento que essa abordagem à dimensão epistemológica do debate sobre o realismo científico — uma abordagem que considera seriamente a distinção entre aceitação e crença — não apenas fornece o melhor enquadramento para articular e defender o empirismo construtivo, mas também motiva uma estratégia empirista atrativa no que diz respeito a uma gama de outros tópicos filosóficos.

Começo neste capítulo com uma exposição mais detalhada do empirismo construtivo, e em particular, de por que a articulação e defesa de uma concepção empirista do objetivo da ciência tem ipso facto de ser a articulação e defesa de uma epistemologia distintivamente empirista: no restante do Capítulo 1 ilustrarei o problema geral na necessidade de se entender o empirismo construtivo no contexto de um enquadramento epistemológico mais amplo, discutindo primeiro algumas das críticas mais proeminentes feitas contra a posição, e então como essas críticas são evitadas no contexto do voluntarismo epistêmico de van Fraassen. O Capítulo 2 será devotado à exposição e avaliação dos vários argumentos que podem ser aduzidos em apoio ao voluntarismo epistêmico de van Fraassen, e o Capítulo 3 desenvolverá a ideia de que qualquer defesa adequada do empirismo construtivo tem realmente de abandonar completamente esse enquadramento (ou pelo menos que qualquer defesa adequada do empirismo construtivo tenha de proceder independentemente do voluntarismo epistêmico de van Fraassen, deixando por isso tal enquadramento supérfluo). Apenas depois de feitas essas preliminares é que podemos começar a tarefa de construir um enquadramento epistêmico melhorado para a compreensão empirista da ciência, desenvolvido e discutido no capítulo 4.

1.2 O empirista construtivo e seus críticos

1.2.1 Uma taxonomia de objeções

O empirismo construtivo é, então, a perspectiva de que o objetivo da ciência é a adequação empírica ao invés da verdade, e que para aceitar uma teoria científica bem sucedida não é preciso nos comprometermos com a crença de que tal teoria é verdadeira. Isso levanta imediatamente duas importantes questões: uma sobre a noção de adequação empírica, e a outra sobre a noção de aceitação. Uma teoria científica é empiricamente adequada apenas no caso de ser correta no que respeita aos fenômenos observáveis (ao passo que uma teoria científica é verdadeira apenas no caso de ser correta no que respeita aos fenômenos observáveis e inobserváveis); mas do que precisa exatamente um fenômeno — isto é, uma entidade, processo ou algo mais que nossas teorias científicas pretendem acomodar — para ser observável? Para van Fraassen, pelo menos, essa é uma distinção empírica a ser determinada por nossas melhores teorias científicas do comportamento da luz e da fisiologia do olho humano (van Fraassen, 1980: 17). Deixando de lado, porém, as peculiaridades de tal critério, pode-se muito bem perguntar que relevância tais interesses antropocêntricos têm para a filosofia da ciência: o que tem exatamente o olho nu que nos permite privilegiar aquilo que observamos em detrimento daquilo que podemos (meramente) detectar com a ajuda dos nossos instrumentos científicos? Em suma, se o empirista construtivo irá sustentar que o objetivo da ciência é a adequação empírica ao invés da verdade, então ele tem de defender uma distinção exata entre fenômenos observáveis e inobserváveis com os quais lidam as nossas teorias científicas; e podemos muito bem perguntar pelas razões a favor de tal distinção.

Suponha, no entanto, que tal defesa fosse feita; o empirista construtivo sustentaria então que quando aceitamos uma teoria científica bem sucedida, a nossa teoria precisa aumentar apenas naquilo que podemos observar (sendo isso especificado pelo seu conceito de adequação empírica). Mas se é esse o caso, então a aceitação de uma teoria científica é algo distinto da crença nessa teoria, uma vez que ex hipothesi o empirista construtivo precisa apenas acreditar num subconjunto daquilo que ele aceita. Portanto, além de uma distinção exata entre fenômenos observáveis e inobserváveis, o empirista construtivo tem também de defender uma distinção exata entre as atitudes de aceitação e crença; e podemos do mesmo modo perguntar pelas razões a favor dessa distinção.

Nesse último caso — considerando a distinção pretendida entre aceitação e crença — o problema pode ser posto com se segue: por um lado, uma vez que o empirista construtivo concede que o conteúdo inobservável de nossas teorias científicas é de fato indispensável para seu sucesso preditivo e manipulativo, aceitar uma teoria, portanto, tem de envolver um comprometimento epistemológico substancial com tal teoria suficiente para o empirista construtivo acomodar de certo modo as partes da teoria em que não acredita (ou então frente a uma abordagem desesperadamente empobrecida da prática científica que essencialmente rejeita tudo o que nossas teorias científicas dizem sobre fenômenos inobserváveis); por outro lado, contudo, uma vez o empirista construtivo sustenta que o objetivo da ciência se limita à adequação empírica, a aceitação de uma teoria científica não tem, portanto, de envolver tanto comprometimento epistemológico que simplesmente colapse na atitude supostamente contrastante de crença (caso em que o empirismo construtivo equivaleria a uma alternativa meramente verbal ao realismo científico). A resposta propriamente dita a essa objeção, no entanto, tem de ser adiada até uma seção posterior (Capítulo 4), uma vez que depende das nuances da distinção entre aceitação e crença que nos possibilitará construir um enquadramento epistêmico mais geral para a articulação e defesa do empirismo construtivo. Veremos, em particular, que é apenas pela distinção entre aceitação e crença que o empirista construtivo pode sustentar sua outra distinção crucial entre o observável e o inobservável; e é isso que em última instância justifica o abandono do voluntarismo epistêmico de van Fraassen em favor de um enquadramento epistêmico alternativo.

No que diz respeito à primeira distinção entre fenômenos observáveis e inobserváveis, podemos ajudar a clarificar a situação dialética distinguindo entre dois tipos diferentes de objeção que o crítico do empirismo construtivo poderia levantar: podemos perguntar se a distinção entre fenômenos observáveis e inobserváveis tem ou não algum valor, isto é, se traça ou não uma distinção filosoficamente relevante no que respeita ao nosso entendimento da prática científica; e podemos nos perguntar se tal distinção faz sentido ou não, isto é, se é logicamente consistente ou não para o empirismo construtivo traçar tal distinção em primeiro lugar. Essa última objeção foi primeiro formulada por Alan Musgrave (1985), que nota que uma vez que o empirista construtivo tem de se fiar em nossas teorias científicas a fim de determinar a extensão daquilo que conta como um fenômeno observável (especificamente nossas melhores teorias científicas sobre o comportamento da luz e sobre a fisiologia do olho humano), e ainda deseja usar esse resultado a fim de traçar a distinção que determina que partes dessas próprias teorias científicas temos de acreditar, ele corre o risco de defender uma posição filosófica que mina a sua própria cogência. A questão da coerência interna do empirismo construtivo é particularmente difícil, e termos de adiá-la até uma seção posterior (Capítulo 3); como veremos, essa é uma questão crucial que mostrará, no fim das contas, as inadequações do voluntarismo epistêmico de van Fraassen e motivará o desenvolvimento de um enquadramento epistêmico alternativo baseado nas várias atitudes presentes na filosofia da ciência que se opõe aos vários padrões de racionalidade.

Tudo o que nos resta por agora é a questão da relevância. O problema aqui é que se o empirista construtivo vai defender que ele só precisa acreditar naquilo que suas teorias científicas dizem acerca dos fenômenos observáveis a fim de dar sentido à prática científica, então ele parece estar comprometido com uma distinção epistemológica entre as conseqüências observáveis e inobserváveis de suas teorias científicas — sendo a ideia de que se temos apenas de acreditar naquilo que nossas teorias científicas dizem sobre o observável, então temos de possuir uma justificação maior para acreditar naquilo que nossas teorias científicas dizem a respeito do observável do que para acreditar naquilo que dizem a respeito do inobservável. A dificuldade reside, então, no fato de parecer haver muito pouca relevância epistemológica a ser encontrada entre aquilo que as nossas teorias nos dizem sobre as coisas muito grandes e aquilo que elas nos dizem sobre as coisas muito pequenas.

Tal raciocínio, no entanto, leva-nos inextricavelmente à questão do enquadramento epistêmico apropriado para conduzir nosso debate. Pois criticar a distinção do empirista construtivo entre fenômenos observáveis e inobserváveis com base na idéia de que as nossas crenças nos dois são igualmente justificadas é pressupor graus de crença equivalentes em resposta a graus de indício equivalentes — um enquadramento epistêmico regido por regras de inferência obrigadas a serem seguidas em todas as circunstâncias em que puderem ser aplicadas, um enquadramento epistêmico em que se deveria acreditar sejam quais forem as bases razoáveis que se tenha para acreditar. E embora esse seja certamente o enquadramento epistêmico do realista científico — que está disposto a inferir a verdade de suas teorias científicas com base em seu sucesso preditivo como uma instância de uma política geral de inferir a verdade das melhores explicações — não é o enquadramento epistêmico do empirista construtivo, uma vez que, como veremos, o voluntarismo epistêmico de van Fraassen é precisamente a negação de que a racionalidade seja sempre uma questão de obrigação. Sendo assim, em suma, ainda que sua crítica de que as nossas crenças sobre inobserváveis são tão justificadas quanto nossas crenças sobre inobserváveis esteja correta, não segue que o empirista construtivo tenha de abandonar sua distinção entre os dois, uma vez que não é parte da concepção do empirista da racionalidade científica que se tenha sempre de tirar os mesmos tipos de conclusão frente os mesmos tipos de indício.

Mas isso é bastante apressado; no restante desta seção considerarei alguns dos argumentos relativos à justificação das nossas crenças sobre os fenômenos observáveis e inobserváveis e as perspectivas de respondê-los em seus próprios termos. Meu levantamento estará longe de ser completo: não considerarei, por exemplo, questões sobre a vagueza inerente à distinção entre observáveis e inobserváveis; nem considerarei a tendência antropocêntrica da posição do empirista construtivo (veja, e.g., Maxwell, 1962). Em parte, porque muitas dessas questões têm sido discutidas em grande detalhe por diversas fontes.5 Mais importante, porém, porque meu objetivo neste capítulo é considerar as objeções que iluminam mais proveitosamente nossos interesses mais amplos no enquadramento epistêmico apropriado para seguir o debate sobre o realismo científico. Considerarei, então, as objeções à distinção entre os fenômenos observáveis e inobserváveis que alegam que as nossas crenças sobre ambos são igualmente justificadas, e as objeções que alegam que o empirismo construtivo segue uma metodologia inferencialmente infundada ao traçar tal distinção. Ambas as objeções presumem, portanto, o tipo de epistemologia baseada em regras que o empirismo construtivo explicitamente tenta atacar. Tendo delineado esses ataques, esboçarei mais detalhadamente então o enquadramento epistêmico alternativo de van Fraassen, e mostrarei como esse afasta as várias dúvidas acerca da relevância da distinção do empirista construtivo. O restante deste livro é devotado um exame detalhado dessa assim chamada nova epistemologia.

1.2.2 Observação e detecção

Muitos filósofos têm criticado o empirismo construtivo com base na idéia de que sua distinção central entre fenômenos observáveis e inobserváveis não é suficientemente bem motivada. Ian Hacking (1985), por exemplo, tentou colocar a divisão em causa, e com ela a alegação do empirismo construtivo de que se pode aceitar uma teoria científica bem sucedida sem com isso acreditar nas afirmações que ela faz sobre os fenômenos inobserváveis, avançando vários argumentos a favor da fiabilidade comparável das observações “direta” e “mediada”. Ele sustenta que é implausível supor que as crenças sobre os fenômenos inobserváveis (adquiridas através do uso de instrumentos científicos complexos, tais como o microscópio eletrônico) são de algum modo menos justificadas do que as crenças sobre os fenômenos inobserváveis (adquiridas a olho nu), uma vez que as primeiras têm de ser “mediadas” ou “interpretadas” de modo que as últimas não o necessitam: ele argumenta que o próprio olho pode ser considerado um tipo de instrumento sofisticado, como nossas melhores teorias da fisiologia humana atestam; que se possa aprender a usar igualmente ambos os tipos de instrumentos antes de seus resultados pode ser considerado fiável; e que para o microscopista experiente tal uso é tão direto e não mediado quanto a visão o é. Como disse Ian Hacking, “é preciso uma teoria para construir um microscópio. Você não precisa de uma teoria para usar um” (1985: 137).

Além do mais, Hacking argumenta que o acordo persistente entre vários diferentes atos de observação com o auxilio de instrumentos nos dá bons indícios da fiabilidade individual de cada um. Ele nos dá o exemplo de observar um objeto microscópico que nós próprios criamos por um processo independente; em tais casos:

Sei que o que vejo pelo microscópio é verídico porque fizemos [o objeto em questão] desse exato modo [...] além do mais, podemos checar os resultados com qualquer tipo de microscópio usando qualquer um dos diversos processos físicos não relacionados para produzir uma imagem. Podemos cogitar a possibilidade de que, ainda assim, isso é alguma coincidência gigantesca? (1985: 146-147)

Hacking conclui, então, que não há boas razões para considerar as crenças científicas que adquirimos sobre os fenômenos inobserváveis menos fiáveis, justificadas ou garantidas do que as crenças científicas que adquirimos sobre os fenômenos observáveis; na verdade, uma vez que podemos adquirir essas últimas crenças de uma gama diversa de fontes que registram um nível impressionante nível de acordo, podemos de fato ter boas razoes para considerar nossas crenças sobre os fenômenos inobserváveis pelo menos tão fiáveis, justificadas ou garantidas do que qualquer coisa que adquirimos pelo olho nu. A distinção que o empirista construtivo quer traçar entre fenômenos observáveis e inobserváveis é, portanto, epistemologicamente irrelevante; e se a distinção entre observável e inobservável é infundada, então a perspectiva do empirista lógico de que a fim de dar sentido à prática científica precisamos apenas acreditar que nossas teorias científicas são empiricamente adequadas — e que não se pode por isso aceitar uma teoria científica bem sucedida sem por isso acreditar que é verdadeira — é igualmente posta em causa.6

Em contraste, Paul Churchland (1985) rejeitou a relevância epistemológica entre fenômenos observáveis e inobserváveis, não porque ele acredita que as nossas afirmações científicas sobre esses últimos sejam tão justificadas quanto as nossas afirmações sobre os primeiros, mas porque ele é igualmente cético sobre ambas. Ele argumenta que

uma vez que nossos conceitos observacionais são tão teoricamente subordinados quanto qualquer outro, e uma vez que a integridade desses conceitos é tão contingente quanto a integridade das teorias que os emprega, nossa ontologia observacional é exatamente tão duvidosa quanto nossa ontologia não-observacional. (1985: 36 [ênfase original])

Churchland então prossegue oferecendo apoio para sua argumentação mencionando exemplos de ontologias erradas tanto nos domínios observável quanto inobservável: ele nota que “tivemos a ocasião de banir o flogisto, o calórico e o éter luminífero de nossas ontologias — mas tivemos também a ocasião de banir bruxas e esferas estelares que passam por nós diariamente”, sendo esses últimos “tão ‘observáveis’ quanto se queira, e [...] amplamente ‘observados’ diariamente” (1985: 36).

Antes de prosseguir, dever-se-ia notar imediatamente que tais considerações estão longe de serem conclusivas. Churchland, por exemplo, simplesmente exagera em seu exemplo: pois embora seja realmente o caso que as nossas ontologias, observável e inobservável, tiveram sua fração de vencedores e perdedores, o máximo que seu argumento pode estabelecer é a tese qualitativa de que nossos conceitos observáveis e inobserváveis são teoricamente subordinados; mas para que a sua objeção tenha alguma força, ele tem de estabelecer, na verdade, a tese quantitativa mais forte de que nossos conceitos observáveis e inobserváveis são igualmente teoricamente subordinados. Mas oferecer simplesmente exemplos de fenômenos observáveis desacreditados a fim de acompanhar os exemplos de fenômenos inobserváveis desacreditados é forçar a barra para alcançar esse resultado: o que Churchland quer estabelecer é que nossos conceitos observáveis são tão teoricamente subordinados quanto nossos outros conceitos; mas tudo o que ele consegue estabelecer é a conclusão bastante fraca de que os nossos conceitos observáveis são teoricamente subordinados como os nossos outros conceitos.

O argumento de Churchland, portanto, embora talvez questione o grau de justificação do qual a nossa ontologia observacional desfrute, não exclui a possibilidade de que a nossa ontologia observacional é ainda mais justificada do que as nossas outras ontologias — e, portanto, mesmo pelos próprios padrões epistemológicos do realista, falha em colocar em causa e distinção pretendida do empirista construtivo. E do mesmo modo, em resposta a Hacking, nem a imediação da observação microscópica garante sua fiabilidade epistêmica. Assim como o receio de Churchland, o argumento novamente estabelece apenas uma relação qualitativa entre nossos atos de observação nua e de detecção instrumental, uma similaridade fenomenológica no que diz respeito à aparente transparência de ambos os métodos. Mas nesse caso, embora possa fazer pouco sentido distinguir entre os vários graus em que a observação e a detecção possam ser imediatamente dadas, o problema simplesmente reside no fato de que as nossas impressões fenomenológicas da fiabilidade de um método não garantem a sua fiabilidade efetiva; e, por conseguinte, mesmo pelos próprios padrões epistemológicos do realista científico, não se segue a distinção do empirista construtivo seja posta em causa, uma vez pode ser o caso que a observação nua seja o único método veridicamente imediato (esse ponto é desenvolvido com mais detalhe em van Fraassen, 2008: 105-109).

A linha argumentativa mais forte que nos resta, portanto, diz respeito à aparente continuidade de nossas observações nuas e de nossas detecções auxiliadas por instrumentos — que nossas observações microscópicas confirmam os indícios de nossos próprios olhos, e que nossas várias técnicas distintas de detecção registram um nível impressionante de acordo. Contudo, deveríamos ser cuidadosos em como interpretar esses resultados. Em particular, não deveríamos subestimar a dificuldade e ingenuidade envolvidas na produção de uma imagem ou representação através de um instrumento científico, mesmo quando lidando com algo tão aparentemente simples como um microscópio (um bom antídoto ao tratamento de Hacking é desenvolvido com detalhe em van Fraassen 2008: 91-113). Os instrumentos científicos têm de ser manipulados a fim de produzir algo que pudéssemos tomar razoavelmente como uma representação, e essas representações, com freqüência, dizem-nos muito acerca do instrumento científico em questão. Temos de conceder, no mínimo, que nossos instrumentos científicos criam novos fenômenos tanto quanto (supostamente) representam os fenômenos existentes: novos fenômenos tais como o fato de que esse arranjo particular de lentes produz tal imagem particular para tal observador particular (em tais circunstâncias particulares), um fenômeno observável que tem de ser acomodado em nossas teorias empiricamente adequadas assim como muitos outros. A verdadeira questão, então, não é se nossos instrumentos científicos nos fornecem imagens imediata e diretamente ou não, mas se essas imagens são melhores concebidas como janelas para o inobservável ou artefatos do próprio instrumento. Como disse van Fraassen,

Estou a chamar a atenção para o fato de que o microscópio não precisa ser entendido como uma janela, mas mais certamente como um instrumento que cria novos fenômenos ópticos. Daquilo que vemos no microscópio é certo dizer que estamos “vendo uma imagem” (como “vendo uma reflexão”, “vendo um arco-íris”), e que essa imagem poderia ser ou uma cópia de uma coisa real não visível a olho nu ou uma mera alucinação pública. Sugiro que é muito mais certo e de fato mais iluminante manter neutralidade a esse respeito e pensar nessas imagens apenas como uma alucinação pública. (2008: 108-109)

Ainda mais importante, o fato de que qualquer ato de observação auxiliada por instrumentos dependerá da nossa capacidade de manipular e ajustar o instrumento científico em questão (com diz Hacking, é preciso de uma teoria para construir um microscópio [...]) põe em causa qualquer conclusão que o realista científico poderia tirar com base no nível impressionante de acordo existente entre todas as nossas técnicas de detecção. Como van Fraassen argumenta (1985: 298), o acordo persistente das diversas observações auxiliadas por instrumentos não precisam ser consideradas todas surpreendentes, ou na necessidade de qualquer explicação profunda, uma vez que se leva em conta como todos os nossos instrumentos científicos se fiam num ou noutro tipo de calibragem. O argumento de Hacking seria mais convincente se todo ato único de observação auxiliada por instrumentos registrasse o mesmo resultado. Mas claramente não é esse o caso: fazer um instrumento científico produzir uma imagem ou representação é um trabalho difícil, e as únicas razões pelas quais estaríamos dispostos a considerar um aparelho particular com fazendo tal coisa, seria se ele produzisse os mesmos tipos de resultados que outros aparelhos que já consideramos como capazes de detectar fenômenos inobserváveis. Mas se for esse o caso, então o argumento de Hacking perde muito de sua força, uma vez que se a nossa razão inicial para considerar algo como um instrumento científico é que ele esteja de acordo com todos os nossos instrumentos científicos, não poderíamos então apelar ao fato de que nossos instrumentos científicos estão todos de acordo com um argumento a favor de sua fiabilidade individual!

Tudo isso nos leva a dois comentários mais gerais. O primeiro é notar que o desacordo sobre a nossa fiabilidade instrumental é apenas um microcosmo do desacordo entre realistas e empiristas em geral: enquanto que o realista argumenta que o sucesso preditivo e manipulativo de todas as nossas várias teorias científicas nos dá boas razões para supor que nosso raciocínio científico em geral é bem sucedido em alcançar a verdade, o empirista responde que o sucesso preditivo e manipulativo de todas as nossas várias teorias científicas dificilmente surpreende, uma vez que qualquer teoria mal sucedida nunca teria sido incluída na lista (van Fraassen, 1980: 40) — acordo instrumental não indica fiabilidade, uma vez que apenas os aparelhos que concordam é que classificamos como sendo um instrumento científico; o sucesso preditivo contemporâneo não indica verdade, uma vez que apenas as teorias que são preditivamente bem sucedidas é que sobrevivem para ser contemporâneas. Por conseguinte, assim como os nossos instrumentos, também ocorre como as nossas teorias: o fenômeno geral não pode acarretar algo interessante sobre suas instâncias específicas, uma vez que a nossa interpretação dos fenômenos gerais pressuporá de fato aquilo que queremos mostrar sobre suas instâncias particulares — são todas as nossas teorias preditivamente bem sucedidas por que são verdadeiras, ou por que nós selecionamos o sucesso preditivo? Todos os nossos instrumentos concordam porque são fiáveis, ou porque selecionamos o acordo?

Podemos ainda querer saber sobre as teorias bem sucedidas individuais e sobre os instrumentos fiáveis individuais — por que esta teoria é preditivamente bem sucedida? Por que as imagens produzidas por este instrumento me ajudaram na manipulação dos fenômenos observáveis? — E isso nos leva ao segundo ponto. Pois o que está subjacente ao argumento de Hacking, assim como ao argumento de Churchland, é uma suposição epistemológica bastante específica rejeitada pelo empirista construtivo. Para Churchland, a suposição é a de que se deveria ter a mesma atitude epistemológica com as afirmações que compartilham a mesma justificação epistemológica (como já vimos, no entanto, não é claro que aquilo que nossas teorias dizem sobre os fenômenos observáveis e inobserváveis possuam justificação igual). Para Hacking, a suposição é que a veracidade de nossos instrumentos — e a veracidade de nossas teorias — é a melhor explicação de sua utilidade (embora, como também já vimos, há razões para duvidar disso), e que a inferência a favor da melhor explicação é uma regra de racionalidade que o empirista construtivo teima em desconsiderar. São essas suposições que realmente caracterizam o debate sobre o realismo científico, e que a epistemologia de van Fraassen procura rejeitar.

1.2.3 Extra terrestres e extraterrestres

Tanto Hacking quanto Churchland oferecem argumentos no sentido de que aquilo que nossas teorias científicas dizem a respeito dos fenômenos inobserváveis está epistemicamente a par daquilo que nossas teorias científicas dizem a respeito dos fenômenos observáveis — baseados na ideia de que as nossas crenças sobre ambos são tão imediatamente dadas, e tão vulneráveis à revisão quanto as outras. Contudo, como já vimos, não apenas há razões para se duvidar dessas afirmações, como ainda há razões maiores para se duvidar das conclusões delas extraídas: em suma, que a equivalência justificativa daquilo que nossas teorias científicas dizem a respeito dos fenômenos observáveis e inobserváveis só é filosoficamente significante na suposição de que nossas atitudes epistemológicas sejam completamente determinadas (e estritamente limitadas) pelas inferências que fazemos sobre os nossos indícios. A situação é ainda mais evidente no caso dos nossos instrumentos científicos: as considerações de Hacking acerca do acordo permanente de diversas detecções instrumentais são tão fortes quanto a intuição de que a melhor explicação para o nosso sucesso instrumental é que elas fornecem janelas fidedignas para o mundo inobservável; e não só tivemos razões para duvidar dessa afirmação, como também é claro que ela só poderia ter força argumentativa sob a suposição de que temos sempre de inferir a verdade de nossas melhores explicações.

Ao delinear as suposições potencialmente problemáticas dirigidas aos críticos de seus argumentos, podemos já começar a ver o tipo de imagem epistemológica favorecida pelo empirismo construtivo — uma perspectiva por meio da qual nossas atitudes epistemológicas são determinadas mais por nossos valores do que por nossos indícios, e onde uma regra inferencial pode ser permissível embora nunca obrigatória. O contraste se torna ainda mais claro quando consideramos as objeções à distinção do empirista construtivo que visam não a suposta desigualdade justificativa daquilo que nossas teorias científicas dizem acerca dos fenômenos observáveis e inobserváveis, mas aos alegados padrões inferenciais duplos que levaram a essa suposta desigualdade.

O artigo de Churchland é de novo particularmente instrutivo a essa respeito: pois em apoio a seu pessimismo universal no que diz respeito ao sucesso representacional de nossas teorias científicas, ele oferece duas linhas gerais de ataque ao que ele considera com sendo os padrões inferenciais duplos no centro da posição de van Fraassen. A primeira diz respeito à atitude aparentemente arbitrária do empirista construtivo frente às contrafactuais (Churchland, 1985: 39-40; veja também Psillos, 1999: 193-200). A fim de traçar uma distinção entre fenômenos observáveis e inobserváveis, o empirista construtivo tem de recorrer ao que poderíamos ter observado em circunstâncias apropriadas — ao invés de simplesmente ao que observamos — ou então se arriscar em traçar uma distinção absurdamente restrita e desesperadamente empobrecida. O empirista construtivo tem, portanto, de defender certas possibilidades contrafactuais e rejeitar outras. Por exemplo, a lua distante de um planeta alienígena é presumivelmente um fenômeno observável, se algo o é, ainda que esteja de fato tão distante que nunca será efetivamente observada; o empirista construtivo tem, portanto, de sustentar a afirmação de que se houvesse um observador humano bem posicionado (olhando da janela de alguma espaçonave intergaláctica), ele seria capaz de observar a lua. Similarmente, um dinossauro há muito extinto e não menos assustador não é um fenômeno menos observável simplesmente por ter existido antes da humanidade evoluir; assim, o empirista construtivo tem também de sustentar a afirmação de que se houvesse um observador pré-histórico, ele teria sido capaz de observá-lo; e assim por diante. Em contraste, as partículas subatômicas supostamente são inobserváveis tout court; o empirista construtivo tem, portanto, de rejeitar claramente a possibilidade contrafactual de um observador microscópico se deparando com tal fenômeno frete a frente. Mas parece não haver um modo razoável de se fazer tal distinção, além de qualquer justificação epistêmica do porquê uma possibilidade contrafactual está mais próxima de nós no espaço lógico do que a outra (é o mundo possível onde inventamos um novo método radical de transporte intergaláctico realmente mais similar ao mundo efetivo do que o mundo onde inventamos algum novo método radical de encolhimento?). Em suma, a distinção do empirista construtivo entre observável e inobservável parece completamente arbitrária.7

A segunda linha de raciocínio nos pede para considerar aqueles cujas ontologias observacionais são muito diferentes das nossas — os notáveis alienígenas com microscópios eletrônicos nos olhos. Nesse caso, o empirista construtivo enfrenta um dilema simples: embora por um lado pareça que ele devesse conceder que tais criaturas dotadas de instrumentos pudessem observar diretamente vários fenômenos microscópicos (ou então sua distinção sucumbiria ao chauvinismo epistêmico), por outro lado, parece que o empirista construtivo não pode conceder que tais criaturas possam observar diretamente fenômenos microscópicos — o mecanismo causal pelo qual os alienígenas observam os fenômenos microscópicos é exatamente o mesmo que o mecanismo causal pelo qual observamos fenômenos microscópicos (a única diferença saliente entre os dois casos é a diferença epistemologicamente inócua de que ao passo que os alienígenas têm seus microscópios eletrônicos permanentemente fixos em seus rostos, nós podemos deixar os nossos no laboratório), e, portanto, se os fenômenos microscópicos são observáveis para os alienígenas, então também o são para nós (Churchland, 1985: 43-44). Assim, do mesmo modo como o empirista construtivo sustenta algumas inferências contrafactuais enquanto rejeita outras — aparentemente equivalentes — , também permitem que certos mecanismos causais mediem observações diretas, ao passo que negam que outros mecanismos causais — aparentemente equivalentes — o façam. Uma máquina encolhedora não é mais ou menos estranha do que uma nave espacial intergaláctica, e um microscópio eletrônico colado ao rosto de alguém é ainda um microscópio eletrônico; a distinção do empirista construtivo entre fenômenos observáveis e inobserváveis parece, portanto, repousar em nada mais do que uma clara desonestidade epistemológica.

Contudo, assim como essas objeções referentes à alegada equivalência justificativa das ontologias observável e inobservável do empirismo construtivo, podemos também mostrar as fraquezas desses argumentos que dizem respeito à alegada inconstância inferencial do empirista construtivo. Em resposta a essa primeira objeção — de que o empirista construtivo deveria acreditar naquilo que suas teorias científicas dizem acerca dos fenômenos inobserváveis, uma vez que isso não exige uma confiança maior nas contrafactuais do que exigiria ao se acreditar naquilo que dizem acerca dos fenômenos observáveis (ou conversamente, de que o empirista construtivo se recusa a acreditar em algo além daquilo que suas teorias científicas dizem acerca dos fenômenos meramente observados) — podemos notar que há de fato razões perfeitamente boas para supor que uma lua distante ou um dinossauro extinto sejam observáveis em princípio e que não se transformam em boas razões para supor que partículas subatômicas sejam observáveis em princípio. Recorde-se que para o empirista construtivo a distinção entre fenômenos observáveis e inobserváveis é uma distinção empírica a ser determinada por nossas melhores teorias científicas acerca do comportamento da luz e da fisiologia do olho humano. Essas teorias científicas têm muito a nos dizer sobre os vários parâmetros que determinam se algo pode ou não ser observado: o tamanho do objeto a ser observado; a freqüência da radiação eletromagnética dispersada ou emitida pelo objeto em questão; o poder de resolução do olho do observador; e assim por diante. Crucialmente, porém, nenhumas dessas teorias contêm quaisquer parâmetros para exatamente em que tempo e espaço o evento observacional supostamente tem ocorrer. Assim, temos boas razões para supor que a nossa lua distante é observável precisamente porque nossas melhores teorias científicas nos dizem que um objeto que está longe pode ser observado pelo olho humano, e que estar simplesmente a bordo de alguma espaçonave imaginada muito distante da Terra não faz absolutamente qualquer diferença para a emissão e absorção de radiação eletromagnética. Em contraste, porém, temos razões igualmente boas para supor que as partículas subatômicas não podem ser consideradas observáveis em princípio precisamente porque nossas melhores teorias científicas nos dizem que o tipo da imensa transformação física acarretada pelo cenário do encolhimento considerado acima é exatamente o tipo de variação que terá um efeito significante sobre nossas modalidades sensíveis. Pondo de outro modo: a distinção do empirista construtivo entre fenômenos observáveis e inobserváveis tem de ser determinada por nossas melhores teorias científicas relativo a uma comunidade epistêmica (i.e., no que diz respeito à fisiologia de olho humano); assim, ainda que aconteça de um observador suficientemente diferente poder se deparar diretamente com partículas subatômicas (embora pareça improvável dado o que sabemos sobre o comportamento da luz), seria irrelevante para nossos presentes propósitos, uma vez que tal observador já não poderia nos dizer qualquer coisa interessante no que diz respeito à nossa comunidade epistêmica.

Essa questão acerca do escopo apropriado de nossa comunidade epistêmica é também importante no que diz respeito ao segundo argumento de Churchland. É a objeção de que uma vez que se concedesse que alienígenas com microscópios nos olhos pudessem observar diretamente fenômenos microscópicos, embora neguem que seres humanos com microscópios separados possam observar diretamente tais fenômenos, o empirista construtivo seria forçado à incômoda conclusão de que alienígenas e seres humanos “têm de adotar atitudes epistêmicas diferentes frente ao mundo microscópico, muito embora suas conexões causais com o mundo e suas experiências contínuas dele sejam idênticas” (1985: 44 [ênfase original]. Mas como van Fraassen (1985: 256-258) aponta, há um equívoco nesse argumento. Se encontrássemos tal raça de alienígenas acrescidos de instrumentos, duas possibilidades nos seriam apresentadas. A primeira é a de que, no espírito da boa vontade intergaláctica, receberíamos esses indivíduos em nossa comunidade epistêmica — tratá-los-íamos, para os devidos fins, como se fossem “um de nós”. Estivesse isso a acontecer, nossa noção de observalidade seria por isso estendida: uma vez que alguns dos membros de nossa comunidade epistêmica seriam agora capazes de fazer observações diretas de fenômenos microscópicos, tais fenômenos entrariam por isso no escopo daquilo que conta como observável para nós. Naturalmente, tal eventualidade pode muito bem exigir uma divisão substancial do trabalho epistêmico, com nossos vizinhos de aparência peculiar tendo maior autoridade sobre aquilo que nós (a comunidade) podemos e não podemos ver; mas o ponto importante a se notar é que em tal situação o empirista construtivo seria forçado a atribuir estatuto epistêmico diferente a indivíduos de outro modo causalmente indistinguíveis.

A segunda possibilidade é a de que, tomados por uma xenofobia devastadora, recusamos a acomodar esses alienígenas acrescidos de instrumentos em nossa comunidade epistêmica. Nesse caso, a nossa noção de observabilidade permaneceria a mesma. Contudo, ao recusar tais indivíduos como membros de nossa comunidade epistêmica, o empirista construtivo novamente evita qualquer ataque de inconstância epistêmica. O ponto básico é que se não consideramos esses alienígenas como parte de nossa comunidade epistêmica, supor que as suas “conexões causais com o mundo e suas experiências contínuas dele” são idênticas às nossas é simplesmente supor aquilo que está em causa. De um ponto de vista epistemológico, não temos razões para tratar esses alienígenas acrescidos de instrumentos de modo diferente dos microscópios eletrônicos mais familiares — e menos animados — que encontramos no laboratório.

A objeção de Churchland confunde essas duas possibilidades. Ele pede que imaginemos uma situação em que presumimos que esses alienígenas acrescidos de instrumentos possuem as mesmas conexões causais e experiências contínuas que nós, enquanto que ao mesmo tempo se recusa a considerá-los como membros de nossa comunidade epistêmica. Mas mesmo permitir tal cenário é cometer uma petição de princípio a favor do realismo de Churchland — pressupor uma perspectiva particular sobre os mecanismos inobserváveis supostamente comuns à detecção microscópica e à observação que o empirista construtivo simplesmente nega que estejamos em posição de saber. Para Churchland, temos boas razões para acreditar nos resultados de nossos instrumentos científicos consideremos ou não tal instrumentação como parte da nossa comunidade epistêmica, uma vez que para Churchland há inferências racionalmente obrigatórias a se fazer acerca do sucesso preditivo e manipulativo da detecção instrumental e da observação extraterrestre, respectivamente. Mas para o empirista construtivo, tais inferências não são racionalmente obrigatórias, e as únicas circunstâncias nas quais seriamos forçados a confiar ipso facto na palavra dos nossos vizinhos acrescidos de instrumentos seriam circunstâncias nas quais seriamos forçados por isso a rever as fronteiras de nossa comunidade epistêmica.

Novamente, portanto, nenhum argumento sobre a distinção entre fenômenos observáveis e inobserváveis precisar causar grande desconforto ao empirista construtivo, ainda que tomado em seus próprios termos: a defesa supostamente arbitrária de certas possibilidades contrafactuais remotas, mas não outras, baseia-se de fato naquilo que nossas melhores teorias científicas nos dizem que são considerações relevantes no que respeita à observabilidade; e os supostos padrões duplos acerca dos mecanismos causais de outro modo equivalentes só podem ser considerados como tais se já se favorecer o realismo científico em detrimento do empirismo construtivo. Ainda mais importante, e novamente como os argumentos anteriores relativos à equivalência justificativa das ontologias observável e inobservável do empirista construtivo, essas objeções também pressupõem uma concepção específica do enquadramento epistemológico de fundo — não apenas que as hipóteses indiciariamente equivalentes deveriam ser tratadas igualmente (i.e., que não há espaço para considerações pragmáticas ou avaliativas na formação de atitudes doxásticas), mas, além disso, que nossas práticas inferenciais são regidas por certas regras que não admitem exceção. Assim, possibilidades contrafactuais similares têm de ser julgadas de modo similar, provável ou improvavelmente, (embora certamente tenhamos visto razões para duvidar que as possibilidades contrafactuais em questão sejam suficientemente similares), e mecanismos causais equivalentes deveriam ser considerados equivalentemente verídicos ou enganadores (embora certamente tenhamos visto razões para duvidar que os mecanismos em questão sejam considerados equivalentes sem cair em circularidade). A aplicação sem exceções de regras inferenciais obrigatórias a nada mais nada menos do que nosso indícios — é esse o enquadramento epistemológico subjacente a essas críticas ao empirismo construtivo, e que os empiristas construtivos explicitamente rejeitam.

1.3 A nova epistemologia

1.3.1 Os modelos inglês e prussiano de racionalidade

Até agora tenho discutido os elementos do chamado enquadramento epistemológico tradicional subjacente a muitas das objeções do realista científico ao empirismo construtivo, e que a filosofia da ciência de van Fraassen procura rejeitar: a ideia de que a racionalidade é uma prática regida por regras através das quais certas práticas inferenciais exigem nosso consentimento universal; e a ideia de que o processo de revisão é completamente esgotado pela aplicação sistemática desses métodos inferenciais aos nossos corpos de indícios. Contudo, notar quais elementos dessa imagem epistemológica familiar o empirista construtivo rejeita não é em si informativo — e nem muito convincente — sem uma caracterização positiva dos elementos de seu enquadramento epistemológico alternativo.

No Capítulo 2, ofereço uma avaliação mais detalhada do voluntarismo epistêmico de van Fraassen, e em particular dos argumentos específicos que ele avança a favor do que vem a ser uma concepção extremamente minimalista de racionalidade. Mas para os nossos presentes propósitos, podemos começar a determinar e iluminar essa perspectiva epistêmica localizando-a no contexto de algumas questões epistemológicas mais amplas e familiares. A primeira é o venerável problema do ceticismo, de como é que podemos ter algum conhecimento do mundo externo. Há, aproximadamente falando, duas abordagens diferentes que podemos dar a esse problema (van Fraassen, 1989: 170-171). A primeira é conceder que nossas crenças cotidianas precisam de justificação frente ao desafio cético, e, consequentemente, tentar encontrar uma base segura sobre a qual possamos construir o nosso edifício do conhecimento. Assim, os fundacionistas tentam isolar aquelas ideias indubitáveis que estão livres do desafio cético, e mostrar como tudo aquilo que sabemos pode ser garantido por essa base. Uma manifestação recente dessa estratégia seria a ideia de um “dado do sentido” — novamente, uma experiência fundacional que se pode admitir sem dúvidas — e o projeto de tentar “construir” as nossas experiências mais complexas fora dessas matérias escassas. A segunda estratégia, em contraste, rejeita o desafio cético como estabelecendo uma exigência irrealista e implausível. A ideia aqui é que já nos localizamos no mundo externo guiados por um conjunto de crenças que de outro modo não teríamos razão para questionar; afinal, todos temos de começar por algures, de modo que o desafio cético é visto como dependendo não de que forneçamos ainda mais justificação para as crenças que razoavelmente consideramos com bem fundadas, mas de que o cético nos forneça argumentos específicos para rejeitar crenças específicas.

O contraste entre essas duas abordagens ajuda a ilustrar aquilo que van Fraassen tem em mente com o seu enquadramento epistemológico alternativo. A primeira resposta ao desafio cético é semelhante à epistemologia tradicional que van Fraassen rejeita: na tentativa de responder ao cético diretamente, aqueles que favorecem a primeira estratégia estão a defender com isso a ideia de que aquilo em que se deveria acreditar é (meramente) aquilo que se pode fornecer razões suficientes para se acreditar; similarmente, ao criticar a distinção do empirista construtivo entre fenômenos observáveis e inobserváveis com base em sua suposta equivalência epistemológica, o realista científico está a defender a ideia de que aquilo que se deveria acreditar é (exatamente) aquilo que se pode fornecer razões suficientes para se acreditar. Em ambos os casos a suposição epistemológica de fundo é a de que as nossas práticas doxásticas são completamente determinadas por certas regras inferenciais — não acreditamos em qualquer coisa que não tenha sido gerada pela regra inferencial apropriada, e acreditamos em tudo aquilo que é gerado pela regra inferencial apropriada. A revisão de crenças é entendida como um processo sistemático, até mesmo mecânico.

Conversamente, a segunda resposta ao desafio cético é semelhante ao novo enquadramento epistemológico que van Fraassen defende: recusando-se em tratar diretamente com o cético, aqueles que favorecem a segunda estratégia estão a defender a ideia de que aquilo que se está justificado a acreditar é mais do que simplesmente aquilo que se pode defender frente ao desafio cético; e similarmente, ao rejeitar a crítica de que nossas ontologias observável e inobservável estão igualmente justificadas, o empirista construtivo está a defender a ideia de que não é preciso acreditar em algo que possa ser inferido dos dados. Em ambos os casos a suposição epistemológica de fundo é a de que as nossas práticas doxásticas são muito mais uma questão de pragmática e valores do que de regras e indícios — na memorável passagem de van Fraassen, “aquilo em que é racional acreditar inclui qualquer coisa em que não se esteja racionalmente forçado a desacreditar [...] Racionalidade é apenas irracionalidade controlada” (1989: 171-172 [ênfase original]).

A segunda, e mais específica, questão epistemológica que pode nos ajudar a situar a perspectiva particular de van Fraassen diz respeito à produção de hipóteses. Essa questão é especialmente importante para a filosofia da ciência, mas mesmo em contextos cotidianos temos inevitavelmente de formar opiniões sobre o mundo que vão além dos indícios — se essas são suposições sobre a uniformidade da natureza e de como as coisas evoluirão no futuro, ou suposições sobre os alcances inobserváveis da realidade que consideramos estar subjacente àquilo que de fato encontramos. E novamente, há, grosso modo, duas abordagens diferentes que se pode adotar frente a essa questão (van Fraassen 1989: 172-173): a primeira é a perspectiva de que apenas as hipóteses positivamente apoiadas por nossos indícios atuais deveriam ser permitidas; a segunda é a opção mais liberal de se permitir qualquer hipótese que não seja explicitamente excluída por nossos indícios atuais. A primeira opção novamente se relaciona ao tipo de epistemologia baseada em regras que já se mostrou estar por trás das objeções do realista científico ao empirismo construtivo: aqueles que favorecem a primeira opção de produção de hipóteses pressupõem que há certos cânones da prática inferencial que, quando aplicados ao nosso corpo de indícios, determina conclusivamente no que é racional e no que não é acreditarmos (o bayesianismo estrito, que nos diz precisamente como atualizar nossas probabilidades subjetivas frente a aquisição de novos indícios, é o exemplo mais claro desse tipo de abordagem); similarmente, quando o realista científico reclama que o empirista construtivo está a fazer um tipo de inferência em um caso, enquanto que faz um tipo diferente de inferência em outro (como em suas conclusões alegadamente arbitrárias sobre os diferentes tipos de possibilidade contrafactuais), ele está a pressupor que há um único cânone de prática inferencial que neste caso o empirista construtivo é epistemologicamente ubíquo por apenas defender quando lhe apraz.

Em contraste, a segunda opção se relaciona à concepção mais permissiva de racionalidade de van Fraassen. Ao permitir que todas as hipóteses que não foram explicitamente excluídas, aqueles que favorecem essa segunda opção estão a conceder, junto com William James, que nossas práticas doxásticas estão intimamente relacionadas aos nossos valores doxásticos: somos confrontados com objetivos conflitantes de querer adquirir a verdade e evitar o erro, podendo satisfazer o primeiro simplesmente por acreditar em tudo (o que maximizaria, portanto, nossas crenças verdadeiras), e o segundo podendo ser satisfeito simplesmente por se acreditar em nada (o que minimizaria, portanto, nossas crenças falsas); o truque é, com certeza, encontrar um meio termo conveniente e, uma vez que não pode haver algoritmo para isso, qualquer que seja o meio que se procure para balancear esses objetivos conflitantes será em última instância uma questão de preferência pessoal (James, 1948). Similarmente, quando o empirista construtivo rejeita a alegação de que ele tem sempre de tirar os mesmos tipos de conclusão contrafactual dos mesmos tipos de indício, ou que ele tem sempre de inferir a verdade de suas melhores explicações, ele está a avançar a tese de que deveríamos acreditar naquilo (ou de modo equivalente, naquilo que é racional acreditar) que não pode ser completamente ditado pela aplicação desinteressada de um conjunto de regras — perguntar pela a atitude apropriada que deveríamos ter perante os vários elementos de nossas teorias científicas é em si perguntar por aquilo que deveríamos tomar como sendo o objetivo da ciência; e aquilo que tomamos como o objetivo da ciência é em si uma expressão de nossos valores epistemológicos, ou do nosso desejo pela verdade e da aversão ao erro, que determinarão em si quando estaremos preparados para fazer uma inferência e quando não estaremos.

Esses dois temas — que estamos justificados em nossas crenças na medida em que não temos razão específica para duvidar delas, e que quaisquer inferências que queiramos tirar de nossas crenças serão determinadas mais por valores epistemológicos do que por algum dito abstrato da razão — se conformam com o que van Fraassen se refere como os conceitos prussiano e inglês de lei (van Fraassen, 1989: 171). A racionalidade é, com certeza, uma questão daquilo que é ou não permitido fazer (epistemicamente falando), e na esfera legal há duas maneiras contrastantes de se fazer essas especificações. O conceito prussiano é uma abordagem crescente: foca-se naquilo que é permitido fazer, lista as ações que são consideradas legais e então especifica que “tudo aquilo que é proibido é aquilo que não é explicitamente permitido”. Em contraste, o conceito inglês é uma abordagem decrescente: foca-se naquilo que é proibido fazer, lista as ações que são consideradas como crime, e então especifica que “tudo aquilo que é permitido é aquilo que não é explicitamente proibido” (van Fraassen, 1989: 171). E o mesmo ocorre com as concepções tradicional e voluntarista da racionalidade. Para o realista científico há certas crenças que podem ser sustentadas (relativo a um conjunto particular de dados), e há certas inferências que podem ser feitas; e qualquer coisa mais (tal como o diletantismo doxástico do empirista construtivo) é considerada irracional, portanto. Para o empirista construtivo há certas crenças que são proibidas de se sustentar (relativo a um conjunto particular de dados), e há certas inferências que não se está proibido de fazer; e qualquer coisa mais (a desigualdade contrafactual, recusar-se a inferir a verdade das melhores explicações) é tudo que se poderia esperar por “racional”.

1.3.2 Relativismo, ceticismo e voluntarismo

De acordo com a chamada epistemologia voluntarista de van Fraassen, a racionalidade tem de ser considerada uma questão de permissão ao invés de obrigação, em que se está racionalmente autorizado a acreditar em qualquer coisa que não se seja racionalmente forçado a desacreditar (essa caracterização também pode ser encontrada em van Fraassen (2000: 277; 2002: 92, 97)), ou para abordar o mesmo ponto de um outro ângulo, em que um agente possa ser considerado racional ao sustentar uma combinação particular de crenças apenas no caso dessa combinação não sabotar sua própria possibilidade de defesa (van Fraassen, 1985: 248; 1989: 157). Isso significa basicamente que uma vez que se tenha mostrado que o conjunto de crenças de alguém cumpre os padrões mínimos de consistência lógica e coerência probabilística (o critério mínimo para se evitar a auto-sabotagem epistêmica), simplesmente não há trabalho adicional para uma epistemologia substancial fazer.8

No entanto, ainda precisamos considerar como exatamente esse enquadramento permite ao empirista construtivo responder — ou melhor, contornar — as objeções levantadas pelo realista científico sobre a distinção entre fenômenos observáveis e inobserváveis, ou mais especificamente, como esse enquadramento permite ao empirista construtivo responder seus críticos sem com isso minar completamente o projeto epistemológico. Podemos por o problema com se segue. Qualquer enquadramento epistemológico que adotemos se deparará em última instância com duas questões fundamentais: o estatuto de nossas crenças atuais e o método pelo qual revisamos essas crenças. Recorde-se das analogias traçadas na seção anterior com os problemas do ceticismo e a hipótese da produção; podemos ver que o voluntarismo epistêmico de van Fraassen está comprometido com as teses de que não há justificações independentes disponíveis para nossas crenças atuais (não podemos evitar começar por algures, e o cético é, portanto, filosoficamente perverso em exigir as justificações que exigem), e que não há justificações independentes disponíveis para as inferências ampliativas que fazemos de nossos indícios (se se deseja a verdade a todo custo, dever-se-ia então fazer tantas inferências ampliativas quanto se possa; se se procura evitar o erro a todo custo, então não se deveria fazer quaisquer inferências ampliativas afinal). São essas duas linhas de raciocínio que o permitem resistir à conclusão do realista: só porque se pode oferecer um argumento a favor de que se deveria considerar epistemicamente a par aquilo que nossas teorias científicas dizem acerca dos fenômenos observáveis e inobserváveis, não se segue que o empirista construtivo seja irracional por não fazê-lo; e só porque se pode oferecer um argumento de que a veracidade de nossos instrumentos científicos é a melhor explicação de sua fiabilidade, não se segue que o empirista construtivo seja irracional por não tirar tal conclusão. Mas se não há justificações independentes disponíveis para as nossas crenças atuais, e nenhumas justificações independentes disponíveis de como extrapolamos nossas crenças, então nossas vidas epistêmicas parecem fadadas ou ao ceticismo debilitante (se supormos que a noção de justificação é algo pelo qual devêssemos aspirar) ou ao relativismo (se supormos que a noção de justificação é algo que podemos passar muito bem sem ela). Ambas as conclusões são inaceitáveis, e é importante notar como o voluntarismo epistêmico tentar transitar entre as duas.

No que respeita à primeira conclusão, tem-se de ter em mente que uma falta de justificação de nossas crenças atuais, e uma falta de justificação para os nossos métodos de inferência ampliativa apenas acarretarão o ceticismo se também supusermos que é irracional sustentar uma crença (ou fazer uma inferência) que não é justificada. Essa é certamente a suposição do cético, e é uma premissa implícita em qualquer argumento cético. Contudo, é uma suposição que muitos recusam, e não apenas o voluntarista epistêmico. Uma comparação útil aqui é com o bayesianismo estrito que vimos acima. De acordo com o bayesianismo, a racionalidade consiste na atualização mecânica de nossas probabilidades subjetivas frente novos indícios, um processo que se pode dar uma formulação matemática precisa. Contudo, não é parte da maquinaria bayesiana — e, por conseguinte, de acordo com essa perspectiva, do projeto epistemológico per se — a origem das crenças que são atualizadas; isso quer dizer que se pode atribuir qualquer probabilidade inicial que se queira a uma proposição desde que se esteja disposto a atualizar essa probabilidade da maneira especificada. Desse modo, assim como o voluntarista epistêmico, os bayesianos negam que haja quaisquer justificações disponíveis para nossas crenças atuais; negam ainda que sua posição sucumba a um ceticismo debilitante, uma vez que não podendo estar completamente justificados em nossas crenças, podemos pelo menos estar completamente justificados em nossas avaliações do quão mais ou menos provável são as nossas crenças condicional a qualquer nova porção de indícios. O voluntarista epistêmico dá um passo a mais que o bayesiano estrito em relação a isso, no entanto. A condicionalização bayesiana é um processo não ampliativo — com efeito, é simplesmente uma restrição na distribuição das probabilidades subjetivas de um agente num momento particular do tempo. Assim, o bayesiano concorda com o voluntarista epistêmico que não há justificações independentes disponíveis para os nossos métodos de inferência ampliativa, e nesse caso também concorda com o cético que é irracional usar um método injustificado de inferência ampliativa — as conclusão tirada pelos bayesianos é, portanto, que se deveria abandonar completamente todos os métodos ampliativos de inferência e fiar-se nas ferramentas fornecidas pelo cálculo de probabilidades (não ampliativo). Mas isso é, com certeza, defender o tipo de epistemologia baseada em regras que o voluntarista epistêmico também se esforça para rejeitar, sustentando ao invés que o modo de revisarmos nossas crenças é muito mias uma questão de valor do que de regra. Desse modo, assim como ele nega que seja irracional sustentar uma crença que não é justificada, o voluntarista epistêmico também nega que seja irracional fazer uma inferência ampliativa que não seja justificada. O ceticismo é, portanto, evitado, uma vez que de acordo com a concepção de racionalidade do voluntarista epistêmico, não há qualquer coisa de irracional nas práticas de outro modo injustificadas com as quais o cético discorda.

Tais considerações, no entanto, parecem deixar o voluntarista epistêmico na posição igualmente desagradável do relativismo: se é racional sustentar uma crença sem qualquer justificação independente, e é racional executar qualquer tipo de inferência ampliativa sem justificação independente, então pode parecer que qualquer conjunto de crenças é tão bom quanto qualquer outro — perdemos a capacidade de criticar outros, e temos simplesmente de aceitar que o que é racional para mim pode não ser racional para você. Mas há dois pontos a serem lembrados aqui. O primeiro é que, mesmo em tal concepção mínima de racionalidade, ainda permanecem as restrições básicas de consistência lógica e coerência probabilística: é racional acreditar em qualquer coisa que não se seja racionalmente forçado a desacreditar, e um conjunto de crenças que garante que tais crenças não possam ser todas verdadeiras ao mesmo tempo é exatamente o tipo de combinação autorrefutante que alguém é forçado a desacreditar. O segundo ponto a se ter em mente é que racionalidade não é o mesmo que verdade: dois agentes diferentes podem ser racionais ao sustentar crenças conflitantes, muito embora pelo menos um deles tenha de estar errado, uma vez que para o voluntarista epistêmico se pode ser racional ao sustentar uma crença falsa. E isso certamente nos conduz de volta a como inicialmente introduzimos o empirismo construtivo — aceitar uma teoria científica envolve apenas a crença de que ela é empiricamente adequada, e a questão de se a teoria é verdadeira ou não (como oposta a uma teoria preditivamente bem sucedida, embora falsa, como a mecânica newtoniana) é simplesmente irrelevante para a compreensão filosófica da prática científica.

Meus comentários aqui naturalmente estão longe de serem completos, e como veremos no Capítulo 2, os perigos gêmeos do ceticismo e relativismo voltarão a assombrar a defesa de van Fraassen do voluntarismo epistêmico: dois dos argumentos centrais que van Fraassen avança a favor de seu enquadramento epistemológico mínimo são que o desafio cético torna uma epistemologia mais substancial insustentável, e que um enquadramento epistemológico que leva a sério o papel de nossos valores epistêmicos fornece um enquadramento mais satisfatório para certos debates metafilosóficos sobre como proceder — por exemplo — na filosofia da ciência. Contudo, ao invocar as considerações céticas necessárias para colocar em causa uma epistemologia baseada em regras, van Fraassen também ameaça colocar em causa a sua alternativa mais parcimoniosa; e ao reduzir muitos de nossos desacordos metafilosóficos a expressões de gosto, van Fraassen ameaça com isso tornar tais debates insolúveis. Permanece, portanto, um delicado ato de equilíbrio tanto de resistir ao realista científico negando que exista uma justificação independente para ou nossas crenças ou métodos de inferência quanto de resistir ao cético e/ou relativista negando que seja irracional por meio disso sustentar essas crenças e fazer tais inferências.

1.4 Sumário

O empirismo construtivo — como foi formulado e desenvolvido por seu criador, Bas van Fraassen — não faz quaisquer alegações sobre a natureza da ciência: é uma perspectiva sobre o objetivo da ciência, e como tal é inteiramente neutro no que respeita as atitudes epistêmicas que deveríamos sustentar frente às consequências das nossas teorias científicas aceitas. Na verdade, o empirista construtivo está comprometido com a tese de que não precisamos acreditar que as nossas teorias científicas aceitas sejam verdadeiras a fim de dar sentido à prática científica, uma vez que a crença de que elas são meramente empiricamente adequadas é supostamente suficiente. Mas afirmações sobre no que devemos acreditar não determinam a nossa política epistêmica: como Ladyman et al. (1997: 318-319) observam, poder-se-ia concordar que o objetivo da ciência é meramente a adequação empírica, concordar que não precisamos acreditar que nossas teorias científicas aceitas sejam mais do que empiricamente adequadas a fim de acomodar a prática científica contemporânea, e ainda assim manter como uma questão de fato epistemicamente bem locada que nossas teorias científicas aceitas são verdadeiras; e conversamente, poder-se-ia negar que o objetivo da ciência seja a mera adequação empírica, negar que precisamos apenas acreditar que nossas teorias científicas aceitas são empiricamente adequadas a fim de acomodar a prática científica contemporânea, e ainda assim manter um grau saudável de ceticismo sobre a atividade como um todo.

Além do mais, é também claro que o empirismo construtivo — como foi articulado e defendido por van Fraassen — não pode fazer quaisquer reivindicações epistemológicas sobre a natureza da ciência. Isso se segue do projeto epistemológico mais amplo no qual está situado. De acordo com a chamada epistemologia voluntarista de van Fraassen, a racionalidade tem de ser considerada como uma questão de permissão ao invés de obrigação, onde se é racionalmente permitido acreditar em qualquer coisa que não se esteja racionalmente forçado a desacreditar. Em suma, uma vez que se mostra que um conjunto de crenças cumpre os critérios de consistência lógica e coerência probabilística, simplesmente não há trabalho adicional para uma epistemologia substancial fazer. Consequentemente, o empirismo construtivo não pode ser interpretado como uma tese epistemológica sobre a natureza da ciência — por exemplo, sobre quais das afirmações de nossas teorias científicas aceitas estamos justificados a acreditar — uma vez que nesse enquadramento voluntarista as questões substanciais de justificação e garantia são simplesmente discutíveis.

É precisamente essa componente da filosofia da ciência de van Fraassen que é o principal foco deste livro. Pois embora seja claro que uma perspectiva sobre o objetivo da ciência será perfeitamente neutra no que respeita qualquer perspectiva acerca do objetivo da ciência, parece igualmente claro que qualquer perspectiva sobre o objetivo da ciência estará intimamente relacionada a uma perspectiva específica sobre a filosofia da ciência. Como vimos nos exemplos de Churchland e Hacking, defender o realismo científico é ipso facto defender uma concepção particular de racionalidade científica — uma concepção de acordo com a qual somo racionais em acreditar apenas naquilo que temos boas razões para acreditar, e cujo processo de revisão de crença é esgotado pela aplicação desinteressada de um cânone inquestionável de regras. Consequentemente, defender o empirismo construtivo é defender também uma concepção particular de racionalidade científica, de como estamos mesmo a conceber o debate sobre o realismo científico — e na perspectiva de van Fraassen, isso é defender uma concepção de racionalidade pela qual somos racionais em acreditar naquilo que não temos boas razões para não acreditar, e cujos métodos de inferência são entendidos como permissíveis ao invés de obrigatórios. Contudo, embora eu concorde com a premissa do argumento de van Fraassen, discordo da conclusão: defender uma perspectiva particular sobre o objetivo da ciência é defender uma perspectiva particular da filosofia da ciência; mas discordo que a distinção entre uma concepção “tradicional” de racionalidade baseada em regras e uma epistemologia “voluntarista” baseada em valores seja a maneira mais prometedora na qual tratar essa questão.

No Capítulo 2 discutirei o voluntarismo epistêmico de van Fraassen em mais detalhes, e em particular examinarei os vários argumentos que ele avança a favor da sua concepção minimalista de racionalidade. Embora a minha avaliação desses argumentos seja completamente negativa, o principal trabalho crítico será feito no Capítulo 3, onde argumento que a combinação do empirismo construtivo e do voluntarismo epistêmico é, tal como se encontra, insustentável: a fim de defender a coerência interna de sua perspectiva sobre o objetivo da ciência, o empirista construtivo tem de recorrer a mais recursos epistemológicos dos aqueles que são fornecidos pelo voluntarismo epistêmico. No Capítulo 4, delineio tal enquadramento, baseado não nos vários padrões de racionalidade que se podem ligar à filosofia da ciência, mas nas várias atitudes que se pode sustentar frente a uma proposição ou teoria — uma distinção já implícita na apresentação de van Fraassen do empirismo construtivo, embora ainda insuficientemente desenvolvida. Assim, embora grande parte da discussão que se segue seja devotada à crítica de seus pontos de vistas específicos, a premissa central deste trabalho é a de que van Fraassen está essencialmente correto, e que não se pode fazer progresso em filosofia da ciência sem prestar atenção nas pressuposições epistemológicas de fundo que aparecem no debate. Essa ideia por si só é interessante o suficiente para garantir um exame atento, e com sorte, pode ainda ajudar a causa do empirista construtivo.

Paul Dicken
Extraído de Constructive Empiricism: Epistemology and Philosophy of Science, de Paul Dicken (Palgrave Macmillan, 2010)

Notas

  1. Devo essa distinção tripartida a Psillos (1999: xix).
  2. Essa parecia ser a perspectiva de pelo menos alguns dos envolvidos na chamada sociologia do conhecimento científico; veja, por exemplo, Bloor (1976).
  3. De longe a melhor discussão das motivações, fraqueza e possíveis refinamentos dessa perspectiva é ainda Carnap (1936, 1937). Veja Psillos (1999: Cap. 1).
  4. Essa perspectiva é principalmente associada a Ernest Mach (veja, e.g., o seu 1893; 1910). Para uma discussão crítica, veja Nagel (1950), Hempel (1958) e Psillos (1999: Cap. 2).
  5. A minha favorita é o indispensável Psillos (1999: Cap. 9).
  6. Um argumento similarmente retórico pode ser encontrado em Chiara e Chiara (1993) — ali o autores consideram o exemplo de um ácaro minúsculo, que com a ajuda de um microscópio podemos determinar que é circundado por oito pernas inda mais minúsculas. Uma vez que não podemos observar essas pernas diretamente, o empirista construtivo presumivelmente se recusaria a acreditar em sua existência; contudo, quando essas pernas são removidas (pelo menos de acordo com as nossas observações microscópicas), o ácaro é diretamente observado estando estacionário; e quando essas pernas são removidas de apenas um lado do se corpo (novamente, de acordo com as nossas observações microscópicas), o ácaro é diretamente observado andando em círculos (ibidem 654-655). Como no exemplo de Hacking, parecemos forçados a concluir, contra o empirista construtivo, que as detecções que fazemos através dos nossos instrumentos científicos são tão bem apoiadas quanto as observações que fazemos a olho nu.
  7. Há outra dificuldade relativa à atitude do empirista construtivo frente a questões modais, intimamente relacionada ao problema levantado acima por Musgrave, isto é, se as perspectivas do empirista construtivo sobre o objetivo da ciência são de fato compatíveis com as atitudes que ele sustenta perante as consquências modais de nossas teorias científicas a fim de manter tal perspectiva. Isso é discutido em detalhes no Capítulo 3.
  8. Além dessa caracterização algo negativa, o voluntarismo epistêmico de van Fraassen também contém uma tese positiva sobre a natureza dos juízos epistêmicos — aproximadamente falando, que defender uma crença (ou uma probabilidade subjetiva numa posição particular, etc.) não é tanto expressar um fato autobiográfico sobre o próprio estado mental mas se comprometer com um curso particular de ação. Essas característica é discutida em detalhe no Capítulo 2.
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